Arquivo da tag: Literatura

Prêmio Olhar Andarilho

Crônicas dumas Viagens recebeu o prêmio Olhar Andarilho pelo segundo lugar na categoria contos com a Estória no Zoológico de Buenos Aires. Agradeço aos responsáveis pelo concurso, a presidenta Rozelia Scheifler Rasia e aos visitantes do blog, sempre simpáticos à prática de escrita e invenção. Além disso, recebi mais duas menções honrosas: novamente na categoria contos e na categoria poesia.

Antunes
Rio de Janeiro, 22 de agosto de 2010

Leia o texto premiado: Estória do Zoológico de Buenos Aires

 

Certificado pela 2ª Colocação no Concurso Olhar Andarilho

O FETO DE LHAMA

Há alguma beleza no feto de lhama que foi poupado de nascer.

Dorme sobre a lona azul um sono que ainda não conheço e por isso o invejo e o temo.

Admiro um simples feto de lhama que repousa sobre a lona azul como o céu.

Seus pequenos olhos cerrados, lembram-me os bebês que vi quando menino em vidros de formol no laboratório da escola.

Será que lhe restou algum tempo para dilemas: “sair do calor do ventre materno direto para o frio da morte ou jamais morrer em um mundo de bruxas e feiticeiros?” –  Temo que sim.

Os fetos de lhama, imagino, são muito racionais e fraternos, quando se lhes dá espaço.

Há não só beleza no feto de lhama poupado de nascer, há valor.

Valor de qualquer coisa, de tudo. Pois no mundo das bruxas e feiticeiros, ou seja, no nosso mundo, o feto de lhama nos dá o que pedimos, basta falar com ele e libertá-lo do peso de ter um corpo ainda que morto.

O feto de lhama, já liberto de alma, pra se libertar do corpo, precisa ser queimado.

Todo dinheiro empregado para se ter um feto de lhama vira cinzas que viram o pedido realizado, assim se crê.

Observando o feto de lhama, notei que a maior diferença – se é que há – entre mim e ele é o fato dele ser lhama e eu gente.

A maior igualdade – observei – é que nós dois fomos feitos pra morte.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

Viagem Literária

Quien paga barato por el amor se está engañando.” (Edmundo Paz Soldán, Viaje a Oxford)

Quando viajo para outro país, ajo para que a viagem não seja exclusivamente física. Gosto de adentrar invisíveis mundos: opto por uma viagem que seja também literária. A época que mais li Borges foi pouco antes, durante e logo depois de visitar Buenos Aires. Foi, também, uma das épocas que mais ouvi Mercedes Sosa e li um livro com a História da Argentina. Desta vez, ao viajar para a Bolívia, estive perdido culturalmente. Por mais que eu pesquisasse, não achava tradicionais escritores e músicos. Aos poucos me deparei com alguns nomes que foram se revelando: Gabriel René Moreno e Augusto Céspede.

Eu queria atirar-me ao poço de Céspede. Procurei seus livros nas pequenas livrarias de Santa Cruz. Qual foi meu espanto: não os encontrei. Comecei a buscar novos escritores, pois a Bolívia está valorizando bastante sua recente geração literária. Achei um tal de Edmundo Paz Soldán que a princípio não levei a menor fé. Porém, em um dos livros estava uma recomendação de Mario Vargas Llosa, resolvi arriscar.

Comecei a leitura de SIMULACROS, seleção de contos, assim que cheguei ao hotel. Revelou-se a mim um escritor absolutamente contemporâneo, dialogal, de ótimas influências, de estórias curtas e surpreendentes. Em pouquíssimo tempo devorara o livro e o livro a mim… surgiu-me uma nova Bolívia: sem Andes, sem choclo, sem lhamas: um lugar flutuante sobre lugares e tempos, uma Bolívia sem caricaturas, uma Bolívia que é o mundo, um simulacro.

Indicações:

Siga Edmundo Paz Soldán no twitter: http://twitter.com/edpazsoldan

Blog de Edmundo Paz Soldán: http://www.elboomeran.com/blog/117/rio-fugitivo-blog-de-edmundo-paz-soldan/

Se você procura um livro com a história da Bolívia, leia: CAMARGO, Alfredo José. Bolívia – A Criação de um novo país. Funag.

Livros que comprei em Santa Cruz do Edmundo Paz Soldán

Por San Telmo busquei o Zahir

Zahir, em árabe, quer dizer ‘notório’, ‘visível’; em tal sentido, é um dos noventa e nove nomes de Deus; a plebe, em terras mulçumanas, emprega-o para ‘os seres ou coisas que tem a terrível virtude de ser inesquecíveis e cuja imagem acaba por enlouquecer as pessoas’.

(BORGES, O Zahir)

Em Buenos Aires o Zahir é uma moeda comum, de vinte centavos; (…) em Java, um cego da mesquita de Surakarta, a quem os fiéis lapidaram; na Pérsia, um astrolábio que Nadir Shah mandou atirar no fundo do mar…
(BORGES, O Zahir)

O tempo, que atenua as lembranças, agrava a do Zahir.
(BORGES, O Zahir)

O que vos contarei, leitor, tampouco sabe a Emanoelle. Saberá no exato momento em que ler este texto que transpira confissão.

Escolhi Buenos Aires como nosso destino por causa do Zahir. Não havia nada dos retóricos argumentos: pratica do espanhol, baile de tango, degustação de alfajores, romantismo bonaerense. Foi, exclusivamente, o Zahir – o ser que possui a virtude de jamais cair em esquecimento. Li, nas páginas de Borges, que Deus nunca permitirá que dois Zahir coabitem, pois seria de insuportável esplendor para o ser humano. Li, igualmente, que um Zahir, passara por Buenos Aires em forma de moeda. Apenas a leitura de tal palavra e hipótese, foi capaz de causar-me obsessão. Precisava atravessar o Rio da Prata.

Cheguei à terra de Borges com a convicção de que o Zahir estava sob posse de algum antiquário que, adoecido pelo fantástico, agonizava entre mantê-lo ou desfazer-se dele. Carreguei, escondido em meu bolso, um mapa que eu estudava trancado no banheiro. Algo misterioso me dizia que o Zahir poderia estar pelas ruas do bairro de San Telmo, perdido entre relógios de bolso, estátuas do século XVIII e tapeçaria antiga. A primeira vez que fui a San Telmo, acompanhou-me minha esposa (Emanoelle). Enquanto ela se admirava com os talheres de prata, os cucos e a indumentária pseudo-vitoriana, eu buscava o Zahir sem que ela desconfiasse. Mas, como encontrar uma moeda de vinte centavos entre o labirinto de vitrines? Atormentava-me pensar que ela poderia estar circulando entre tantas moedas, mas tranqüilizava-me compreender que o seu dono não teria facilidade para desfazer-se dela. A saída seria deixá-la ao acaso entre as quinquilharias, até que alguém a descobrisse. Perdê-la quase involuntariamente, pareceria a única saída.

O leitor deve imaginar, com total razão, que não achei o Zahir nesta primeira investida. Porém, ainda que eu acreditasse nunca tê-lo visto, atormentava-me a idéia por ter lido seu nome. Era quarta-feira de madrugada, esperei a Emanoelle adormecer e saí pelas ruas em busca do Zahir. San Telmo, às três da madrugada, estava povoada por gatos negros e alguma população de rua. Lembro de abaixar ao lado de um mendigo e entrevistá-lo, porém não obtive nenhuma resposta pertinente. Passei mais uma parte da madrugada indo aos bares que estavam abertos e recebendo respostas negativas e risos sobre o Zahir. Voltei, silencioso ao hotel, antes da Emanoelle acordar.

Na quinta-feira, repeti a investida, porém andava temeroso por ter saído sem avisar à minha esposa. Encontrei em San Telmo, um senhor que lembrava um compadrito que me confirmou a existência do Zahir, mas alegou não saber de seu paradeiro. Dobrei muitas esquinas e entrei em ruas que não lembro o nome, procurei por bueiros e clamei a Deus numa envergonhada oração mais bafejada que falada. De madrugada, com as mãos vazias, retornei ao quarto de hotel. Percebi que deveria voltar a San Telmo com as lojas ainda abertas.

Na sexta-feira, quis o destino que a Emanoelle acordasse indisposta. Comprometi-me em comprar-lhe um remédio. Às ruas, tomei um taxi e retornei a San Telmo. Desvairado, percorri lojas, revirei sucatas, conversei com vendedores, todos descrentes e infiéis à Literatura. Voltei ao hotel e disse à minha esposa que demorara por estar em falta o remédio que necessitava. Passei a tarde e a noite junto a ela.

No sábado, estivemos em Puerto Madero, atravessamos a Ponte da Mulher e nos beijamos. Ela disse que eu estava estranho, mas não lhe confessei nada. O Zahir continuava a perturbar-me, mas nunca na forma de moeda.

Domingo, voltamos ao Rio de Janeiro, fiquei ao lado da Emanoelle durante todo o dia. Jurei-lhe fiel amor e me perguntei se não seria remorso por sair às escondidas durante a viagem.

Segunda-feira, o despertador tocou às 5 da manhã. Às 5:15, minha esposa me cutucou para que eu acordasse. Disse-lhe que não iria trabalhar, ficaria ao lado dela durante todo o dia. Tive febre.

Terça-feira, novamente o despertador fez-se ouvir. Às 5:05, Emanoelle já me cutucava preocupada. Disse-lhe novamente que não iria trabalhar. Porém, fui colocado contra a parede: “Vinícius, o que está acontecendo contigo?”. Só consegui-lhe balbuciar: “És o Zahir!”

Antunes
Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2009

Pelas galerias de antiguidades de San Telmo

Zahir entre as quinquilharias de San Telmo