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Ipanema

por Xandinha Magalhães – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Podia estar me referindo à bela e bucólica Ipanema de Minas Gerais com seu exemplar ensino público, mas hoje escrevo sobre a Ipanema carioca, bairro perto de onde moro e por onde passo freqüentemente.

Ipanema, assim como tantos outros bairros cariocas, apresenta uma contradição entre sua paisagem e sua etimologia. O nome Tupi para “rio sem peixe”, ou “água ruim” não traduz a essência da Ipanema que consagrou a Garota de Ipanema, com seu clima de exultação ao gingado, ao dourado, à mini-saia, à malandragem e que brindou com suas praias a Bossa Nova para a composição dos cenários de suas canções. Ipanema, para quem não conhece o Rio, fica entre o fervor de Copacabana e seu tumultuado Réveillon e o Leblon, bairro das novelas globais de Manoel Carlos e suas Helenas.

Não sou a turista deslumbrada em sua primeira viagem ao Rio, mas uma amante das paisagens naturais e construídas de sua cidade. Faço sim passeios periódicos históricos e turísticos por vários cantos e encantos desta cidade, principalmente nas regiões do centro e litoral. Mas o que é Ipanema para a garota que não é de Ipanema?

Ipanema para mim é a escapada que dou da mesmice nas corridas na Lagoa. É onde desfruto de lanches em lugares exóticos e/ou chiques, com suor da caminhada ou arrumada para o teatro.  É onde encontro HQ e congêneres raros e lançamentos. É onde aproveito promoções posando que ganho bem $$.

Mas para chegar a todos esses lugares, passamos por outros tantos que me mostram um cenário deveras contraditório, assim como seu significado Tupi que se contradiz de seu atual cenário. Caminhando por Ipanema vejo trechos onde me sinto em Nova Iorque e suas lojas imensas e exclusivas, em outros, em Madureira e suas lojas populares. Mas todas suas ruas, independente do preço da etiqueta, me lembram dias de sol, verão e férias escolares.

Não conheço também, além dos dois bairros vizinhos, outro lugar em que possa me sentir mais fora de meu país. Isso porque não é preciso nenhum esforço, nem mesmo dez passos, em qualquer período do ano para ouvir mais de um idioma estrangeiro sendo falado ao seu lado. É tanta diversidade de origens e idiomas, que por vezes me pergunto se não sou eu mesma que estou em país estrangeiro…

Só me irrita passar por lugares assim quando já estou irritada. Já parou para pensar como é chato estar aborrecido em um lugar que parece que todos têm a obrigação de estar felizes? Você querendo xingar o mundo e um casal russo pára sorrindo ao seu lado para admirar o contorno do sol na pedra e seu contraste com os grandes prédio? Não dá para ficar aborrecido. O jeito é dizer “sim, eu moro aqui” e esquecer na mesma hora o que estava reclamando…

Xandinha Magalhães
Rio de Janeiro,  21 de fevereiro de 2011

Nós por outra voz

Este texto surgiu de uma iniciativa de Jônatas Amaral e Priscilla Alcioly que sugeriram a alguns blogs de amigos que postassem um texto sobre a mesma temática (Dublagem) no mesmo dia (26/01/2011). Os outros blogs, além deste, são: Tá comigo, tá com deus; Casa dos Devaneios; Por dois fios; Oqmedernatelha.

Ao entrar num quarto de hotel é habitual jogar-me de sapatos à cama, com a mão esquerda caçar o controle do ar condicionado, ligá-lo, e com a mão direita dar vida à tevê. Passo uma infinidade de canais por segundo e me diverte muito mais o ato de passá-los do que de assisti-los. Gosto quando os sotaques se sobrepõem, quando as cores mudam bruscamente, quando as histórias ficam inconclusas. Nunca conheço os autores dos crimes e quando os conheço não sei os crimes que cometeram.

Era Argentina, era Bolívia, era Colômbia… as histórias se repetiram. Eu estava deitado, passava os canais, os canais passavam por mim, passavam pela tevê, voavam sem tempo de dizer o que queriam dizer, as palavras eram cortadas e a sílaba dita por um canal juntava-se à sílaba d’outro. De repente, um estranhamento. Voltei o canal. Parei perplexo. Um rosto conhecido havia sido possuído por outra voz. Tony Ramos, Gloria Pires, Antônio Fagundes como se estivessem possuídos por espíritos caribenhos, andinos, gauchos. Eram artistas brasileiros, mas a alma havia mudado.

Na nossa condição de importar filmes e seriados, estamos tão acostumados a dar voz, a dublar, que esquecemos que também nos vendemos e recebemos vozes. São as novelas um dos nossos grandes produtos culturais de exportação. Roque Santeiro, por exemplo, mudou Cuba, mudou a vida de milhares de Angolanos e não há exagero nisso. Somos noveleiros, o mundo sabe disso e vem sentar ao nosso lado para desvendar quem matou Odete Roitman.

E se muitas vezes criticamos as dublagens que fazemos, imagine o quão estupefatos ficaremos quando nos depararmos com Jackson Antunes com voz de zorro, Patrícia França transformada em professora Helena, Vera Fisher soando como a Bruxa do 71, Malu Mader com voz de Thalía e Juliana Paes dublada por uma cigana indomável de sonhos latinos… Ah, sensualíssimo espanhol que torna impossível vermos nossas novelas. Ah, mexicaníssimo espanhol que nos faz rir de nossas próprias novelas. Ah, espanholíssimo espanhol que faz com que deixemos de ser brasileiros.

Restam, então, duas opções: ou não suportamos ser bonecos de ventríloquos mexicanos, colombianos, argentinos e desligamos a tevê; ou aceitamos que nós podemos ter outra voz, aceitamos que o espanhol é tão brasileiro e que nossos atores são tão latino-americanos quanto qualquer andino, quanto qualquer gaucho … aceitamos que, ao fim, a voz é sempre a mesma, a voz da telenovela que amada ou odiada, é aquela que multiplica modas e idéias pelo nosso cotidiano e, saibam, então, a partir de agora que não só pelo cotidiano brasileiro, mas pelo cotidiano de uma maiúscula América.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2011

Abaixo links do youtube de algumas novelas brasileiras que foram dubladas para o espanhol:

La esclava Isaura (Escrava Isaura)

India, una historia de amor (Caminho das Índias)

El Clon (O Clone)

Celebridad (Celebridade)