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Sagrei meu Eu na Bolívia

“Prefiro as linhas tortas, como Deus.
Em menino eu sonhava de ter uma perna mais
curta (Só pra poder andar torto).
Eu via o velho farmacêutico de tarde, a subir a
ladeira do beco, torto e deserto… toc ploc toc ploc.
Ele era um destaque.

Se eu tivesse uma perna mais curta,
todo mundo haveria de olhar para mim: lá vai o
menino torto subindo a ladeira do beco toc ploc toc ploc.
Eu seria um destaque.  A própria sagração do Eu.”
(Manoel de Barros)

Você gosta é de se fantasiar.” A frase poderia ser da minha mãe, mas é da minha esposa. Ela diz isso, pois,  nos lugares a que viajo, vivo segundo o meio.  Se vou ao Pará, me visto com roupa paraense, como as comidas típicas, vou aos lugares que todo paraense conhece. Isso se repete a cada viagem, independente do lugar. As viagens internacionais são um problema, pois é muito mais difícil se passar por outra nacionalidade. Na Argentina, com uniforme dos hermanos e chapeuzinho, até consegui ficar a caráter, mas na Bolívia… era impossível. Sendo assim, meu ato de interpretar, de ser outros que Deus me impediu de ser, estava ameaçado. Busquei a solução inversa: eu não seria um Boliviano, seria seu oposto. Deixei a barba crescer e cheguei à Bolívia com a mesma cara que Pizarro chegou diante dos Incas.

Descobri que eu era um destaque. Todo mundo estava a olhar pra mim nas ladeiras dos becos tortos e quase desertos. Nenhum Boliviano, anotem isto, nenhum dos descendentes do Inca usam barba. Eu era o único barbudo naquele país, como um Lula no hospital do câncer; como um Guevara em meio aos vallegrandenses. Eles me olhavam sabendo que eu era outro, estranho, invasor. Aqueles pêlos à cara eram como uma doença que chamava a atenção, um diferencial insólito, uma inadequação, um aleijamento facial, era a própria sagração do Eu.

Antunes
Rio de janeiro, 17 de maio de 2010

O único barbudo em Santa Cruz

O mendigo 3 do mural 45

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia
(Manoel de Barros, Matéria de Poesia)

Há um tempo, os murais do Gentileza não valiam de porcaria nenhuma. Não que agora valham, mas pelo menos têm certo reconhecimento de alguns ditos intelectuais, estudiosos, artistas e até da classe política. Há um tempo, chegaram a ser censurados, cobertos, atacados, hoje em dia já há quem lhes dê o status de cultura. Os murais do Gentileza, hoje, já são mais importantes que gente. Pergunte pra qualquer carioca convicto: o que há debaixo do Viaduto do Caju? E lhe responderá: os murais do Gentileza. Ninguém dirá: há mendigos, e, olhe, é o que mais há.

Uma família desabrigada: Mendigo 1, Mendigo 2, Mendigo 3 e Mendigo 4 – afinal, pra gente mendigo nunca tem nome – se abriga bem em frente ao mural 45, que diz: “PENSEM DEUS PAI GENTILEZA CRIADORRR A NATUREZA DA TUDO DE GRAÇA JESUS NOS CONDUZ CAMINHO DE DEUS DISSE GENTILEZA”. Ali estão também seus poucos pertences e sua ausência de dignidade. Pela manhã, quando acordam com os raios de sol que driblam o viaduto, fazem bochecho, enrolam os trapos e começam a petição de moedas. Aprenderam que não se deve mijar em casa e vão até o pé do mural mais próximo cumprir a necessidade matinal.

Neste dia, Mendigo 3, um mendiguinho de uns 12 anos, acordou apertado pra cacete. Logo abriu os olhos, saiu com pressa, tentando correr e cruzar as pernas ao mesmo tempo. Chegou ao mural, arriou a calça e irrigou o asfalto. Vinha vindo uma senhora distinta em seu carro importado e foi freando ao lado do moleque: ô, garoto! Não tem vergonha de mijar aí, não? Não sabe que isso é uma obra de arte? E o moleque lhe respondeu: Dona, é justamente porque eu mijo em cima que isso é uma obra de arte!

Antunes
Rio de Janeiro, 8 de abril de 2010