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Superstições, coincidências e transtornos obsessivos compulsivos ao avião 2 (Vitória)¹

Como prometido, cito novamente:

Logo refletiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões; com lógica perversa inferiu que prever um detalhe circunstancial é impedir que este aconteça.” (BORGES – meu autor favorito neste segundo – no conto Milagre Secreto).

O maior gênio vivo do Brasil chama-se Oscar Niemeyer e não anda de avião. O maior idiota vivo do Brasil sou eu que ando quase todo dia.

A lógica autoajudista-circunstancialista-mercadológica diz diferente do escritor argentino. O famoso livro O Segredo explica: força da atração. Ou seja, tudo que você pensa vai até você. Borges – neste texto – nega: se você pensa, está errado, pois não é possível prever.

Sendo assim, fica o grande dilema para qualquer pessoa portadora de transtornos obsessivos compulsivos e cagaços de uma forma generalizada: ou eu penso que o avião vai cair e ele realmente cairá, pois é a força da atração; ou eu penso que o avião vai cair e ele não cairá, pois sou incapaz de prever (força da repulsão – este nome é por minha conta e não do Borges).

Por enquanto ganha a teoria do conto Milagre Secreto, visto que é impossível que um medroso pense algo muito diferente de tragédias. Ou seja, a repulsão predomina no mundo.

DICA: Ao jogar na Mega Sena pense: jamais ganharei. Assim, você estará seguindo um princípio lógico diferente de todos os tolos que jogam pensando que vão ganhar e sempre perdem. É a força da repulsão.

O mais difícil desta lógica terrena e extraterrena é ter que pensar em todas as possibilidades justamente para que elas não aconteçam. Aí, urge citar novamente o mestre Borges:

“O senhor replicará que a realidade não tem a menor obrigação de ser interessante. Eu lhe replicarei que a realidade pode prescindir dessa obrigação, mas não as hipóteses.” (A morte e a bússola)

O grande tormento da vez foi eu ter “trocado” de vôo com minha cara amiga de trabalho Xande Magalhães. Imagine se a morte estivesse reservada a ela e não a mim e eu, simplesmente, tomei sua grande oportunidade de chegar ao outro mundo.

Somado a isto, há a grande quantidade de frases que parecem querer comunicar que chegou a sua hora. Placa no aeroporto: “O Rio de Janeiro sentirá sua falta”. Fala do amigo: “Ah, então você não vem mais, né?”. E nas despedidas: “Então você já está partindo…” Viajar e morrer proporcionam muitas falas similares, é saber interpretá-las que vai justamente evitá-las. Ainda mais quando se viaja para um lugar de nome tão sugestivo: “Vai para o Espírito Santo?”

O grande desafio reside no avião. Chega a hora de colocar as teorias à prova. Um problema: caso falhe, não será possível relatar aqui, acho.

1 – A primeira parte de Superstições, coincidências e transtornos obsessivos compulsivos está relacionada a Belo Horizonte, clique aqui.

Antunes
Vitória, 14 de dezembro de 2009