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O MERCADO DAS BRUXAS

No creo en brujas, pero que las hay, las hay
(Ditado popular)

Já visitei muitos mercados e continuarei visitando. Porém, este mercado a céu aberto localizado em La Paz é um dos mais impressionantes que já vi. Talvez seja a maior materialização do termo, possivelmente equivocado, mas muito justo para este momento, Realismo Fantástico. Por trás das barracas estão feiticeiras que oferecem artigos religiosos, decorativos, jóias e roupas. São estátuas de deuses, fetos de lhama secos, artigos de prata, cachecóis… É como se estivesse durante algumas horas em Cem Anos de Solidão. Tudo isto está em duas ruas cravadas no Centro da Cidade com ruelas que se ramificam e levam até lojas de camisetas, locais de artesanato, museu e barracas de folha de coca. Neste lugar onde o irreal é possível, o objeto mais estranho é você, turista.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

Uma esquina qualquer do Mercado das Bruxas

Roupas de lã de lhama no Mercado das Bruxas

Em uma Ruela no Mercado das Bruxas

No Mercado das Bruxas

Fetos de lhama e outros artigos religiosos no Mercado das Bruxas

O mercado de Sucre

Gosto de descobrir as cidades pelos seus mercados, pois dali saem os lixos que os povos vestem e comem. Sempre me impressionam, pois são o oposto do resultado final que vemos à mesa. No Ver o Peso em Belém, antes dos belos camarões do Vatapá irem ao nosso estômago, estão jogados dentre urubus. Em Aracaju, as castanhas antes de fazerem salivar nossa boca, estão socadas e apertadas em imensos sacos sujos. No Rio de Janeiro, antes do santo comer um frango, este está todo cagado em sua gaiola. Somos a sujeira dos mercados disfarçada pelo nosso orgulho e vaidade. Em Sucre, o mercado é branco por fora, mas cinza por dentro. Ali vão cholos e cholas a comprar não sei quantos grãos e folhas, a catar alguma carne sobre as bancadas, a atravessar corredores labirínticos de salubridade incerta. Por aqueles corredores vão, cholos e cholas, tão humanos quanto nós, tão sujos quanto nós, a consumir os mesmos lixos que nós. Sorte que os vermes tampouco são exigentes.

Antunes
Rio de Janeiro, 3 de julho de 2010

O Mercado de Sucre por fora

Os corredores do Mercado de Sucre

As verduras do Mercado de Sucre

Infinidade de grãos no Mercado de Sucre

Carne sobre bancadas

A mãe chola sai com seu filho do Mercado, carregando as compras

Pães ofertados com as mãos

São tantas mulheres, tantas mãos e tantos tons de laranja. Cestos repletos de pães e empanadas, as índias gritam nas ruas querendo vender. Entre barracas de roupas, poças, carros, mendigos, estão ali, as mulheres, a vender o pão de cada dia. São tantos e logo poucos que voltam a tantos e depois poucos, no pôr e repor do pão, com as índias menores lotando o cesto das mães que vendem, vendem tudo e tornam a repor e a  vender.  Se os provas, são massudos, pesados, duros como a vida das índias que lhes põem as mãos e lhe servem com as mãos e com as mãos pegas e levas a boca tentando-os partir. O pão que chega ao estômago é como a mão fechada em soco, pesada, a aplacar a fome e derrotá-la, sem imaginar que naquele instante começava a dar lugar a uma tremenda dor de barriga.

Antunes
Vitória, 2 de junho de 2010

São tantas mulheres, tantas mãos e tantos tons de laranja...

Cestos repletos de pães e empanadas, as índias gritam nas ruas querendo vender.

Entre barracas de roupas, poças, carros, mendigos, estão ali, as mulheres, a vender o pão de cada dia.

São tantos e logo poucos que voltam a tantos e depois poucos, no pôr e repor do pão

Os cacos da estória

Título em homenagem ao mestre Judemberg

– Um mercado popular com imensa quantidade de sapatos de um pé só

– Um retrato falado

– Um senhor dormindo sem um pé de seu calçado

Elementar, caro leitor. Não é preciso ser um Sherlock para descobrir o ocorrido. Ademais, como prova da veracidade da estória, ou melhor, HISTÓRIA, documentei tudo com minha fiel câmera fotográfica e tenho como testemunha minha esposa, não fosse a ausência de buço, poder-se-ia dizer-lhe que é o dr. Watson desta narrativa.

Ao chegarmos diante do Terminal Bimodal de Santa Cruz de la Sierra constatamos a presença de um comércio popular mui peculiar e suspeitoso: vendia diversos sapatos de origens duvidosas e muitos estavam sem o seu par. Para quem um comércio venderia um único sapato? Para pernetas? Para adolescentes que usam sapatos diferentes? Para quem? Esta questão atormentou-nos até que, ao fim, descobriríamos a sua resposta.

Assim que adentramos o recinto rodoviário, vimos pelas paredes o retrato falado de um procurado por roubo. Era um rapaz jovem, de traços indígenas. Por que motivos se anunciaria um procurado dentro da rodoviária? Para evitar que fugisse da cidade? Para precaver os que chegavam a Santa Cruz? Ou seria ali seu principal local de atuação?

Ao andarmos a procura de onde comprar passagens para Sucre uma cena incrível nos compadeceu: um senhor dormia sobre a sua mala, mas faltava-lhe um pé de sapato. Estávamos diante de um roubo gravíssimo. Foi aí que juntamos os cacos da estória. Acompanhe o desvendamento do caso e a reconstituição do crime no próximo parágrafo:

O senhorzinho estava a esperar o horário de sua viagem e dormiu sobre a mala para que ninguém a roubasse. Porém, deixou seus pés livres descuidando-se do crime que poderia ser cometido. Eis que, avistando aquela presa fácil, chegou o assaltante que está denunciado pelo retrato falado e roubou-lhe um dos pés do calçado e correu para o mercado popular para vendê-lo a um comerciante qualquer. Quando o senhorzinho acordar, desesperado por estar com um de seus pés vulnerável e descalço, sabe, leitor, para onde ele correrá para comprar um sapato que combine com o seu? Para o mercado popular de sapatos solteiros! Foi assim, leitor, que descobri como o crime trabalha no Terminal Bimodal de Santa Cruz de la Sierra.

Antunes
Teresópolis, 31 de maio de 2010

Diante da rodoviária há um mercado mui peculiar

O PROCURADO

O senhor dormindo sem UM dos sapatos

Mercadão de Madureira como Ponto Turístico

Pois é muito estranho, leitor, que todas as outras cidades que visito e visitei tenham seus mercados como pontos turísticos e nós não. Em Aracaju o Mercado é referência e fica no Centro da Cidade; em Belém, o Ver o Peso é internacionalmente conhecido; em Belo Horizonte, o mercado também aparece nos lugares a se visitar; em São Paulo está um belíssimo Mercado Municipal, isso porque cito só exemplos brasileiros, mas os internacionais também são famosíssimos como o Mercado de Hechicerías em La Paz. O que faz o Rio de Janeiro esquecer o Mercadão de Madureira? Por que ele não consta nos guias de viagens? Elementar, caro leitor, só pode ser por ele ficar em Madureira, coração de nosso subúrbio.

História, nosso mercado tem. Foi inaugurado por JK e durante anos se manteve como o centro do comércio de todo o subúrbio. Traços incomuns também têm: imagens de metrimeio de Exu Tranca Rua das’Alma e venda de animais pra macumba como bode, pombo e galinha d’angola. Preço barato, é lá mesmo: carnes, doces de Cosmedamião, brinquedos…

Rasguem os guias de viagens! Ponhamos fim à ditadura turística, ora pois! Ano passado com minha esposa, então noiva, e um amigo, Éric que já escreveu pra este blog, levamos dois alemães para conhecer nosso mercado. Fez-se a festa. Os alvos e loiros compraram chocolates batom, Guaravita e, pasme amado e idolatrado leitor, um espremedor de alho, pois os pobres alemães disseram nunca ter visto um alho inteiro, contou-nos que na Alemanha todos já vêm moidinhos pra botar na comida. Maravilhados por haverem visto tão engenhoso objeto para amassar tão incrível vegetal, compraram-no. Imagine, leitor, tão tristes e incompletos seriam estes viajantes germânicos não tivessem conhecido o Mercadão de Madureira e seu espremedor de alho!

Antunes
Santa Cruz de la Sierra, 9 de maio de 2010.

às Portas dum mundo
O ventre do Mercado
Exu trancando as ruas do Mercadão
O preço tá bom!
Tem até escada rolante
Pombos e frangos
Frangos e bodes
A Galinha d’Angola

Ver o peso

Como fosse um cenário de Moby Dick, Popeye ou dos Velhos Marinheiros de Jorge Amado. Navego entre os marujos, pelos rios de caldo de peixe que escorrem das bancadas. Vejo pousar sobre um barco o urubu que seguira, atrás está o mercado Ver o peso. Homens, urubus, barcos, peixes sem diferenciar-se, são um. Ali, todos são um pouco homens, urubus, barcos e peixes: todos conhecem a dor, a carniça, os rios navegáveis, o anzol… são barcos humanos, peixes urubus. Convidado pelo mistério, entro. Vejo multidões de peixeiros que estripam peixes imensos, exibem-nos para os compradores. O cheiro podre não afasta a fome: atiça-a. Mareado, como um inexperiente no mar, estômago embrulhado, saio do convés para perder-me entre as curvas, traços e cores marajoaras: são os artesanatos: suas formas arredondadas misturam o técnico com o divino, são jarros abençoados a marrons, assinalados com verde, enfeitados ao vermelho. Há calor e o rio deixa o ambiente mais úmido, parece que se sua dobrado. Peço um suco qualquer, um que a senhora ache que represente o Pará, não serve de cupuaçu, algo que não seja tão conhecido. O bacuri. Olho a foto do fruto: lembra um rústico abacate. Seu suco parece uma massa de pão refrescante, é bom, mas é desconfortável nos primeiros instantes. Gelado, mata o calor. Denso, mata a fome. Acaba o bacuri, recomeço a caminhada como se fosse, agora, um Simbad. Passo por gaiolas de animais: coelhos, frangos, patos. Encontro figuras que carregam o peso de típica: as descascadoras de castanha. Sentam-se em pobres bancos, facas às mãos e a cada segundo se movimentam fatais como os relógios. Passam o dia a descascar a castanha do Pará. Quem queira, descascam na hora. Não cobram barato como no mercado de Sergipe, já sabem de sua fama, já sabem que venderão, já sabem que compraremos. Compro: 5 Reais, meio litro de castanha. Os rios me chamam, agora os de suor, há o encontro das águas com mares de óleo e gordura que escorrem nas pias dos restaurantes. Vou até o taxi, pego-o, já não sou mais um marinheiro, há quem me conduza, sou só um passageiro, um mero turista.

Antunes – Carajás, 22 de setembro de 2009.

Urubus sobrevoam Belém na região do Ver o peso.

Urubus sobrevoam Belém na região do Ver o peso.

Urubu passeia como gente.

Urubu passeia como gente.

Barcos na frente do Ver o peso, urubu aterrissando.

Barcos na frente do Ver o peso, urubu aterrissando.

Peixeiro: estripador de peixes.

Peixeiro: estripador de peixes.

As descascadoras de castanhas.

As descascadoras de castanhas.

Batatinha: o rei da mistura.

Batatinha: o rei da mistura.

O mercado de Aracaju

Estou num lugar incrível”. Assim que cheguei ao Mercado de Aracaju mandei esta mensagem por SMS pra minha noiva. Já entrei em Feira de São Cristóvão, Mercadão de Madureira, Camelódromo da Uruguaiana e da 25 de Março, mas mesmo assim meus olhos custaram a crer. Sou apaixonado por castanha. Imagine um saco imenso, cheio delas, que nem daria pra levar na viagem. Pois é, custa apenas 15 Reais. Queria nadar-lhes como um Tio Patinhas nada em suas moedas… Meus olhos arregalavam-se a cada esquina do mercado. Carnes de boi e porco em exposição, abertas sobre bancadas ao vento, livres da vigilância sanitária. Camarões, caranguejos, peixes aromatizam parte do lugar. Há que se driblar perigosas poças. E o material mais rico do mercado é aquela gente, rindo sabe-se lá de que, da desgraça, talvez. Um povo como mercadores d’algum deserto, ávido por clientes, atencioso. Me seguiam com os olhos. Sou um estrangeiro em minha pátria, colonizador fazendo-se de vítima: Donde o sinhô é?, desculpe perguntá. Do Rio. Aaaaaaah! Em frente ao mercado, há um jumento estacionado em local proibido. Ao lado, há um Vasco que não é da Gama. Dentro, há tanta gente, tanto caju, tanta castanha, tanta música, tantos cheiros e eu, só, a me perguntar como não conhecia essa gente que é tanta e nos dizem que é tão pouca.

Antunes – no aeroporto de Aracaju – 17 de setembro de 2009.

O mercado de Aracaju visto de cima, por Deus.

O mercado de Aracaju visto de cima, por Deus.

Carnes ao vento, ivres da vigilância sanitária.

Carnes ao vento, livres da vigilância sanitária.

Jumento parado em local proibido.

Jumento parado em local proibido.

O Vasco que não é da Gama.

O Vasco que não é da Gama.