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Égua!

– Fia, como vai essa terra aí de Ourilândia?

– Vai bem, minha mãe. E BH?

– Bem, fia. Sabe, ligo pra te dar uma notiça que num é muito boa não.

– Pois diga, minha mãe.

– Seu tio Anastaço, mataram.

– Égua, mãe!

– Tá doente, menina? Como me trata assim? Num fui eu que matei não.

– Tá doida, mãe?

– Tu me chamô de égua, eu bem ouvi.

– Não mãe, esquece isso, depois explico. Mas diz por que mataram o tio.

– Vingança, ele tava com muié casada.

– Pai d’égua!

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Para quem gosta de peculiaridades lingüísticas, tá aí a de Ourilândia. Por aqui “caramba”, “carambola”, “cacete”, “caraca”, “cacildis”, “putsgrila”, “nossinhora”, “virgimãe”, “meudeus” e outras não tão escrevíveis foram substituídas pelo feminino de cavalo: égua.  Ou seja, deu topada, morreu alguém, tirou nota baixa, recebeu má notícia, é só mandar um saudável: égua! Porém, se o caso for gravíssimo e um égua não bastar, não pense que Ourilândia te deixará na mão. Já inventaram o possante “Pai d’égua”, um superlativo, algo como: “carambíssimo”, “cacetíssimo”, “caraquíssimo”, bom para ser usado em mortes maternas, batida de ônibus com caminhão e perda de nota de cem. Esta crônica é de utilidade pública, principalmente para regiões como Ourilândia, interior do Pará de forma geral e mesmo Nordeste. Difunda esta mensagem para que mais pessoas não fiquem na mão.

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– Januário, quem foi que descobriu a América?

– Égua!

– Zero! Pra aprender a não zombar mais da professora.

– Pai d’égua!

Antunes

Ourilândia (hahahahHAHahahaha), 26 de março de 2010

peculiaridades lingüísticas

Claro que eu sabia de nossas fricções lingüísticas, de nossa língua malandreada e de nossa informalidade vocabular, só não imaginava que o realce começava no primeiro bom dia, ou melhor BOM DJIA (como dizemos os cariocas). A cada fricção, surge um coro que faz se repetir pela sala de aula: ts, ts, ts… dj, dj, dj… xi, xi, xi… e por aí vai. Óbvio – orgulhoso que sou – que direi que há certa inveja de nossa despreocupação, de nossos escorregões e de como assobiamos e falamos ao mesmo tempo. Até aí caminhamos bem, o problema é quando os dicionários não batem. Levante-se aí, não tenha vergonha, cê é O CARA. E foi um mar de risos. Perguntei: mas que risos são esses? Ele é o cara mesmo, acertei? E foram mais risos. Todos gritavam É O CARA e abanavam com as mãos, com a munheca quebrada a lembrar-me o juiz Margarida, o Lafond, o Clovis Bornay… descobri que O CARA em Parauapebas é sinônimo de transviado e eu acabara de chamar o aluno de boiola. Outra dessas, foi o infeliz exemplo de divisão das turmas em dois grupos: assim, amados alunos, teremos o CURSO A e o CURSO B. Ouviram-se risos. Professor, O CU SUÁ só se for lá no Rio de Janeiro, aí descobri que CURSO A e CU SUÁ são homônimos homófonos em Parauapebas e ainda levei algumas horas pra entender a piada.
Posto o ponto final, deixo a dica para os cariocas: se se arriscarem em Parauapebas, ou Peba, como eles chamam, assim como chamamos de Rio nosso Rio de Janeiro, jamais falem em curso A, mas, em compensação sempre chamem os outros de O CARA e depois saiam com a desculpa: foi mal, é que eu sou do Rio de Janeiro. Afinal, quem disse que eu não sabia quando chamei assim o aluno?…