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A mãe do árbitro

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

Arlindo Peçanha era árbitro de futebol. Andou pelo Maracanã nos anos 80 e 90, fininho, rápido, sempre em cima do lance, numa época em que a arbitragem ainda era famosa pelo excesso de barriga e escassez de agilidade. Orgulhava-se de sua invisibilidade em campo: árbitro bom é aquele que não aparece na partida. Os locutores mal sabiam seu nome, a torcida o desconhecia, jogo com Arlindo era arbitragem de videogame.

Lindalva Peçanha era a mãe de Arlindo. Senhora mui católica, mas sem ranço. Velhinha branquinha que nem neve, enrugada que nem damasco seco. Sempre orgulhosa do único filho. Viúva desde sempre, dizia. Não era muito de sair, não era muito de falar, porém quando saía, porém quando falava, dona Lindalva parava a rua. Era a pseudo-vovó mais simpática da Tijuca e, ultimamente, mostrava a dentadura à toa, estava à beira de completar noventa anos.

– Não acredito, mamãe!

– Que foi, Lindinho?

– Fui convidado pra apitar a final.

– Ai, minha virgiMaria, que coisa mais boa, sempre foi seu sonho!

– Mas, mamãe, a final é justamente no aniversário da senhora.

Apesar das eternas insistências da velha, Arlindo Peçanha nunca tinha levado dona Lindalva pra assistir a um jogo. Achava que futebol não era coisa pra mulher, muito menos pra uma senhora, muito menos ainda pra uma senhora sua mãe.

– O campo do Maracanã é grande, filho?

– É enorme, mãe.

– Maior que a casa do teu tio Arnaldo?

– Muito maior, mãe.

Dona Lindalva não entendia absolutamente nada de futebol, sequer entendia pra que servia a profissão do seu filho. Como podia vinte e dois homens não conseguirem organizar uma partida? E pra que um campo tão grande? Como podiam correr assim ao sol? E de onde saía tanta gente pra ver aqueles jogos? Se uma mulher pode chegar aos 90 anos com alguma curiosidade, a de dona Lindalva era essa: o que acontecia dentro do Maracanã?

– Filho, já sei um presente.

– Que bom, mamãe. A senhora não é de pedir presentes.

– Quero ir ao jogo.

– Esquece, mamãe. É seu aniversário.

– Por isso mesmo.

– Não, nada disso. Eu não vou apitar essa final, vou pedir pra escalarem outro.

– Tá doido, menino? Te dou umas bolachas!

– A senhora pode tirar o cavalinho da chuva, a senhora não vai.

– Vou sim.

– Não vai não e tenho dito.

Até que chegou o dia da final, até que chegou o aniversário de dona Lindalva.

– Quer um picolé, mamãe?

– Não, deve estar muito gelado.

– A senhora vai ficar sentadinha aqui nessa cadeira e não vai se mexer até o jogo acabar.

– Isso daqui tá ficando muito cheio, né?

– Eu avisei pra senhora.

– Ai, eu sei… eu sei… parece até que a velha é você e não eu.  Vai trabalhar.

– Até, mãe.

– Lindinho…

– Que foi, mamãe?

– Ó, fica mais daquele lado ali do campo que tá mais sombrinha.

– Tá bom, mãe, bença.

O uniforme negro já estava encharcado de suor e Arlindo ainda nem tinha pisado em campo. Sua preocupação não era mais com a final e sim com mamãe. O que dona Lindalva iria pensar? Final era jogo duro, coisa catimbada. Futebol era pra homem e não pra uma senhorinha de oitenta e nove, digo, noventa anos… rezou um painosso e dez avemarias e pediu a Nossa Senhora pra que nada de ruim acontecesse.

Arlindo apitou e a bola rolou. Os primeiros minutos são sempre os piores, o coração sai pela boca, depois se acostuma. Na vida, a tudo se acostuma: seja a não ter pai, seja à solteirice eterna, seja à profissão de árbitro de futebol. No gramado, Arlindo tornava-se um robô e o jogo, por milagre, ia chegando aos noventa sem problema algum, nem parecia final. O zero a zero era do time com melhor campanha. Arlindo estava doido pra apitar o fim, e Arlindo já-já apitaria o fim…

Noventa minutos cravados no cronômetro. O time que perdia o campeonato resolveu guardar a correia pro final. Arbitragem impecável, mas de que adianta? O atacante Romildo, num desespero final, atirou-se descaradamente na área adversária. Arlindo, exemplar, viu a forçação de barra e não caiu na malandragem. Mandou o jogador levantar e não marcou pênalti. Mas, já era. O que Arlindo tanto temia aconteceu. Cerca de cinqüenta mil torcedores ensandecido encheram a boca pra gritar: filho da puta! filho da puta! filho da puta! Dona Lindalva, sentada em sua cadeirinha, escorregou ruborizada, depois empalideceu, depois se abanou, pensou em ir embora, pensou em brigar com todos, mas congelou, não conseguia mover um dedinho sequer: como foi que estes desgraçados descobriram?

Antunes
Ilustração: Rogerio
Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2011

O tal do potássio

Nunca fui chegado à banana, vitamina inda vai bem, às vez. que comer mais banana, é bom pros osso, pros músculo e pro coração, é rica em potássio, diz minha mãe.  Pois adentrei Sergipe e, no meio dum mato, está a Vale do Rio Doce. Descobri que a Mina de Taquari-vassoura é a maior mina de potássio do Brasil, quiçá do mundo. Pois então, num deixe que minha mãe veje esta mensage, senão vai me dizê: come um pouco dessa terra aí, minino, come que é bom pros osso!!!

Antunes – no avião, rumo a Belém – 17 de setembro de 2009.

Mina de Potássio - a solução contra a osteoporose.

Mina de Potássio - a solução contra a osteoporose.

Eu, em busca da cura para problemas cardíacos, ósseos e musculares na mina de Potássio.

Eu, em busca da cura para problemas cardíacos, ósseos e musculares na mina de Potássio.

Pra mode alegrar minha mãe

Dialogo contigo, irmã, sangue de sangue meu, Antunes por mãe, Silva por pai. O mundo é grande, mas a internet é maior. Leia pra mãe, mas leia com sotaque de cá, porque assim as palavras são mais verdadeiras ainda que tomem mais delírio:

Num se avexe, mãe, num se aperreie, pois vô vivendo e lhe digo que as cueca andam limpas. Isso! Orgulha-te de teu filho que, só, já sabe mudá as fralda e, mais que isso, as limpa. Andam cheirosas, perfumadas mesmo. Já me confundo se são cuecas ou se são flor. Lhes dei um chêro agora mesmo e lembrei da senhora, minha mãe. Esfrego, deixo de molho e estendo pra secá. Tão cheirosas, mãe, num é burla não. Também levam água daquelas quentinha que tem por aqui, parece que já sai potável, pronta pra beber, fervidinha. Dá até pra fazê chá com a água que me escorre pelas cuecas, quentinha… a senhora ia saltá de alegria. Mãe, já num é a mala que perfuma as cueca, é as cueca que perfuma a mala. Quando a senhora vê e cheirá vai achá sensacional, só num sei o que estão achando as pias dos hotéis.

Antunes – Aracaju – 16 de setembro de 2009 – 19:10

Meia – areia

Aracaju. Escrevo sentado em um restaurantezinho miúdo como a cidade, chamado Encanto do Mar, frente à praia de Atalaia, diga-se de passagem, linda praia de Atalaia. Logo que cheguei ao hotel, deixei as malas e mal vi o quarto. Fugi, ainda engomadinho, a desvendar algum mistério daqui. Aprendi, ainda no ponto, que os ônibus de Aracaju demoram eternidades e são conhecidos por trajetórias e não por números. Cheguei à praia de Atalaia e encontrei de cara o que seja, talvez, o monumento mais famoso de Sergipe, parece um M do McDonalds, só que azul. Porém, seu êxito não está em si, mas sim na praia de infindável faixa de areia que esconde por trás. Praia morena que o mar alisa forte, mas sem intuito de machucar. Eu de sapatos e a praia a convidar. Lembrei de minha mãe falando que eu tinha poucas meias, que cuidasse delas. Mas a areia estava a chamar. Lembrei de minha mãe a arrumar a mala e a dizer te cuida como quem diz não vai aprontar para o filho bebê. Lembrei de minha mãe e via o mar. Lembrei de minha mãe e a areia dizia descalça-te. Lembrei de minha mãe a dizer divirta-te. Tirei os sapatos, lambuzei-me na areia. Chegara a Aracaju.

Antunes – Aracaju – 15 de setembro de 2009 – 18:20

Praia do Atalaia

Praia do Atalaia

Praia do Atalaia

Praia do Atalaia