Arquivo da tag: Narciso

Narciso

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com
São um ou dois pássaros, ali do lado direito. Algumas plantas se movem, não dá pra saber quantas ou quais são. Umas imagens deformes parecem pessoas. Um rosto que vai se multiplicando e logo volta a ser um, fica torcendo e distorcendo, balançando sutilmente de um lado para o outro e às vezes se desfaz em anéis de água. São quatro ou cinco olhos negros, vidrados e curiosos. A pele também é negra e de múltiplos contornos.  O cabelo é ouriçado como anéis que uma pedra produz ao cair num lago. As orelhas não estão na mesma direção. A boca parece metade triste, metade feliz. O nariz é torcido. Parece que Deus é Edvard Munch. É o que Narciso vê refletido na Lagoa Rodrigo de Freitas, abaixado em um deck próximo ao Parque dos Patins.

Os turistas que passam, talvez não entendam ou não tenham tempo para entender. Os moradores já não se importam, pois sabem que aquele homem não faz mal algum. Enquanto todos caminham, fotografam, pedalam, Narciso vê apenas os reflexos na água da Lagoa, tal sombras platônicas redimidas. Detêm-se naquele rosto recriado pela Rodrigo de Freitas e se contempla de manhã à noite, quando o sono chega e o faz sonhar seu reflexo de água.

Seu rosto é o rosto do Cristo Redentor negro, seu corpo gigante escala a pedra da Gávea em posse de uma turista loira e de seios grandes, ele é um King Kong. Urra até despertar com o próprio urro. Recomeça o dia ajoelhado sobre um deque da lagoa. Os turistas contemplam a paisagem. Narciso contempla as imagens da Lagoa, seu rosto entrecortado por uma garrafa pet, seus olhos mesclados a sacos plásticos, seu cabelo espuma branca, sobre sua boca um peixe morto. Narciso quer mordê-lo: aproxima-se do reflexo a ponto de tocar o nariz no espelho d’água, submerge o rosto para abocanhar o peixe. Desequilibra-se. Narciso mergulha no reflexo, o reflexo acolhe Narciso. Parte a parte encontra-se o corpo: primeiro a cabeça, ao final, os pés. Mesclam-se numa figura única sob as águas sujas e calmas da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Antunes

Ilustração: Rogerio

Rio de Janeiro, 5 de março de 2011

A fonte da minha juventude

Olha, Marília,
Na fonte pura
A tua alvura,
A tua boca,
E a compostura
Das mais feições.”
(Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu.)

Não queria voltar no tempo, não. Se voltasse, talvez nem conseguisse sair da fonte, morresse afogado, pois sequer tenho ainda muito tempo pra voltar. Queria apenas que aquela fonte fosse a fonte de minha juventude, a fonte de agora, que parasse o tempo. Que quando eu mergulhasse encontrasse a sua alvura, a sua boca a encontrar com a minha boca. Queria que, ao mergulhar no chafariz de São José, não encontrasse o meu reflexo, mas sim o teu. Não queria as águas de Narciso, queria só as de Afrodite, nada mais, não.

Antunes
Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2010

Nós diante do chafariz de São José