Arquivo da tag: medo

O balé dos dragões no Mercado Central

O homem moderno é obcecado por altura e passarelas. Eu não. Ainda sou um medieval daqueles que temem os ares, temem o mar, temem os monstros. A maior punição medieval era ficar trancafiado no alto de uma torre, as pontes que ligavam uma torre a outra eram sinal de perigo, os dragões incandescente sempre se relacionavam de alguma forma com pontes, altura, penhascos… Sou um vassalo dos que nasceram da terra e hão de ir para baixo dela ao morrer.

Digo isto por conta do Mercado Central de Fortaleza, assustador como tudo que é moderno. Suas passarelas cruzam-se nos ares como um balé de acasalamento de dragões. Se eu fosse um cavaleiro as desafiaria. Vassalo, cabe-me o chão e, no máximo, arriscar uma trova galhofesca com o que vejo.

Aqueles dragões brancos e entrecruzados se alimentam de castanhas, couro, coco, palha, pano, pernas (pra que tanta perna, meu Deus!  – volto a perguntar o que perguntou Drummond). Sigo, no máximo, até o segundo andar, depois desço, pois não confio na obra de arquitetos e não confio em mim, obra do arquiteto que é Deus, dizem os maçons. No subsolo, fotografo, observo o servo que sou e acostumo-me com as profundezas que me esperam pelo eternidade.

 Antunes
Rio de Janeiro, 25 de junho de 2011

Mercado Central de Fortaleza, morada dos dragões

O balé dos dragões no Mercado Central

" Suas passarelas cruzam-se nos ares como um balé de acasalamento de dragões"

"Aqueles dragões brancos e entrecruzados se alimentam de castanhas, couro, coco, palha, pano, pernas "

Praia do Futuro

Saí de Meireles, caminhei rumo a Iracema, voltei a Meireles, passei por Mucuripe, tentei ancorar na Praia do Futuro que me instigou por seu nome. Como os navegantes portugueses, eu queria dobrar a quina do cais do porto para rebatizar a praia. Deixaria de ser Praia do Futuro para ser pra Praia do Presente e seria meu presente ancorar por lá como O Cabo das Tormentas foi o presente de Vasco da Gama.

O mar medieval intransponível: a orla de fortaleza. O navegante: eu. Os monstros marinhos: infinitos perigos por aquela orla que eu conhecia só de ouvir falar. Piratas, piratas e piratas: jamais se extinguiram do mundo, jamais se extinguirão.

Em Fortaleza, não só o dinheiro premia com a vista pro mar, a pobreza também. A favela atrás dos luxuosos hotéis, eu atrás do perigo.

Praia do Futuro: o que quis nos dizer quem cunhou seu nome? O futuro é a pobreza, a violência, o perigo, a favelização, a desigualdade escrachada, o medo, o terror, o pânico?  O futuro somos nós. O futuro não somos nós.

– Ei… ei… ei… – incansavelmente vozes me interrompiam por Fortaleza.

Tenho a mesma curiosidade que a esposa de Ló. Olhei. Desta vez não era perigo. Era um segurança de hotel.

– Senhor, não venha para estes lados. Vão assaltá-lo se continuar aqui.

Fiz-me de desentendido, como se não fosse o milésimo aviso. Como eu iria explicar-lhe que eu precisava escrever e fotografar pro meu blog?

– Senhor – insistiu – vá para o seu hotel.

Desta vez, atendi ao toque de recolher. Missão abortada. Não atingi a Boa Esperança, nesta história, restaram-me as tormentas, coube-me ser Bartolomeu Dias.

Antunes
Rio de Janeiro, 3 de junho de 2011

Um menino na orla de Fortaleza

Na falta de quem me fotografe as autofotos são sempre bem-vindas

Barracas de Peixe em Direção à Praia do Futuro

Brincando de Bartolomeu Dias e Vasco da Gama, tento vencer o Cabo das Tormentas

Há favela de frente pro mar

“Próxima estação: CENTRAL DO BRASIL desembarque ao lado de gente muito diferente”

Por Thiago Angola – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

A Central do Brasil significava medo para mim. Ir de trem até esta estação era um desafio. Medo do que falavam de lá, medo das pessoas que por lá transitavam, medo dos trens que constantemente descarrilavam ao longo da linha férrea até chegar a ela, medo dos assaltos, dentre muitos outros medos que eu me permitia ter por causa da fala de outras pessoas. É verdade que muita coisa acontece, nós vemos nos jornais, porém é impagável a possibilidade de conviver com tanta diversidade!

Houve um dia que tive que quebrar esses paradigmas… precisava fugir dos longos engarrafamentos e das mais de 2 horas que levava para chegar ao trabalho, e não era que muito do que falavam não era verdade! Há mais de 1 ano e meio este é o meu principal meio de transporte. Como ele é rápido! Em 20 minutos chego da estação Madureira até a Central do Brasil para fazer integração com o Metrô. No final das contas pago mais barato e levo 1h e 10 minutos para chegar ao meu trabalho.

No trem você encontra de tudo: do engravatado ao de bermuda, a de sapato alto até a que usa havaianas top, o da pasta de couro ao do isopor cheio, do que não quer enxergar ao que enxerga muito bem, do ateu ao crente exagerado. É isto: uma composição de 6 vagões, que muitas das vezes espremidos, tem em seu interior gente tão diferente, feliz e infeliz, indo pra lá e pra cá.

Uma vez fiz a proposta para o meu amigo, que escreve este divertido blog, de experimentar ir embora de trem. Eu falei que seria uma experiência única, e não é que foi! Assim que chegamos à Central, presenciamos uma das cenas mais hilárias: para conseguir vaga sentado no trem, as pessoas correm, literalmente, entre os trilhos quando anunciam a partida em outra plataforma. A princípio é uma cena que assusta, você acha que o mundo está acabando, mas para ter um lugar no trem, vale de tudo. Eu mesmo já experimentei esta situação, mas não me dei muito bem, não tive forças para subir na plataforma (rsrsrsr). Há também os variados sons que tocam ao mesmo tempo: do papo sobre o vizinho, passando sobre a pregação do evangelho, até o funk do momento no celular e isto tudo ao mesmo tempo!

Quando falo que vou e volto de trem as pessoas, com os mesmos paradigmas que tinha anteriormente, se assustam e dizem: “você vai de trem?”, e eu animado, digo: “vou, e é melhor que o metrô”! Que lugar oferece tanta diversidade social? Que lugar te dá oportunidade de vivenciar a antropologia? Não que o metrô não o tenha, mas o trem é mais divertido, as pessoas interagem mais com você e com as outras! Deve ser pela simplicidade peculiar dos passageiros. Ouvir os ambulantes que vem e vão com suas mercadorias baratas. Que lugar proporciona você ouvir coisas do tipo: “Eu não sei quem foi que roubou, eu sou só o vendedor. Bandeja de Iogurte direto de Manguinhos, 3 por 5 real!”. Não estou aqui para discutir este tipo de comportamento, só quero ressaltar que a criatividade existente no trem é intrigante!

Narrar tudo que já vivi e presenciei no trem é impossível aqui, porém deixo a você leitor, o convite para vivenciar este momento único. Pode me convidar para ir junto, me sentirei lisonjeado de ser o anfitrião neste passeio. Garanto a você que serão momentos de muito conhecimento e auto-conhecimento, porque, por experiência própria, é impossível você não refletir, ao, de estação em estação, conviver com pessoas embarcando e desembarcando com suas variadas experiências e esquisitices, assim como as que eu e você temos.

Thiago Angola
Rio de Janeiro, 24 de abril de 2010

SE VOCÊ QUER ANDAR DE TREM COM THIAGO ANGOLA ESCREVA PARA: thiagoangola@gmail.com OU COMENTE ESTA POSTAGEM!

Superstições, coincidências e transtornos obsessivos compulsivos ao avião 2 (Vitória)¹

Como prometido, cito novamente:

Logo refletiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões; com lógica perversa inferiu que prever um detalhe circunstancial é impedir que este aconteça.” (BORGES – meu autor favorito neste segundo – no conto Milagre Secreto).

O maior gênio vivo do Brasil chama-se Oscar Niemeyer e não anda de avião. O maior idiota vivo do Brasil sou eu que ando quase todo dia.

A lógica autoajudista-circunstancialista-mercadológica diz diferente do escritor argentino. O famoso livro O Segredo explica: força da atração. Ou seja, tudo que você pensa vai até você. Borges – neste texto – nega: se você pensa, está errado, pois não é possível prever.

Sendo assim, fica o grande dilema para qualquer pessoa portadora de transtornos obsessivos compulsivos e cagaços de uma forma generalizada: ou eu penso que o avião vai cair e ele realmente cairá, pois é a força da atração; ou eu penso que o avião vai cair e ele não cairá, pois sou incapaz de prever (força da repulsão – este nome é por minha conta e não do Borges).

Por enquanto ganha a teoria do conto Milagre Secreto, visto que é impossível que um medroso pense algo muito diferente de tragédias. Ou seja, a repulsão predomina no mundo.

DICA: Ao jogar na Mega Sena pense: jamais ganharei. Assim, você estará seguindo um princípio lógico diferente de todos os tolos que jogam pensando que vão ganhar e sempre perdem. É a força da repulsão.

O mais difícil desta lógica terrena e extraterrena é ter que pensar em todas as possibilidades justamente para que elas não aconteçam. Aí, urge citar novamente o mestre Borges:

“O senhor replicará que a realidade não tem a menor obrigação de ser interessante. Eu lhe replicarei que a realidade pode prescindir dessa obrigação, mas não as hipóteses.” (A morte e a bússola)

O grande tormento da vez foi eu ter “trocado” de vôo com minha cara amiga de trabalho Xande Magalhães. Imagine se a morte estivesse reservada a ela e não a mim e eu, simplesmente, tomei sua grande oportunidade de chegar ao outro mundo.

Somado a isto, há a grande quantidade de frases que parecem querer comunicar que chegou a sua hora. Placa no aeroporto: “O Rio de Janeiro sentirá sua falta”. Fala do amigo: “Ah, então você não vem mais, né?”. E nas despedidas: “Então você já está partindo…” Viajar e morrer proporcionam muitas falas similares, é saber interpretá-las que vai justamente evitá-las. Ainda mais quando se viaja para um lugar de nome tão sugestivo: “Vai para o Espírito Santo?”

O grande desafio reside no avião. Chega a hora de colocar as teorias à prova. Um problema: caso falhe, não será possível relatar aqui, acho.

1 – A primeira parte de Superstições, coincidências e transtornos obsessivos compulsivos está relacionada a Belo Horizonte, clique aqui.

Antunes
Vitória, 14 de dezembro de 2009

Medo de quê?

Desejoso de uma fralda, embarquei para Sergipe. Fui um dos últimos a entrar no avião e me deparei com uma multidão de olhos. Fui sentar-me à frente de seis deles. Dois olhos, irmãos duma boca, compartilhavam aos amigos histórias vividas pra modi de aguardar a decolagem: outro dia, amigo meu tava com uma dessas máquina que se vê foto na hora. Lá na minha terra a gente só conhecia Polaroid pra se fazê isso. Aí, o cabra falô pra nós: vô tirá foto de cês , faz pose. Então, inteligente, pensou o sujeito:  vô saí nessa também, ponho o ajuste dos dez segundo e corro ao encontro deles. Quando disparou na direção dos amigos, todos, assustados, debandaram a correr. Volte aqui, pra onde cês vão?, disse o fotógrafo frustrado. Os outros lhe gritaram: se tu que é o dono, ligou a máquina e saiu correndo, é nós que vai ficar aqui parado?

E assim num é o homem? Tem medo da morte, de altura, de escuro, de avião e até de máquina fotográfica.

Antunes – Voando a Aracaju – 15 de setembro de 2009 – 15:02