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Presença do ontem

Fim de Ouro Preto, começo de Mariana. Fim de Mariana, começo de Ouro Preto. Ambas antigas capitais de Minas desbancadas por Belo Horizonte. Ligadas por um trem que acumula turistas armados de máquinas fotográficas para retratar nada: um mato do lado esquerdo, uma moita do lado direito, uma pseudocachoeira. O melhor da viagem de trem é o próprio trem e suas simpáticas estações sustentadas pela Vale. Os vagões andam a balançar feito um berço, mais vale dormir no ombro d’alguém que ir desperto a olhar o redor. O maior prazer de estar ali é saber-se não-ali em pouco tempo, é a chegada à outra cidade de mais igrejas, de mais barroco, de mais rococó, de mais passado e sem presente nenhum. Como pode haver presente nestas cidades que vivem um cotidiano de turistas e mais turistas que pedem para que o passado esteja vivo? Como pode haver presente em cidades que os relógios correm à velocidade de um trem turístico? Como pode haver hoje se todos os trilhos levam ao ontem?

Antunes
Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2010


Nôla Farias filma e narra a estação de trem em Ouro Preto

Estação do Trem que liga Ouro Preto a Mariana

Emanoelle diante do monumento ao frango ao molho pardo

Fila para entrar no trem de Ouro Preto a Mariana

Interior do trem de Ouro Preto a Mariana

O lavabo do trem de Ouro Preto a Mariana

"um mato do lado esquerdo"

"uma pseudocachoeira"

Chegada à Estação de Trem de Mariana

O trem-museu da Vale em Mariana

Alguns pontos sobre a Casa dos Contos

Para ser mais cruel a desventura,
Se fará imortal a minha história.”
(Cláudio Manoel da Costa – Soneto LIX)

Tenho uma jovem amiga, escritorazinha (sem qualquer pejorativo nesse inha) que gosta muito da expressão: “quem conta um conto aumenta um ponto”.  Não sei se gosto da expressão tanto quanto ela, mas penso algo ao contrário: “quem aumenta um ponto conta um conto.” Afinal, é justamente pela nossa necessidade de aumentar causos que acabamos criando novas histórias. De pequenos e sem graça já bastamos nós. Pensei sobre esta expressão de contos e pontos enquanto andei pela Casa dos Contos em Ouro Preto. Contam as histórias, com muitos ou poucos pontos novos, que nela ficaram presos os inconfidentes, nela também, que foi suicidado o poeta Claudio Manoel da Costa. Pois imagino que pela cidade não devam faltar pontos que dizem que os fantasmas dos inconfidentes rodam por lá, principalmente o do seu Claudio Manoel. Pois lhes deverei um ponto, leitor, pois não vou lhes contar que encontrei sentado à sacada o finado poeta a recitar versos perdidos no tempo. Pelo contrário, diminuirei pontos e contarei puramente o que vi.

Vi, no andar superior, quadros que sorriam aos visitantes, mas sem qualquer mistério no seu sorrir, apenas foram pintados assim. Vi obras que se moviam, mas apenas quando girávamos a manivela. Vi corredores coloniais, escadarias de nos pôr inveja, janelas que revelavam Ouro Preto como fosse um filme. Embaixo, depois de descer escadas, depois de dobrar corredores, depois que chegamos a um lugar frio e sombrio do casarão, vi um porão com ares de senzala, abrigo que desabrigava escravos. Vi antigos instrumentos especializados em evocar a dor, vi um silêncio ocre deixado pelos escravos que ali não mais estão. Na casa dos contos, não vi histórias fantásticas, vi um realismo cru de uma velha sociedade que insiste em viver, a separar uns dos outros em salões e senzalas, em livres e prisioneiros, em arte e escravidão.  Na Casa dos Contos, mais que ver aqueles quadros, muito bonitos por sinal, me interessou imaginar que contos contavam os escravos em suas masmorras, me interessou imaginar que lágrimas as chibatas não contariam a mim.

Antunes
No avião do Rio a Salvador, 18 de outubro de 2010

A Casa dos Contos

Nôla passeando pela Casa dos Contos

Interior da Casa dos Contos

Na exposição, parte superior, um quadro

Foto enquanto olhava a exposição na parte superior da Casa dos Contos

Nos porões da casa dos contos é proibido tirar fotos, mas esta saiu sem querer. Retrato da escravidão.

A maior e mais verdadeira obra de arte de Ouro Preto

É lixo o que fez o Aleijadinho. Ataíde não passa de um discípulo de quinta. O verdadeiro mestre de Ouro Preto não sei quem é, mas é ele quem reverencio. Fica atrás de uma grossa parede, talvez também seja aleijado e talvez também se chame Ataíde, mas sua obra é muito maior. Sua obra não fica exposta em museu algum, muito menos em igreja, talvez sua obra seja, na verdade, o maior dos pecados – não me cabe agora julgar. Tal arte fica à cozinha e também às prateleiras do Cantinho do Pão de Queijo, bem no Centro de Ouro Preto. Pois não adianta dizer-me da Igreja de São Francisco, nem da Casa dos Contos ou do Museu dos Inconfidentes: o que mata a fome do homem é a arte da culinária. Nunca comi pão de queijo igual. Faço críticas veementes à prefeitura de Ouro Preto por não divulgar este pão de queijo como patrimônio cultural. Se não bastasse ser servido puro, há como aprimorar a perfeição: o pão de queijo pode ser servido recheado e, recomendo, recheado de queijo minas. Mas, não é qualquer queijo minas, não é aquele monte de farinha com água que estamos acostumados a comer no Rio de Janeiro e em São Paulo, é queijo de verdade. Não há combinação de artes, não há Aleijadinho e mestre Ataíde somados, há apenas o pão de queijo recheado com queijo minas e confesso que voltarei a Ouro Preto e desprezarei todo aquele lixo barroco, virarei o rosto para a montoeira de anjos, ignorarei Tiradentes, seus cúmplices e seu traidor, voltarei a Ouro Preto apenas para comer pão de queijo e apreciar esta arte de raiz tão mineira.

Antunes
Rio de Janeiro, 7 de outubro de 2010

Aleijadinho não faria desses

É possível aprimorar o que já é perfeito? Queijo e linguiça.

A maravilhosa fábrica de pães de queijo

A senhora diante da igreja sem deus

Era uma mulher miúda, mas muito maior que a igreja. Não entrou ali porque não cabia (além da porta estar fechada, é claro). Cerrou os olhos e fez uma oração a si, pra si, ali na rua mesmo. Orou sei lá o que, pois sua voz era tão alta que não se podia ouvir. Uns dizem que é uma senhora tão velha que esteve presente no nascimento de deus – e no seu enterro também. Não é amiga dos anjos, nem do diabo, não é amiga de ninguém. Viveu sozinha, morreu sozinha e continua a andar sozinha pelas ruelas de Ouro Preto.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de outubro de 2010

Guias da História

Do alto das ladeiras é possível ver o amontoado de guias turísticos diante da Igreja de São Francisco, ao lado da feirinha de pedra sabão. Vestem a camisa branca do uniforme e fazem cara de que Ouro Preto está mais dentro de mim do que fora. Há os que falam inglês, espanhol, francês e alemão. Com sorte, pode-se até achar algum que fale português. Sabem todos os detalhes minuciosos da construção dos anjinhos barrocos, sabem o significado de cada estria daquelas bundinhas de anjo. Sabem o que vestem todos os santos, as promessas de cada fiel, o que esconde cada tumba e podem precisar a época de cada elemento do rococó com incrível detalhamento de segundos. Alguns turistas, revoltados, os chamam de mentirosos. Mas a maioria delira diante das histórias que contam e tornam pra terra natal repetindo tudo para os amigos e parentes com uma arrogância de doutor e um maravilhamento de novo na fé. O que nem sempre os pios turistas sabem, é que há uma competição entre os guias turísticos locais. Certa vez um resolveu dizer que, naquele monte de anjos, um era o autorretrato de Aleijadinho; outro logo disse que não só o anjo, mas o Jesus crucificado também era um autorretrato do Aleijadinho; um terceiro foi e disse que não só havia os autorretratos do Aleijadinho como o espírito do Aleijadinho vagava por ali à noite; um mais inventor ainda garantiu que não só havia espírito do Aleijadinho como ele já tinha visto o espírito umas três vezes ou mais; ainda houve o que disse que era amigo do espírito do Aleijadinho; e, por fim, teve aquele que disse que não era espírito nada, assegurou que Aleijadinho estava de volta em carne e osso e que não era autorretrato nenhum, o Jesus na cruz era o próprio Aleijadinho sofrendo vivo pela eternidade.

Quando entrei na Igreja de São Francisco, vi um típico guia turístico com sua platéia como um auditório. Apontava pro chão e gritava em voz baixinha pra não acordar os mortos: aqui, bem aqui embaixo de onde estamos pisando, esteve enterrado Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Os turistas arredavam o pé pra sacralizar o lugar, mas o valente guia continuava: eu, exatamente eu mesmo, minha pessoa, esteve aqui na exumação do corpo.  Fui o único guia desta Ouro Preto a participar. Trouxe, inclusive uma foto para que vocês possam ver aquele momento. O guia mostrou a foto, orgulhoso e indicava com o dedo quem era o suposto ele durante aquele feito. Os turistas satisfeitos com a melhor escolha, queriam tirar fotos com o guia, até mesmo tocá-lo por ter tocado o cadáver do mestre. Iam embora pras suas casas, mas jamais esqueceriam aqueles dias em que viram a história tão viva. Passados uns cinco minutos, a igreja novamente se enchia, agora com outro guia que repetia a ladainha, mostrava foto e a história se repetia. E a igreja novamente se enchia, até que chegava a noite e se ia o dia.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de outubro de 2010

Guias caçam turistas e turistas caçam guias diante da Igreja de São Francisco em Ouro Preto

A Igreja de São Francisco e as igrejas de São Francisco que nada têm de São Francisco

Perdão senhor por não amar-vos
(Carlos Drummond de Andrade, São Francisco de Asis)

A minha ignorância é clara, leitor. Se é que há ignorância clara, pois sempre que se fala em ignorância se faz associação às trevas. É o conhecimento que está ligado à clareza. Porém, pouco me importa: é clara a minha ignorância – reafirmo. O que ignoro é a resposta à seguinte pergunta: Por que São Francisco, santo ligado ao voto de pobreza, lhe tem dedicadas igrejas e catedrais tão suntuosas ao redor do mundo? Cresci ouvindo os versos do meu xará de Morais “Lá vai São Francisco pelo caminho, de pés descalços, tão pobrezinho.” E me deparo, agora que virei um burro velho, com a Igreja de São Francisco em Évora, com a Basílica de São Francisco em Umbria, como o Convento de São Francisco em Lima etc. etc. etc.. Se fosse uma crítica, este texto poderia ser de uma revolta juvenil. Entretanto, falo despojado de revolta. O que me move é apenas uma dúvida quase existencial.

Cheguei a Ouro Preto e me deparei novamente com o fato: uma das mais ricas construções dentre todas as construções das cidades históricas foi feita ao Santo Francisco. Se eu fosse devoto de teorias de conspiração, acharia que o Vaticano faz estas coisas planejadamente só pra ferrar com o santinho dos pés descalços. Sentado no banco da igreja, tirei umas fotos escondidamente (pois é proibido tirar foto de dentro), enquanto imaginava São Chico entrando em sua própria igreja, olhando as esculturas do Aleijado, as pinturas do Ataíde, aquele ouro, aquelas tumbas no chão… enlouqueceria, feito um Hamleto. Imaginei o Santo Italiano tal qual um amaneirado personagem shakespereano, tomando um crânio em mãos e perguntando num trôpego inglês: “to be, or not to be: that’s the question” E temi meus pensamentos e minhas loucuras, pois por pensar no santo louco, louco fiquei. E não é a loucura tão forte que é capaz de converter a idéia em realidade? É.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de outubro de 2010

O São Hamlet Francisco: to be or not tobe that’s the question

Diante da Igreja de São Francisco em Ouro Preto

A foto proibida que tirei do teto da Igreja de São Francisco feito pelo mestre Ataíde


Leitura do poema São Francisco de Carlos Drummond de Andrade diante da Igreja de São Francisco em Ouro Preto.


Nôla Farias narra o cenário que envolve a Igreja de São Francisco.

Politeísmo grego no mundo cristão

Pela ninfa, que jaz vertida em louro,
o grande deus Apolo não delira?
Jove, mudado em touro
e já mudado em velha não suspira?
Ama Apolo, e o fero Marte;
Ama, Alceu, o mesmo Jove:
Não é, não, a vã riqueza,
Sim beleza,
Quem os move.
“Aos negros, duros pesares
“Não resiste um peito fraco
“Se o amor o não fortalece:
“O mesmo Jove carece
“De Cupido, e mais de Baco.”

(Tomás Antônio Gonzaga, Trechos de Marília de Dirceu)

Logo que acabei de ler Marília de Dirceu, escrito por Tomás Antônio Gonzaga, subi numa mureta em Ouro Preto pra olhar a cidade e tentar reviver alguma coisa da obra. Dali de cima, vi Jesus crucificado, perdido entre montões de anjos. Vi Marias, todas elas, desde a de Cristo até a de Magdala. Vi guias turísticos, vi taxistas, vi ladrões e até me vi, em alguma janela, a espreitar a minha Marília e foi o máximo que vi. Não consegui ver Apolo com seu arco a pisotear casebres ao guerrear pela justiça. Não vi Cupido algum – embora até houvesse amores – atirando suas flechas em qualquer que atravessasse seu caminho. Não vi, pelas ladeiras de Ouro Preto, nenhum Baco a rolar embriagado. Não encontrei pela cidade nenhum deus Marte a travar guerra contra os cristãos. Tampouco vi sobre uma nuvem, o senhor Jove tronante, a punir-nos com seus raios. De livro na mão, voltei a sentar e percebi que o Barroco ali é matéria, o arcadismo é uma idéia.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de setembro de 2010