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Nos lenços amarrados

De Nôla Farias – Participação Especial

Não, não estamos em guerra. Eu sei que você não vê homens, só mulheres por toda parte. Eu sei que elas são policiais, vendedoras, varredoras, recepcionistas. Não, os homens não estão combatendo enquanto elas trabalham e cuidam dos filhos e cuidam das casas, eu tenho certeza. Onde estão os homens? Não sei, mas não estão na guerra. Talvez estejam em casa dormindo, no bar bebendo ou em qualquer lugar sem importância. Talvez eles nem estejam. Mas tenho a sensação de que não é necessário que estejam em canto algum, pois a força dessas mulheres está estampada em seu rosto e é uma força muito grande. Esta força, me parece, é capaz de sustentar nas costas, nos lenços amarrados, todo um país.

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2010

As cores da bandeira

De Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

O que leva alguém a querer abrir mão de todas as cores para ficar só com uma? Pois não consigo entender, ainda que ouça muitas explicações. A Bolívia, de fato, é um país riquíssimo e cheio de contradições, algumas delas, discretas, outras, muito evidentes.

Como o caro leitor já sabe, iniciamos nossa jornada pelo país na cidade de Santa Cruz de la Sierra, fomos a Sucre e, enfim a La Paz. Nesta jornada, uma diferença ficou muito clara entre Santa Cruz e as demais cidades: as bandeiras. Em Santa Cruz há um “nacionalismo regional” tão forte a ponto de só se ver a bandeira verde do departamento pelas ruas. Enquanto isso, não conhecemos a bandeira das outras cidades que visitamos, pois por ambas, só encontramos a Wiphala.

A Wiphala é bandeira que representa a união de todos os povos andinos. É uma bandeira oficial da Bolívia desde a década de 1950 e muito difundida pelos departamentos dos vales centrais e do altiplano boliviano, onde há grande concentração de população indígena. Esta bandeira, diferente da de Santa Cruz, não apresenta um nacionalismo regional, mas tem um caráter étnico.

Enquanto andava pelas ruas de Santa Cruz, me lembrava do filme Invictus. Confesso que não conhecia muito a história da África do Sul e, ao ver o filme aprendi algumas coisas. A bandeira da África do Sul, antes do Mandela era verde, tal qual a de Santa Cruz. A bandeira da África do Sul, depois do Mandela, passou a ser colorida, tal qual a wiphala. Aliás, este não é o único ponto em comum entre as duas histórias. Há um que me parece pior e que talvez o leitor não saiba. O termo “apartheid” foi utilizado originalmente para descrever as relações étnicas na América andina, entre o colonizador e o indígena. Espero que um dia as cores desçam a imensidão de altura da cordilheira e encham de igualdade cada cantinho deste país tão rico.

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2010

As bandeiras camba, o verde e branco de Santa Cruz de la Sierra

Wiphala, a união andina

El Soroche

De Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Tenho uma charada para você, estimado leitor: como pode a seleção boliviana em 2009 ganhar da argentina de 6×1 e, apresentando tal excelente resultado, não ter sequer se classificado para a copa de 2010???

Charada boba, resposta simples: é a altitude. O jogo se deu em La Paz, a 3.600 metros de altitude, no estádio Hernando Siles, em frente ao hotel em que fiquei hospedada. Pude experimentar um pouquinho desta desagradável sensação, o soroche. A coisa existe mesmo e mexe com aqueles que vivem ao nível do mar.

Quando cheguei a La Paz senti efeitos sutis, apenas uma dorzinha de cabeça, que apesar da pouca intensidade, me perturbou constantemente. O cansaço provocado também é bem intenso e é potencializado pelas tantas ladeiras da cidade. Tomei o polêmico chá de coca, que aqui é vendido em sachês no supermercado, tal qual o chá de camomila ou hortelã, ou tantos outros no Brasil. Sinceramente, o chá não me provocou nenhum efeito fora o prazer de bebê-lo, visto que é muito saboroso.

Posso dizer que os sintomas do mal de altitude que tive quando cheguei em La Paz não foram nada diante dos que experimentei no dia seguinte, quando visitei a cidade de Tiahuanaco, a 3.800 m. Caminhar pelo sítio arqueológico, entre tantas subidas e descidas e sob um sol muito intenso me fez sentir muito mal. Experimentei muito desânimo, cansaço e enjôo, sintomas que só foram resolvidos quando cheguei de volta ao hotel, deitei e comi.

Dizem que para amenizar estes efeitos, devemos tomar muito chá de coca, mas é impossível tomá-lo o tempo todo, por que sob as ruínas incas, não há chá sendo servido. Resta então, ter paciência, contar com a compreensão do seu companheiro de viagem e diminuir o ritmo, respeitando seu organismo. Mas não se deixe intimidar e explore, suba e conheça, o quanto agüentar, pois conhecer é bom demais.

Nôla Farias
Santa Cruz de la Sierra (iniciado), terminado: Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2010

Emanoelle tentando sobreviver ao soroche à base de chá de coca

O Sonso Cruceño

Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Era o último dia em Santa Cruz de la Sierra. Tudo que queríamos era entrar num avião para voltar para casa. O dia foi vivido sentado em um banco de praça, pois não há nada que se possa fazer nessa cidade num domingo. O tédio era tão grande, que até à missa fomos, depois de jogar o jogo dos pontinhos. Pensamos: Vamos à missa depois fazemos um lanchinho naquela lanchonete bonitinha que tem ali.

Assim foi feito, assistimos meia horinha de padre e fomos encher nossas barriguinhas. Queríamos muito experimentar as tais salteñas bolivianas, pois ainda não tivéramos a oportunidade. Entramos na tal lanchonete modernosa e tivemos que apertar um botãozinho pra chamar o garçom. Ele veio e Vinícius deu a sorte de comer a última salteña da casa. Provamos também a empanada nacional que é frita, não assada. Mas algo faltava dentro de mim. Olhei para o lado e na vitrinezinha eis que vejo uma coisa amarelinha, apetitosa, brilhando e acenando para mim, me convidando a experimentá-la. O que é aquilo? – pergunto ao garçom. É sonso, um prato típico de Santa Cruz, feito a base de aipim e queijo, é muito bom! – responde ele. Hum, eu quero! – replico.

Vi a Deus. Tivera a melhor experiência gastronômica da viagem. No momento em que comia, já pensava em chegar em casa, comprar aipim, queijo, encontrar uma receita na internet e prepará-lo para saboreá-lo novamente. Dito e feito. Cheguei de viagem na segunda, terça fui ao mercado e encontrei uma receita e, finalmente, na quarta fiz o sonso.

Modéstia a parte, meu sonso não deixou nada a desejar em relação ao cruceño, ficou muito gostoso! E é muito simples de fazer. Se você tiver ficado com água na boca, pode tentar fazer em casa, abaixo vai a receita que eu segui.

SONSO

Ingredientes:

– 1 kg de mandioca cozida com sal

– 75 g de margarina

– 1 ovo

– 250 g de queijo meia-cura ralado

– 100 ml de leite (para regar)

Jeito de fazer:

– Numa tigela, coloque 1 kg de mandioca cozida ainda quente e amasse com o auxílio de um garfo ou amassador de batata. (Obs.:É melhor não passar a mandioca no processador para não tirar o toque rústico do prato.)

– Junte 75 g de margarina, 1 ovo e e 250g de queijo meia-cura.

– Misture bem.

Para a montagem:

– Numa assadeira retangular (25 cm x 20 cm C 4cm de altura), untada com margarina, coloque a massa de mandioca e polvilhe queijo meia-cura.

– Regue com 100 ml de leite.

– Leve ao forno a 200ºC por cerca de 20 min para gratinar.

Fonte: Receitas Mais Você

É bem fácil de fazer, mas é um pouquinho trabalhoso porque tem que amassar o aipim. O que me complicou um pouquinho foi que meu amassador de batatas quebrou enquanto eu o estava usando… Por isso fica a dica, cuidado com seu amassador. Fora isso, é super fácil. Além disso, todo o trabalho é compensado pelo sabor, pode acreditar! Se você fizer, convide a gente para experimentar!

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 15 de junho de 2010

EL SONSO

A autora do texto e sua inspiração

Eu penso quadrado, ele redondo

Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

“Supõe que já cruzamos pela vida
Mas nos deixamos sempre para trás
Porque eu andava pelas avenidas
E  tu corrias pelas transversais.”
Supõe – Chico Buarque,
Versão de Sílvio Rodriguez.

Sempre me gabei de saber andar onde quer que estivesse, de ter um ótimo senso de direção. Creio que eu não seja uma pessoa com bom senso de orientação por ser geógrafa, nem o contrário, mas acredito que as duas coisas têm a ver. Esta minha suposta qualidade se sobressaía ainda mais quando andava com meu delicioso marido, dono deste blog, que é a pessoa mais desorientada que já vi na vida. Nunca consegui lhe convencer de que a menor distância entre dois pontos sempre é uma linha reta, apesar de já ter provado mil vezes, não só matematicamente, quanto praticamente.

Pois bem, esta minha suposta qualidade sempre foi muito bem aproveitada ao andar nas ruas do Rio de Janeiro, cujo modelo de plano urbano em tabuleiro de xadrez (ruas quase sempre perpendiculares entre si) está internalizado por mim. Observe no mapinha abaixo, do centro do Rio de Janeiro, como este padrão é quase uma regra. E não só o centro, mas toda a cidade do Rio tende a este tipo de organização. É muito fácil no Rio de Janeiro pegar um mapa e colocá-lo na orientação correta para que sigamos nosso caminho.

Qual não foi minha surpresa, ao chegar em Santa Curz de la Sierra e me deparar com uma cidade cujo plano urbano não é em tabuleiro de xadrez, mas radial! Radial é um plano urbano onde as ruas se organizam a partir de ruas em forma de círculos concêntricos, veja só:

Em Santa Cruz, estes círculos são chamados de anéis e é a partir deles que você se localiza na cidade. Sempre que alguém vai lhe explicar onde fica algum lugar, diz que é na rua tal que fica no centro ou entre o 1º e o 2º anel, entre o 2º e o 3º, ou entre o 3º e o 4º. Parece simples, e talvez seja. Mas o fato é que isto me abalou mentalmente. Passei 3 dias em Santa Cruz e provoquei vários momentos perdidos na cidade, já que eu – devido ao meu suposto ótimo senso de direção – sou sempre a responsável pelos caminhos. Não conseguia sequer orientar o mapa em minhas mãos e, para minha surpresa, meu delicioso marido, dono deste blog, passou a me ensinar os caminhos.

Fiquei pensando no que Cervantes fez pelos espanhóis… A loucura do Quixote inspirou cidades redondas, talvez motivada pelo girar dos moinhos de vento. Acho que esse mesmo vento soprou no Vinícius e, de repente o que era errado passou a ser certo. Ou o que eu pensava que era errado na verdade era certo.

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 21 de maio de 2010

Feira da Praça XV: terror e nostalgia

Por Nôla Farias – participação especial

Confesso que não é o programa que mais me instiga. Topei ir mediante duas exigências: (1) antes, passarmos no Saara pra comprar bugigangas e, (2) depois, irmos aos centros culturais ver o que está acontecendo. Aceitas às reivindicações, fui.

A primeira vista é assustadora, pessoas aglomeradas em torno de barracas, no calor muito quente do centro do Rio de Janeiro, respirando o ar asfixiante que exala dos carros e da baía, acrescido ainda da fatal poeira das velharias. Mas tenho que admitir, há algo de instigante naquele lugar. No meio de tantas coisas assustadoras, como bisturis enferrujados e incubadoras quebradas, ou vitrolas e máquinas fotográficas muito velhas (é importante diferenciar velho de antigo, rs ), me deparei comigo, ou uma parte de mim. Nostalgia.

Nostalgia é a palavra certa pra descrever o sentimento de estar diante daqueles brinquedos, pois lá há uma grande quantidade de barracas que os abrigam: velhos, antigos, quebrados, encardidos ou, raras exceções, muito bem conservados. Não fazia diferença para mim, tudo que eu queria fazer diante deles, eu fazia: rememorar. Vi pequenos filmes, desses que se põem no You Tube, só que na minha memória, e fui feliz. Saí do Centro, fui pro Parque Aeroporto em Macaé, fui pra Campo Grande, passei por muitos lugares dos subúrbios do Rio, onde nomadiei durante minha infância, mas todo esse belo sonho chegou ao fim quando vi um brinquedo: um Topo Gigio encardido, de uns 15 centímetros, no máximo, sendo vendido por 300 reais. Voltei aos 24 anos e fui embora, asfixiada.

Nôla Farias

Rio de Janeiro, 17 de abril de 2010

Obrigada! Muito obrigada!

Por Nôla Farias – participação especial

A primeira dificuldade foi hablar a língua hermana. Para o cérebro, a Geografia não faz sentido no apenas saber-se em algum lugar. Pois bem, havia voado por três horas e sabia que estava em Buenos Aires, mas o espanhol não me saía da boca. Aliás, não me chegava à boca.

Vinícius não compreendeu, achava que eu não falava porque não queria, ou porque me sentia insegura. Mas não era o caso, eu queria. E ainda que não tenha estudado regularmente espanhol – as aulas do ensino fundamental não contam – me dou muito bem com a língua nos tantos textos acadêmicos sobre a geografia da América do Sul e mesmo nas músicas e filmes com os quais, não raro, me relaciono.

Entretanto toda minha racionalidade não foi suficiente para que eu pensasse antes de falar e pudesse pronunciar “gracias”, “permiso” ou mesmo “buenos días”. Mas felizmente esse problema se resolveu e lá pelo terceiro dia já conseguia estabelecer uma comunicação básica na língua local.

Como disse inicialmente, este foi apenas o primeiro problema. Porque, cá entre nós, tirar férias é muito bom, mas turista em terra estranha só se ferra. E foi obedecendo à regra que eu pisei em cocô de cachorro, recebi pesos falsos, paguei caro em táxis, confiei em sugestões pouco confiáveis de um guia, entrei em ônibus sem moedas…

Aliás, outro dia estava andando pra Lapa quando dois TURISTAS (com letras maiúsculas porque são aqueles branquelos de chapéuzinhos e com a câmera pendurada no pescoço, os mais assaltáveis) me perguntaram onde ficava a estação pro bonde de Santa Teresa e se, lá, era perigoso… me questionei se os boanerenses sentiam de mim a mesma pena e achavam a mesma graça que senti/achei dos dois…

Nôla Farias

Rio de Janeiro, 8 de fevereiro de 2010