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Minha Copacabana

Hoje escrevo porque estou feliz. Feliz com esta felicidade em que não acredito e não existe, feliz como sonhava inda criança. Quero escrever um texto feliz em preto e branco, como calçadas de pedras portuguesas. Pois parece ser impossível não ser feliz na orla de Copacabana. Até os mendigos sorriem na sua tristeza. Até as putas são mais felizes e té parecem gostar do seu trabalho. Em Copacabana, Drummond é eterno e seus milhares de óculos são eternos na casa de cada poético ladrão. São felizes, junto comigo, todas as ondas da orla de Copacabana, sejam do mar, sejam do chão. O Forte de Copacabana me sorri um risinho antigo, longe de recordar qualquer disparo de fuzil, lembra da época em que ainda era só cimento e água. E eu sorrio porque ouvi alguém me dizer que Copacabana era fantástica e assim guardei pra mim, toda vez que imagino Copacabana, associo a coisas fantásticas na minha vida: o abraço da minha esposa, o almoço da minha mãe, os desenhos do meu pai, a gargalhada da minha irmã. Pois, Copacabana me parece tão distante que preciso encontrá-la em outras coisas que habitam minha memória. E hoje estou em Copacabana sob o sol, ouvindo o mar, tomando água de coco, mesmo que hoje esteja num carrancudo hotel de São Paulo.

Antunes
São Paulo, 28 de março de 2011

Era aniversário do Drummond, ele estava solitário, pensativo...

Então cheguei e resolvi fazer uma surpresa

Chegou a Emanoelle e formamos uma festinha!

Em Copacabana, atrás o Forte de Copacabana

Copacabana vista do Forte

Teve uma época em que a Skol resolveu bancar uma roda gigante em Copacabana para que se pudesse gozar da vista. Na foto é a Nôla.

O mendigo 3 do mural 45

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia
(Manoel de Barros, Matéria de Poesia)

Há um tempo, os murais do Gentileza não valiam de porcaria nenhuma. Não que agora valham, mas pelo menos têm certo reconhecimento de alguns ditos intelectuais, estudiosos, artistas e até da classe política. Há um tempo, chegaram a ser censurados, cobertos, atacados, hoje em dia já há quem lhes dê o status de cultura. Os murais do Gentileza, hoje, já são mais importantes que gente. Pergunte pra qualquer carioca convicto: o que há debaixo do Viaduto do Caju? E lhe responderá: os murais do Gentileza. Ninguém dirá: há mendigos, e, olhe, é o que mais há.

Uma família desabrigada: Mendigo 1, Mendigo 2, Mendigo 3 e Mendigo 4 – afinal, pra gente mendigo nunca tem nome – se abriga bem em frente ao mural 45, que diz: “PENSEM DEUS PAI GENTILEZA CRIADORRR A NATUREZA DA TUDO DE GRAÇA JESUS NOS CONDUZ CAMINHO DE DEUS DISSE GENTILEZA”. Ali estão também seus poucos pertences e sua ausência de dignidade. Pela manhã, quando acordam com os raios de sol que driblam o viaduto, fazem bochecho, enrolam os trapos e começam a petição de moedas. Aprenderam que não se deve mijar em casa e vão até o pé do mural mais próximo cumprir a necessidade matinal.

Neste dia, Mendigo 3, um mendiguinho de uns 12 anos, acordou apertado pra cacete. Logo abriu os olhos, saiu com pressa, tentando correr e cruzar as pernas ao mesmo tempo. Chegou ao mural, arriou a calça e irrigou o asfalto. Vinha vindo uma senhora distinta em seu carro importado e foi freando ao lado do moleque: ô, garoto! Não tem vergonha de mijar aí, não? Não sabe que isso é uma obra de arte? E o moleque lhe respondeu: Dona, é justamente porque eu mijo em cima que isso é uma obra de arte!

Antunes
Rio de Janeiro, 8 de abril de 2010

A bela arte do pedir e mendigar

Pues no es vergüenza ser pobre
y es vergüenza ser ladrón.

(HERNANDÉZ, Martín Fierro)

Vergonha é roubar e não poder carregar” (Dito popular brasileiro)

Parece seguro andar pelas ruas da Argentina, amado leitor. Não vi ninguém portando fuzil, 38, espingarda de chumbinho ou estilingue que fosse. A arma dos argentinos é a mesma de Gama contra Adamastor na epopéia camoniana: a palavra! Los hermanos não roubam, eles pedem. Afinal, pedir não é vergonha, pelo menos lá. Dizem que a moda foi lançada por Menem e rebuscada pelos Kirschner. Sendo assim, se você não quer dar uma de ultrapassado: peça! Peça Peso, peça Real, peça gorjeta, peça aperto de mão, peça beijo, peça abraço! O negócio é pedir e assumir a bancarrota!

Se você acha este hábito estranho, é porque se deixou moldar por esta sociedade totalitária. Pedir, na verdade, é costume pueril, intrínseco aos seres humanos. Voltemos no tempo: quando crianças pedimos dinheiro ao pai, brinquedo à mãe, comida à vó, cachaça ao vô, salgado na porta da cantina pro amigo, nota pra professora… e ainda conservamos hábitos na fase adulta: pedir aumento, pedir emprestado, pedir presente, pedir atenção… Somos eternos carentes e felizes apenas quando ganhamos ao pedir. Afinal, quer maior prazer que o de ganhar inteiramente de graça? Quem não vibra ao achar um dinheirim caído na calçada, nota de 50 perdida no bolso do paletó, chiclete esquecido na mochila?

A Argentina é um país tão prafrentão que seus mendigos não são como os brasileiros. Há, em Buenos Aires, uma elite social e intelectual mendiga e pedinte. Andando pelas ruas, pode-se ser abordado por velhinhas com cara de cheirosas vovós que pedem “um rrreal, por fabor”; por adolescentes de discman que pedem uns trocadinhos; por atarefados mendigos de paletó que falam ao celular. No auge do gozo estético-intelectual, é possível acompanhar debates de calorosos mendigos racionalistas que discutem na praça sobre a razão pura ou com adoçante e a epistemologia do nada em si. Mas, não ache que isto é o fim do mundo. Se você é um tradicionalista, lá também encontrará os clássicos mendigos sujos e totalmente sem posses, ou aqueles mais caricaturais que levam guarda-chuvas e dormem abraçados a melões. Mas, esteja atento, afinal, você é elite em Buenos Aires e muito provavelmente não reparará que há mendigos e, se reparar, quiçá seja pra exclamar: Viva o Brasil, estamos melhor ao menos que os hermanos!

Antunes
Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2010

Mendigo de paletó passeia na praça

Mendigo de guarda-chuva dorme abraçado com melão

A arte de pedir