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Encontro

Drummond levantou-se da calçada de Copacabaca, largou seu banco, recompôs seus óculos e foi. Deixou o Rio pra trás, a rir com sua boca de pedra no meio do caminho do seu rosto. Encontrou Pedro Nava, pelas ruas de BH, pertinho da prefeitura, ao vê-lo, este, o gorducho, lhe falou:

Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.

Neste exato momento fotografei: estavam os dois ali, num momento único, vivinhos de pedra,  juro.

Antunes
Rio de Janeiro, 6 de dezembro de 2009

Drummond, solitário, em Copacabana no Rio de Janeiro

Drummond e Nava se encontram nas ruas

O melhor das Minas Gerais

Fui à aula. Os primeiros minutos são sempre para se apresentar e conhecer os alunos. Estava a ouvi-los e muito me surpreendia a quantidade deles que gostava de leitura, uns recitaram poemas, outros diziam escrever poemas. Feitas as apresentações, comentei:

– Estou surpreso, porque nunca tive uma turma com tantos inveterados leitores.
– Que bom, professor. Isso é uma característica do mineiro.
– É mesmo? – perguntei.
– É. Aqui nós não temos praia, então ficamos muito tempo lendo, estudando. Por isso que Minas Gerais tem muita coisa boa, muitos intelectuais, muita cultura.
Pensei com meus botões e concordei com ele.
– É verdade, aqui é terra do Drumond, do Guimarães Rosa, da Adélia Prado…
– Viu, professor. Nós também formamos muitos presidentes ao longo da história – disse, satisfeito o aluno.
– Tá certo. Mas, vocês se esqueceram de dizer algo que Minas Gerais produziu, muito melhor que os poetas e que os presidentes.
– O que professor? – disse um dos alunos arregalando os olhos, curioso.
E eu lhe respondi:
– A Scheila Carvalho.

Antunes
Belo Horizonte, 13 de novembro de 2009