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Politeísmo grego no mundo cristão

Pela ninfa, que jaz vertida em louro,
o grande deus Apolo não delira?
Jove, mudado em touro
e já mudado em velha não suspira?
Ama Apolo, e o fero Marte;
Ama, Alceu, o mesmo Jove:
Não é, não, a vã riqueza,
Sim beleza,
Quem os move.
“Aos negros, duros pesares
“Não resiste um peito fraco
“Se o amor o não fortalece:
“O mesmo Jove carece
“De Cupido, e mais de Baco.”

(Tomás Antônio Gonzaga, Trechos de Marília de Dirceu)

Logo que acabei de ler Marília de Dirceu, escrito por Tomás Antônio Gonzaga, subi numa mureta em Ouro Preto pra olhar a cidade e tentar reviver alguma coisa da obra. Dali de cima, vi Jesus crucificado, perdido entre montões de anjos. Vi Marias, todas elas, desde a de Cristo até a de Magdala. Vi guias turísticos, vi taxistas, vi ladrões e até me vi, em alguma janela, a espreitar a minha Marília e foi o máximo que vi. Não consegui ver Apolo com seu arco a pisotear casebres ao guerrear pela justiça. Não vi Cupido algum – embora até houvesse amores – atirando suas flechas em qualquer que atravessasse seu caminho. Não vi, pelas ladeiras de Ouro Preto, nenhum Baco a rolar embriagado. Não encontrei pela cidade nenhum deus Marte a travar guerra contra os cristãos. Tampouco vi sobre uma nuvem, o senhor Jove tronante, a punir-nos com seus raios. De livro na mão, voltei a sentar e percebi que o Barroco ali é matéria, o arcadismo é uma idéia.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de setembro de 2010