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¿Dónde están los otros?

Deve ser uma questão que passa pela cabeça de todo mundo que vai a Buenos Aires: ¿Dónde están los negritos? Se repararmos bem, a cidade com suas tendências italianas, diferente do Brasil, não é um lugar muito simpático à miscigenação.

Vamos a breves e generalizantes explicações:

No território que hoje corresponde à Argentina, os espanhóis, na época colonial, investiram pouquíssimo em mão-de-obra negra. Já os indígenas que estavam no local, levaram o maior couro e foram praticamente dizimados.

O mais curioso não é isso, pois sabemos o quanto os processos históricos são complexos e conturbados e muitas questões perdem suas origens através dos tempos. Curioso de verdade é a literatura formadora da identidade gaucha, ostentar total aversão aos indígenas. Deixo aqui, à guisa de curiosidade, alguns trechos para leitura e espanto:

Y cuando se iban los indios
Con lo que habían manotiao
Salíamos muy apuraos
A perseguirlos de atrás

Tradução:
E quando partiam os índios
Com o que tinham roubado
Saíamos bem depressa
Deles, íamos atrás

Allí sí, se ven desgracias
Y lágrimas y afliciones;
Naides le pida perdones
Al indio: pues donde dentre,
Roba y mata cuanto encuentra
Y quema las poblaciones.

Tradução:
Ali sim, se vêem desgraças
Lágrimas e aflições
Ninguém pede perdões
Ao índio: porque onde surge
Rouba e mata quem encontra
E queima os vilarejos

No salvan de su juror
Ni los pobres angelitos;
Viejos, mozos y chiquitos
Los mata del mesmo modo:
Que el indio lo arregla todo
Con la lanza y con gritos

Não se salvam de seu furor
Nem os pobres anjinhos
Velhos, moços e pequenininhos
O índio resolve tudo
Com lança e com gritos

Moral da história: não se vê negros e indígenas na Argentina, salvo as exceções e vários mendigos, é claro.

Antunes

Belém, 7 de fevereiro de 2010

Diante de Rosas, um dos governos que mais matou indígenas na Argentina

A bela arte do pedir e mendigar

Pues no es vergüenza ser pobre
y es vergüenza ser ladrón.

(HERNANDÉZ, Martín Fierro)

Vergonha é roubar e não poder carregar” (Dito popular brasileiro)

Parece seguro andar pelas ruas da Argentina, amado leitor. Não vi ninguém portando fuzil, 38, espingarda de chumbinho ou estilingue que fosse. A arma dos argentinos é a mesma de Gama contra Adamastor na epopéia camoniana: a palavra! Los hermanos não roubam, eles pedem. Afinal, pedir não é vergonha, pelo menos lá. Dizem que a moda foi lançada por Menem e rebuscada pelos Kirschner. Sendo assim, se você não quer dar uma de ultrapassado: peça! Peça Peso, peça Real, peça gorjeta, peça aperto de mão, peça beijo, peça abraço! O negócio é pedir e assumir a bancarrota!

Se você acha este hábito estranho, é porque se deixou moldar por esta sociedade totalitária. Pedir, na verdade, é costume pueril, intrínseco aos seres humanos. Voltemos no tempo: quando crianças pedimos dinheiro ao pai, brinquedo à mãe, comida à vó, cachaça ao vô, salgado na porta da cantina pro amigo, nota pra professora… e ainda conservamos hábitos na fase adulta: pedir aumento, pedir emprestado, pedir presente, pedir atenção… Somos eternos carentes e felizes apenas quando ganhamos ao pedir. Afinal, quer maior prazer que o de ganhar inteiramente de graça? Quem não vibra ao achar um dinheirim caído na calçada, nota de 50 perdida no bolso do paletó, chiclete esquecido na mochila?

A Argentina é um país tão prafrentão que seus mendigos não são como os brasileiros. Há, em Buenos Aires, uma elite social e intelectual mendiga e pedinte. Andando pelas ruas, pode-se ser abordado por velhinhas com cara de cheirosas vovós que pedem “um rrreal, por fabor”; por adolescentes de discman que pedem uns trocadinhos; por atarefados mendigos de paletó que falam ao celular. No auge do gozo estético-intelectual, é possível acompanhar debates de calorosos mendigos racionalistas que discutem na praça sobre a razão pura ou com adoçante e a epistemologia do nada em si. Mas, não ache que isto é o fim do mundo. Se você é um tradicionalista, lá também encontrará os clássicos mendigos sujos e totalmente sem posses, ou aqueles mais caricaturais que levam guarda-chuvas e dormem abraçados a melões. Mas, esteja atento, afinal, você é elite em Buenos Aires e muito provavelmente não reparará que há mendigos e, se reparar, quiçá seja pra exclamar: Viva o Brasil, estamos melhor ao menos que os hermanos!

Antunes
Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2010

Mendigo de paletó passeia na praça

Mendigo de guarda-chuva dorme abraçado com melão

A arte de pedir