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A fonte da minha juventude

Olha, Marília,
Na fonte pura
A tua alvura,
A tua boca,
E a compostura
Das mais feições.”
(Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu.)

Não queria voltar no tempo, não. Se voltasse, talvez nem conseguisse sair da fonte, morresse afogado, pois sequer tenho ainda muito tempo pra voltar. Queria apenas que aquela fonte fosse a fonte de minha juventude, a fonte de agora, que parasse o tempo. Que quando eu mergulhasse encontrasse a sua alvura, a sua boca a encontrar com a minha boca. Queria que, ao mergulhar no chafariz de São José, não encontrasse o meu reflexo, mas sim o teu. Não queria as águas de Narciso, queria só as de Afrodite, nada mais, não.

Antunes
Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2010

Nós diante do chafariz de São José

Politeísmo grego no mundo cristão

Pela ninfa, que jaz vertida em louro,
o grande deus Apolo não delira?
Jove, mudado em touro
e já mudado em velha não suspira?
Ama Apolo, e o fero Marte;
Ama, Alceu, o mesmo Jove:
Não é, não, a vã riqueza,
Sim beleza,
Quem os move.
“Aos negros, duros pesares
“Não resiste um peito fraco
“Se o amor o não fortalece:
“O mesmo Jove carece
“De Cupido, e mais de Baco.”

(Tomás Antônio Gonzaga, Trechos de Marília de Dirceu)

Logo que acabei de ler Marília de Dirceu, escrito por Tomás Antônio Gonzaga, subi numa mureta em Ouro Preto pra olhar a cidade e tentar reviver alguma coisa da obra. Dali de cima, vi Jesus crucificado, perdido entre montões de anjos. Vi Marias, todas elas, desde a de Cristo até a de Magdala. Vi guias turísticos, vi taxistas, vi ladrões e até me vi, em alguma janela, a espreitar a minha Marília e foi o máximo que vi. Não consegui ver Apolo com seu arco a pisotear casebres ao guerrear pela justiça. Não vi Cupido algum – embora até houvesse amores – atirando suas flechas em qualquer que atravessasse seu caminho. Não vi, pelas ladeiras de Ouro Preto, nenhum Baco a rolar embriagado. Não encontrei pela cidade nenhum deus Marte a travar guerra contra os cristãos. Tampouco vi sobre uma nuvem, o senhor Jove tronante, a punir-nos com seus raios. De livro na mão, voltei a sentar e percebi que o Barroco ali é matéria, o arcadismo é uma idéia.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de setembro de 2010