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O Profeta de Mucuripe

Fortaleza estava vazia como nós. Era páscoa e o profeta havia ressuscitado louco. Falava palavras sem sentido como a vida. Na cidade grande, ninguém ouve ninguém e todo profeta  contemporâneo bem-sucedido tem que ter um lado cibernético. O louco à minha frente era apenas um Antônio Conselheiro entre o cimento, um Padim Ciço com calça jeans e cheiro de fumaça. Um teísta que crê além-Mamom. Milagreiro que faz a conversão da água em mijo. O sertão não vai virar mar e o mar jamais virará sertão! Prega para o mar, mas o mar não ouve. Prega para a areia, mas a areia não ouve. Prega para as árvores, mas as árvores não ouvem. Prega para as pessoas, mas as pessoas não ouvem. Ouvir é um ato exclusivamente humano. Areia, árvores, pessoas não ouvem. Só o profeta é humano, por isso ele fala: pra se escutar, pra salvar sua alma em plena orla de Mucuripe.

– Que se salve. Segui meu caminho aguardando meu inferno.

Antunes
Fortaleza, 26 de maio de 2011

Narciso

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com
São um ou dois pássaros, ali do lado direito. Algumas plantas se movem, não dá pra saber quantas ou quais são. Umas imagens deformes parecem pessoas. Um rosto que vai se multiplicando e logo volta a ser um, fica torcendo e distorcendo, balançando sutilmente de um lado para o outro e às vezes se desfaz em anéis de água. São quatro ou cinco olhos negros, vidrados e curiosos. A pele também é negra e de múltiplos contornos.  O cabelo é ouriçado como anéis que uma pedra produz ao cair num lago. As orelhas não estão na mesma direção. A boca parece metade triste, metade feliz. O nariz é torcido. Parece que Deus é Edvard Munch. É o que Narciso vê refletido na Lagoa Rodrigo de Freitas, abaixado em um deck próximo ao Parque dos Patins.

Os turistas que passam, talvez não entendam ou não tenham tempo para entender. Os moradores já não se importam, pois sabem que aquele homem não faz mal algum. Enquanto todos caminham, fotografam, pedalam, Narciso vê apenas os reflexos na água da Lagoa, tal sombras platônicas redimidas. Detêm-se naquele rosto recriado pela Rodrigo de Freitas e se contempla de manhã à noite, quando o sono chega e o faz sonhar seu reflexo de água.

Seu rosto é o rosto do Cristo Redentor negro, seu corpo gigante escala a pedra da Gávea em posse de uma turista loira e de seios grandes, ele é um King Kong. Urra até despertar com o próprio urro. Recomeça o dia ajoelhado sobre um deque da lagoa. Os turistas contemplam a paisagem. Narciso contempla as imagens da Lagoa, seu rosto entrecortado por uma garrafa pet, seus olhos mesclados a sacos plásticos, seu cabelo espuma branca, sobre sua boca um peixe morto. Narciso quer mordê-lo: aproxima-se do reflexo a ponto de tocar o nariz no espelho d’água, submerge o rosto para abocanhar o peixe. Desequilibra-se. Narciso mergulha no reflexo, o reflexo acolhe Narciso. Parte a parte encontra-se o corpo: primeiro a cabeça, ao final, os pés. Mesclam-se numa figura única sob as águas sujas e calmas da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Antunes

Ilustração: Rogerio

Rio de Janeiro, 5 de março de 2011

O Profeta Louco

por Rogerio – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

De profeta e de louco, Gentileza tinha um pouco. Louco que falava de paz e de amorrr. Profeta que andava na rua vestido de louco. Quem deste mundo, senão um louco, falaria de paz e de amorrr com tanta persistência? Quem neste mundo, senão um profeta, escreveria em pedras seus mandamentos? Palavras de gentileza em verde e amarelo. Desejo insano de harmonia, botando medo do capeta, entregando ao demo o capital maldito que emporcalha a natureza humana. Quem, senão um louco, se diria um profeta? Quem, senão um profeta, ficaria louco com tanta iniquidade?

Rogerio
Rio de Janeiro, 1 de maio de 2010