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A Ramos, o Piscinão

Depois de descer do ônibus ela está ali: esguia, imponente, assustadora: a passarela! Atravesso-a como um equilibrista iniciante atravessa a corda bamba, disputo o chão e o céu com motos que infringem as leis dos homens e de Deus. Desemboco no calçadão, entre casas de favela, entre cachorros famintos, entre barracas de comida. O cheiro de cerveja é natural no ambiente, vencendo o fedor da baía de Guanabara. Vejo crianças correndo pela areia, leves como as gaivotas (ou seriam urubus que estão ali?). O Piscinão de Ramos é como uma lagoa de água translúcida à beira da Avenida Brasil: fácil de chegar e fácil de sair. É a medida perfeita para agradar a população mais pobre e não deixar que ela se aventure nas praias que, apesar de públicas, sempre pertencerão aos ricos e aos turistas.

Antunes
Santa Cruz de la Sierra, 4 de mayo de 2010

Pedestres em perigo: moto atravessa passarela na Avenida Brasil

Bem-vindo ao Piscinão de Ramos!

Cachorros e crianças em um dia de Piscinão nublado

Eu às margens do Piscinão de Ramos

Água mais translúcida que da Praia

Quase um oasis!

Uns moram em frente à praia, outros em frente ao Piscinão

É proibido usar capacete!

Creia, leitor. Creia porque a lógica é esta. Em Ourilândia é proibido usar capacete. Não que haja leis escritas, mas afinal de que servem as leis escritas se as que valem são orais? O meio de transporte mais comum aqui é a moto. Dos meios de vida, garantiram-me: um dos mais comuns é o roubo. E não fizeram a boa combinação dos meios: moto+roubo? Só duas estirpes de pessoas usam capacete por aqui, falou-me um aluno que está na cidade desde antes de sua emancipação: ou são funcionários da Vale ou são ladrões. Os funcionários da Vale usam capacete por medidas de segurança incentivadas pela empresa; os ladrões usam pra esconder a cara qual máscara. Daí vem a lenda de Jack Cabeça, dos mais misteriosos bandidos da região.

Dizem que ninguém nunca viu a cara do Jack Cabeça e que sua referência é o fato de mandar fazer seus capacetes sob medida, tamanha cabeça tem o moço. Jack Cabeça é/era (não se sabe seu paradeiro) assaltante cruel, matava e só depois mandava levantar as mãos. Inicialmente assaltava em dupla, com seu companheiro de garupa, Jacinto das Morte. Mas se desentenderam e o próprio Jack Cabeça o matou. Dizem que o diálogo foi rápido e rasteiro:

– Jack, quero saber se cê vai me pagá aquele dinheiro que tá me deveno.

– Já disse: vô! Num me aperreie mais!

– Tô precisano do dinheiro, Jack. Quero só vê se vai me pagá hoje!

– Tá me chamano de mentiroso!

– Tô não, Jack!

-Eu afirmei, num apergutei! E agora tá dizeno que eu tô mentino porque eu disse que cê disse que eu tava mentino!

Depois cantou o revólver de Jack. Era o fim de Jacinto das Morte.

A abordagem policial, por conta dos ladrões de capacete, é sempre a mesma. Param os motoqueiros que seguem as leis nacionais e mandam que cumpram as leis regionais:

– Ei, ô da moto. Encoste!

– Que foi, seu moço poliça?

– Tire o capacete!

– Tem cara de ladrão esse, Jailto?

– Tem não, Creisso.

– Tá liberado, então. Mas, num volte a colocá capacete que isso é coisa de bandido.

Tive o (des)prazer de ouvir como funciona o método de roubo de Jack Cabeça. Dizem que em seu último assalto parou a moto diante da mulher da barraca de bijuterias. A senhora, já trêmula e quase se urinando, só conseguiu perguntar:

– O sinhô de capacete é bandido, né?

E Jack Cabeça, irônico a respondeu:

– Sou não, sou funcionário da Vale.

A pobre, coitada, num breve alívio respondeu:

– Então o que o sinhô deseja?

– Vim só garimpar teu ouro! – Disse o Jack e deu uma risada estrondosa abafada pelo capacete.

Antunes

Terra dos Sem Capacete, 25 de março de 2010