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História Real

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

Outrora a Quinta da Boa-Vista era a morada dos nobres. Hoje, durante a noite, até o mais vulgar dos homens teme passar por lá. Do lado de fora, legiões de travestis, prostitutas e mendigos dividem a calçada. Dentro, a escuridão predomina no parque e rodeia o antigo palácio real. Ouvem-se uivos dos animais do Zoológico e sons macabros vindos do presídio Evaristo de Moraes.

Às portas do museu, suando como fosse dia, montavam guarda Marcelo e Bernardo:

– Já pedi a troca de turno, Bernardo.

– Tá com medo daquela coisa?

– Tenho dois filhos, sei lá o que pode acontecer.

– Olha, lá vem ela de novo.

– Parece o fantasma do rei.

– Que rei?

– O tal do Dom Pedro que morou aqui. Nunca viu num livro de história?

– Então fale com ele,  já que tem tanta intimidade.

– Quem está aí? Pare agora mesmo! Identifique-se.

– Sumiu.

– É sempre assim.

A história começou a correr. Primeiro entre a administração do museu, depois entre os funcionários da Quinta da Boa Vista, em breve era a história mais comentada em cada bar de esquina de São Cristóvão. Chegaram até a comunicar dona Isabel Maria Josefa Henriqueta Francisca Miguela Gabriela Rafaela Gonzaga de Orléans e Bragança e Wittelsbach, ou seja, a atual sucessora de Dom Pedro I. Entretanto, ela disse não querer saber de espiritismo e que não daria dinheiro nenhum a ninguém.

Marcelo não conseguiu a troca de turno. Bernardo sequer tentou. A princípio, foram noites difíceis. O fantasma do imperador passou a fazer visitas cada vez mais freqüentes. Chegou-se a pensar que alguma coisa ruim deixava sua alma inquieta, que chegava o fim do mundo, que trazia algum aviso importante ou, até mesmo, que queria vingar-se como algum rei dinamarquês. Marcelo e Bernardo acompanhavam todas as noites a movimentação do fantasma de Dom Pedro I. Surgia ao lado da estátua de seu filho, depois sumia. Reaparecia carregando em seus braços alguma prostituta, depois sumia. Os guardas pensaram que o imperador voltava ao mundo para buscar almas femininas, mas não. Quando saía o sol, buscavam ao redor do palácio e não encontravam corpo algum. O passar do tempo trouxe o costume e a coragem. Numa noite de lua graúda, Marcelo e Bernardo seguiram o espírito que carregava em seus braços mais uma dessas mulheres da vida. Caminharam a passos silenciosos até o matagal de trás do museu e, ao chegar lá, viram aquela cena sobrenatural: Dom Pedro nu a amar a prostituta. Depois do evento revelador, Dom Pedro passou a tratar os guardas como se fossem seus súditos mais leais. Jogavam cartas quando Pedro se desentendia com as mulheres e ele lhes contou que não voltava a este mundo por dor, vingança ou ódio. Voltava apenas porque se cansara da morte e lhes disse que não conseguia levar a eternidade sem amar as mulheres.

Antunes
Ilustração: Rogerio
Rio de Janeiro, 1 de fevereiro de 2011

O Espírito da Lapa

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

Os loucos do Rio de Janeiro não estão na Colônia. Estão soltos por aí. Se olharmos com atenção, veremos que na Colônia estão os sóbrios – muito provavelmente, protegidos dos loucos que infestam a cidade. Vá ao Centro do Rio de Janeiro, numa sexta-feira à noite, verás os ébrios, os apaixonados, os enfermos dançantes. Um professor universitário à mesa dum bar diria como numa sala de aula: é o espírito dionisíaco. Merda nenhuma! Entenda o Rio de Janeiro como é, bem longe das universidades, nas carnais madrugadas da Lapa. Os espíritos ali são outros: É o Exu de camisa listrada, chapéu inclinado, cigarro na boca que sobe as escadas. É a Pomba-gira que roda a saia, que canta gritando, que cospe no chão. Na Lapa, à noite, todo espírito é feito de carne. Quando começa a música, até São Jorge desce da lua pra dançar.

Próximo aos arcos, Chico, Antônio e Eduardo subiram as escadas dum sobrado desses qualquer.  Era cedo, inda ia dar meia-noite. Atravessaram as nuvens de fumaça pra se recostar numa janela com muito mais tempo de vida que a idade dos três somada. Já sabiam o que esperavam: muito além da música, da bebida, da maconha – era o que garantiam Antônio e Eduardo ao Chico que estreava na noite. Muito melhor que qualquer vídeo-game, punheta, seriado de tevê, explicavam novamente, pra falar a língua do rapaz.

Por volta de duas da manhã, imagina-se o barulho dos saltos já que não se pode ouvi-los por causa da música. Cabelo escorrido, seios imensos, bunda ainda maior – falsa claro, tão falsa quanto os seios, tão falsa quanto tudo naquela noite. Cláudia. Caminha até os amigos, com a presença de uma locomotiva que lança a sua fumaça no ar. Cumprimenta-os. Apresentam-lhe o novato. Ele, pela timidez, lhe diz Francisco. Bebem ainda mais, fumam ainda mais. O dia vai ficando mais próximo, mas a vida se torna mais escura. Deixam-nos a sós, recostados à parede.

Apesar do decote, da saia curta, do cheiro de álcool e do cigarro, imprensada à parede, Cláudia era uma puritana. Bem falaram os amigos: diante da platéia era cheia de não-me-toque, mas no quarto, vista só por dois olhos, se transformaria num furacão. Chico já perdera o recato, já multiplicara as mãos, já não era mais ele e queria Cláudia como seu ebó. Bastou dizer uma vez: vamos pra outro lugar. Antes de dizer sim, já estavam lá. Era um quarto modesto, muito aquém de Cláudia, um quartinho como dum puteiro: uma cama muito usada e um banheiro pra dar conta da sujeira.

Ele estava atirado na cama, nu. Esperava Cláudia que resolvera se aprontar no banheiro. Tudo muito rápido, mas, pra ele, uma eternidade. Passados alguns breves minutos, ouve-se a porta. Surgem olhos ainda mais vivos, os cabelos escorridos pelos ombros, os seios totalmente a mostra, um umbigo perfeito, cintura fina e um piru muito maior do que o do garoto deitado na cama. Era assim que Cláudia, ou Cláudio – como prefira – já tinha tomado muita porrada na vida. Mas, a maioria dos navegantes, já que estava ali, preferia não perder a viagem.

Antunes
Ilustração: Rogerio

Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 2011

Desculpo-te. Desculpa-me, Lapa.

Desculpa-me, Lapa, não gosto de ti.

Primeiro que, diferente de muitos, nunca fui lá muito devoto de música. Por sorte há João Cabral de Melo Neto para qu’eu possa dizer que isto não é desumanidade ou burrice. Não tenho paciência pra reggae, pop, rock… até que gosto dum samba, gosto sem morte de amores… as outras músicas que gosto num tocam na Lapa acho não. A Lapa parece-me muito excessivamente musical demais, aquelas infinitas tribos que não sei reconhecer, aqueles sons que não sei reconhecer, aquilo tudo que toca não sei pra quê.

Segundo que não bebo, não. Francamente, até bebo um vinhozinho, muito às vezes e só. Bebo tão pouco que posso dizer que não bebo. E na Lapa todo mundo bebe muito e bebe mal. Bebe umas bebidas excessivamente doces, excessivamente fedidas e depois mijam as bebidas excessivamente doces e excessivamente fedidas por qualquer lugar.

Terceiro que eu não fumo, não. Tenho um cachimbo (na verdade tenho dois). Uso os cachimbos só pra brincar de bolinha de sabão. Não tenho nada contra cheiro de cigarro, mas me enjoa aquele cheiro meio doce de maconha. Na Lapa tem muita fumaça e eu sempre tive muita bronquite.

Quarto que não gosto de virar a noite acordado e, como não tenho carro, não arrisco voltar no meio da noite. Então, se fosse um folião, voltaria de dia, só quando a noite não teimasse mais em ficar acordada. Mas isso não é pra mim não, às 22 horas estou caindo de sono, quero só me enroscar no edredom, quero só esquecer de mim.

Quinto que sou avesso à prostituição. E na Lapa ela está em cada esquina, em cada falso sorriso de travesti e nas mocinhas tão jovens e tão ébrias.

E como vingança, a Lapa me nega suas escadarias azulejadas, seus sobrados velhos, suas ruas machadianas, seu aqueduto branco… assim ficamos quites.

Desculpo-te, Lapa, porque não gostas de mim.

Antunes,
Rio de Janeiro, 3 de abril de 2011

Os Arcos

A iluminação dos arcos da Lapa: hoje ponto turístico, outrora aqueduto

Nô e eu diante dos Arcos

Paredes pintadas na Lapa

Comida de malandro

Beliscando, se passa as noites na Lapa

A Escada de Jorge Selarón por @priscillacioly

Detalhes da escadaria, foto de @priscillacioly

E uma garrafa de rum!

Não que eu acredite em fantasmas… muito menos em fantasmas de piratas ou piratas fantasmas. Seja lá o que vi, o fato é que vi. Em Paraty os piratas vêm do mar e é pro mar que tornam. De dia, ficam entre as crianças, a tirar fotos, a fazer propositais caras de maus. De noite, findam-se as oito horas de trabalho. Os artistas, se é que se pode chamá-los assim, voltam a ser meros quaisquer um de nós e vão passar a noite nos bares ou na cama, que é lugar quente, esperando o horário de nascer o sol e de se pôr novamente a fantasia. Os pais dizem pros meninos: “já se foram, filhos, voltaram pro seu navio no mar.” Paraty enaltece este passado, faz dele turismo, entretenimento, parte da paisagem. Não só os homens vestidos, mas as lembrancinhas das lojas, o nome das vendas, dos pratos dos restaurantes, no rótulo das cachaças … certo mesmo é que os piratas ancoraram em Paraty e não mais sairão. Mas isto não justifica o que vi, leitor.

Era noite bem anoitecida, vinha eu mais minha esposa que não me deixa mentir, a flanar pelas ruelas da histórica cidade, quando avistamos um conjunto de três crianças. Atrás delas vinha um pirata sem loro, sem espada, sem perna de pau, mas um pirata. Por trás das crianças, o sujeito macabro gritou. Tomou o pirulito duma, beliscou as bochechas doutra e deu um arroto bem na face da terceira. Depois saiu a cantar por uma ruela sem gente. Corremos, minha esposa mais eu, até os miúdos. Virei pra ruela, saquei uma foto do patife (e uso esta palavra porque a acho bem designada a um pirata), virei novamente pras crianças e quando mirei novamente à ruela escura, o patife (friso) tinha fantasmagoricamente sumido. Voltei a olhar pras crianças que já, também, não estavam mais ali. E eu já duvidava se realmente vira tudo que vira ou se era a minha garrafa de rum que contava as histórias. Sorte que me sobrou a foto, leitor. E sabe você que as fotos são ainda mais sinceras que as garrafas de rum.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2010

A Terceira Ponte e o Farol de Santa Luzia

Dê-me luz! Alumbra-me pra escrever este texto, pois já escrevo vários seguidos e a escrita cansa. Não mais, disse Camões ao final dos Lusíadas, todavia eu, teimoso, digo: um mais!

Tolo, achei que engarrafamento fosse coisa de paulista e carioca. Engarrafamento é coisa de capixabas também, de capixabas que vão a Vila Velha (a mais antiga e populosa cidade do Espírito Santo, superando até a capital) na hora do rush. Sair entre 17 e 18 horas do trabalho, significa ficar preso na Terceira Ponte. Cabe lembrar, Vitória e Vila Velha são como Rio e Niterói, se continuam e se comunicam por ponte. Porém a Ponte III (gostei assim) só tem duas pistas de cada lado, é apertada que nem funil e engarrafa à toa. Sua construção e seus mitos também são históricos: dizem (como sobre a Ponte Rio-Niterói) que vários esqueletos de trabalhadores mortos na obra estão presos nela até hoje e que é o lugar mais propício a um suicídio programado, os que saltam lá de cima não são raros, são cotidianos, contam-me.

Fui conhecer Vila Velha e comecei pelo Farol de curioso nome: Santa Luzia. Curioso, pois se o leitor não sabe, Santa Luzia é a padroeira dos olhos, sendo assim, é um nome mui alusivo para um farol que dá luz ao navegante à noite, justamente quando menos vê. Apesar de não estar aberto a visitas, fui visitá-lo e a vista é boa, garanto. Embaixo dele, bem pertinho, bate água do mar, o clima é agradável e bom de ficar. Depois disso, vale o passeio pela praia da Costa, jantar num quiosque ou num dos restaurantes à beira e ficar ali até cansar de descansar, pois à noite só acaba mesmo quando o farol se apaga e sai o sol.

Antunes
Vitória, 17 de dezembro de 2009

A Terceira Ponte, entre os vãos o Convento da Penha

O monstruoso engarrafamento pra se chegar té Vila Velha

O farol de Santa Luzia, luz aos cegos

A vista do farol

Barquinhos sob o farol

Pôr do sol em Vila Velha

Quando te batizaram assim, já devias ter certa idade. E por isso dizem-te velha? Não ligue, não te importes, vê este texto, nasceu agora e já tem suas rugas, seus defeitos, seus pesares. Evoco Paris, longe de se contar nos dedos a sua idade; e Pequim, quantos anos deve ter? Ao lado delas estás nova, vigorosa, forte… Não te deprimas, Vila do Espírito Santo. Afinal, 1535 está logo ali.

Ontem desabotoei a camisa e deitei sobre teu corpo de areia, sei que não sabes, afinal, quem sou eu diante de ti? Fiquei na Costa, esperando a noite pra ficar ao escuro contigo. Repousei e queria ir ao teu convento, ver-te de cima, mas conventos não abrem à noite, principalmente pra mim, explorador, turista, vouyer…

Lavei os pés em tuas águas, limpei-me de tuas areias, depois de suar, comer, dormir… parti e ainda nem era dia, atravessei a ponte que hoje te separa de mim. Adeus, velha, desculpe, senhora, dona, sei lá, um dia volto e nem te lembrarás mais desta noite (mas eu, sim).

Antunes
Vitória, 17 de dezembro de 2009

Abandonando-te, Vila. Abandonando-te, Velha.

Deitado sobre o corpo de areia

O convento e o pôr do sol

Vila Velha, mas jeito de garota. Vista da Praia da Costa.