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Tanque

Texto de Ramon Ramos e ilustração de Cristiano Pessoa – PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS

lá não se aprende a pedra: lá a pedra, 
uma pedra de nascença, entranha a alma.
João Cabral de Melo Neto 

Nico fugiu da turma. Já tinha se irritado com aquela excursão, cheia de oba-oba. A professora se achava uma zoóloga, cheia de pose. Só não sabia que era zoada pelas costas. Pela frente também, nem fazia cara feia. Todo mundo queria ver mamíferos, Nico nunca entendeu essa tara por leite. Mania de leões, tigres, elefantes. Então, se escondeu atrás de um muro e deixou a galera ir. Quando levantou, viu o lago que parecia vazio. Mas não era. Teve de apertar os olhos e notar, como quem procura palito no agulheiro, quais bichos estavam ali. Jacarés. Difícil encontrar, nem se mexem. São uns preguiçosos sedentários. A maioria deve ter problema cardíaco, pensou Nico. Ser personal trainer de jacaré deve ser pior que tirar leite de pedra. Se bem que eles são meio pedregosos, casco duro, alma de ferro. Jacarés são místicos, pensava Nico. Uma cara de passado, época de dinossauros. E ainda ficam aqui, sendo atuais. Devem ter feito trato com o Demo. Pela imortalidade. Por isso não envelhecem: armaduram-se de pedra. Uma gritaria perto da barraca de sorvete anuncia: “garoto se perde de excursão”. E agora? Nico não quer se encontrado. É tão difícil entender? Olhou para dentro do tanque, pulou. Acho que ninguém viu. Não teve correria, movimentos bruscos, desespero. Só paz. Nico sentia-se apossado de aceitação. Queria ficar mais leve que o mundo. Podia. Chega de ser levado pela maré! Ficou deitado, olhando em volta. De barriga para baixo, roçando o chão de terra e mato. Jacarés são bichos muito tediosos. Nico discordava: achava-os feitos de tarde. Tarde mineira, tarde de interior puxando o “r”. Tarde depois do almoço, barriga cheia e lombeira tomando conta do corpo sobre a rede. Tardinha de temperatura amena, com brisa leve espalhando o canto das cigarras. Trem bão ser jacaré! Será que todos são do interior? Enfim, Nico deixou essas questões de lado. Estava sentindo um frio. Estranho isso. Saiu da sombra e o corpo ficou quente. Frio. Quente. Quente. Frio. Parecia jogo de vivo ou morto. Nunca fui feito de termômetro, troço esquisito. Viu então o jacaré de boca aberta. À espera. Quando surge um passarinho de blush e pernas finas a lhe palitar os dentes. Nico quase riu. É um passalito! – enquanto segurava o riso. Será que o jacaré deixa a sua mulher usar fio dental? Acho que não. Vai que ela vira piriguete, mocreia, crocodelícia? Se resolver dançar funk, então, será expulsa da comunidade! Danada! Mas não pareciam se irritar os jacarés. Sentia serenidade vindo daquele chão, tranquilíssimo até que dormiu. Braços feito travesseiro, deitado atrás de um tronco. Nico não vestia cinza. Nem camisa verde. Agora, sonhava. No sonho, via de fora. Plateia assistindo ao show, ao filme, aos movimentos prévios passarem aos poucos. Era a sua vida. Sua história. Pai, mãe, vó, irmãos, amigos e tudo o mais. Brincadeiras e tristezas lado a lado, misturadas no bolo fecal do passado. Ia largando pra trás. Nico não foi feito pra isso, pra vida comum. Custa aceitar? Agora, ele se vê por si mesmo, na última despedida, sem choro nem irritação. Tinha um sorriso meio estranho, meio torto. Ninguém entendia. Nico os segurava na lembrança: pipa contra ventania. Dava linha para não arrebentar. Até que ficou distante demais. Perdeu de vista. Esqueceu e acordou. Estava pelado. Nu sobre a terra, não se mexia. Olhava de um lado para o outro, jacarés acompanhavam aquela paz. Seu coração batia de menos, sem pressa pra vida. Não sentia saudades. Pessoas raras apareciam para ver o tanque. Mas não reparavam. Nico, à espreita, gargalhava mudo, sentinela, imóvel. Não se tornou um jacaré mas estava entre os seus. Foi mais à frente. Condensou a vida e a fez mineral. Tinha a matéria rochosa dos jacarés. Não era um. Virou pedra. Nesse mundo de batidas rápidas e gritarias, me deixem ser jazz. Largou o resto, virou sólido, vida real. Nico sempre quis ser poço em vez de mar. Palavra estancada, sucinta, lacrada. Pedra. Depois de um tempo, as pessoas até reparavam nele dentro do tanque. Viam algo diferente. Sorriam com os olhos, nada diziam.

Não precisam perguntar para entender. Meu silêncio é poliglota.

Texto de Ramon Ramos
Ilustração de Cristiano Pessoa da Cruz
Rio de janeiro, 7 de março de 2011

O Jardim Botânico

por Nathy Fetim ACDC – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

A cidade do Rio de Janeiro apesar de todos os seus problemas – a maioria deles, os próprios cariocas -, foi abençoada com várias belas paisagens que para muitos, é difícil escolher qual a mais bonita. Se me perguntarem qual lugar do Rio eu gosto mais, eu respondo na hora. Pão de Açúcar? Corcovado? Praias? Não. O Jardim Botânico! Não existe lugar mais relaxante e até digamos…aconchegante, que aquele. Acho que o fato de eu ter estudado botânica na faculdade me ajudou a gostar mais de lá. Se para quem é totalmente leigo no assunto o lugar já é encantador, pra quem tem o mínimo de conhecimento que seja na área, os olhares são outros. Mas enxergamos o mesmo que todo mundo. Uma raiz enorme que atravessa os caminhos do parque de um lado a outro, uma planta que “mora” em cima de uma árvore, outras que parasitam, borboletas e pequenos insetos que podem até nos perturbar durante a caminhada, mas que muitas plantas sem eles, não seriam as mesmas. Ou até mesmo, não seriam. Tudo ali está em perfeita harmonia.

O Jardim Botânico é como um refúgio. Uma fuga para o estresse, a correria do dia-a-dia, do trabalho, das desilusões, sejam elas quais forem. A entrada com Palmeiras-Imperiais já é um convite para quem passa do lado de fora. E quanto mais você explora o espaço mais se depara com uma diversidade de espécies vegetais que não se vê em qualquer lugar, em qualquer esquina. Flora nativa, flora “trazida”, ameaçadas de extinção, em risco…diversidade que parece não ter fim.  Isso, “diversidade”. É essa a palavra que o define. O que é difícil de dizer para mim, é qual o lugar que mais me atrai dentro do Jardim Botânico. Eu sou uma apaixonada por Orquídeas, logo, minha visita ao Orquidário é certa! Acho as bromélias uma família de plantas curiosa, e com isso, posso ir ao Bromeliário e admirá-las. Gosta de plantas insetívoras? Lá você encontra uma estufa só com elas. E o que dizer do Jardim Sensorial? Uma área encantadora montada principalmente para os deficientes visuais, que podem tocar e sentir o aroma das plantas e também saber o nome das mesmas em placas também escritas em braile. É legal, não é?! E a lagoa com Vitórias-Régias? Um dos pontos mais lindos que lá existe. Não canso de ficar olhando. Bateu a fome? Lá você encontra cantinas, cafés e se quiser levar seus “quitutes” de casa, tem espaço para piquenique. É só saber aproveitar!

Interessante é saber que lá dentro, no Centro de Pesquisas, tem gente que olha por cada planta ali existente. E não é só regar e plantar sementes. É muito mais que isso. Pesquisas que incluem observação, manejo e até a parte molecular, sim…DNA. O triste é saber que se esse espaço fosse aberto, não seria tão belo, tão limpo, cuidado…preservado. Como disse no início, o carioca é o maior problema da cidade, pois não sabe cuidar do que é dele. Se todos soubessem da importância que cada folhinha e cada animal, por menor que seja, tem para vida, e se preocupassem com isso, com certeza nosso olhar para o mundo seria diferente. É um lugar que eu recomendo ir sempre. Vá ao Jardim Botânico! Leve a família, seu parceiro (a), a máquina fotográfica, um livro, seu iPod. Caminhe, sente-se, medite, relaxe! Garanto que sairá de lá muito mais leve.

O que nos resta é aproveitar e agradecer a D. João, por essa bela herança para nós deixada.

Nathy Fetim ACDC
Rio de Janeiro, 13 de janeiro de 2011

Nathy e Vinni Corrêa no Jardim Botânico

Una pareja muy romántica en el Jardín Botánico

Nathy (autora do texto) diante do chafariz do Jardim Botânico

A Natália e a paisagem de Vitórias-Régias

A Lagoa, por minha irmã

por Betona – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Quando recebi o convite para escrever sobre os lugares conhecidos do Rio de Janeiro, foram oferecidas a mim algumas das ditas maravilhas do nosso estado, como o Cristo e o Pão de Açúcar. Eu, imediatamente, disse: “Não conheço!”. E, por mais incrível que pareça, é verdade! Aliás, como lembrou bem meu amigo Vinícius, até pouco tempo atrás, antes de o Fundão entrar na minha vida, não sabia onde era, sequer, a Presidente Vargas, imagine esses tais de Cristo e de bondinho! Só mesmo pela televisão! Continuando a oferta de lugares supostamente conhecidos, veio a Lagoa: “Ah, essa eu já passei em frente!”, disse eu num tom de alívio, como se me livrasse de um fardo muito pesado de má conhecedora do Rio.

Na verdade, hoje faz exatamente um ano do dia em que passei na Lagoa pela primeira vez. Lembro que chovia um mundo inteiro e eu precisava chegar ao meu baile de formatura em São Conrado. Se pra conseguir sair de São Gonçalo já foi um sacrifício, imagine a aventura por que passei junto a minha família para chegar nesse outro Santo … um tal de Conrado, em que eu também, só pra variar, nunca tinha ido! Em meio a toda essa história, só me ficou na cabeça a Lagoa, que emendava com o asfalto e formava um grande mar; tudo bem que meio parado, mas ainda assim bem grande! Nunca que ia desconfiar ser a tão famosa Lagoa Rodrigo de Freitas. Só descobri porque perguntei ao meu tio onde estávamos e ele, por sua vez, me situou. Confesso que fiquei um pouco decepcionada, mas com o passar do tempo achei emocionante… dias depois os pedalinhos foram parar no meio da pista em que eu havia estado devido a forte chuva que parou todo o Rio de Janeiro.

Por fim, faltou só o início. Ainda que nunca tivesse ido à Lagoa, sabia que, no Natal, se montava ali uma grande árvore, a qual recebia festa de inauguração e tudo! Foi numa dessas épocas natalinas, em uma ida a um shopping em Niterói, que saiu, da boca de minha irmã, famosa por suas pérolas raras na língua portuguesa, a seguinte frase: “Olha a árvore de natal da Lagoa!”. Não me agüentei, estávamos em frente à Baía de Guanabara, como poderia, minha irmã, estar vendo a ilustre árvore? Parei, então, para analisar do que se tratava o objeto identificado por minha irmãzinha. Era uma plataforma que tinha acabado de acender suas luzes, cerca de cinco ou seis, no máximo, pois já estava anoitecendo!

Continuo sem conhecer a Lagoa intimamente, tampouco em festas natalinas, mas creio que, se eu chegar até lá em um período em que a árvore esteja montada, não vou me decepcionar, pois deve ser bem mais iluminada do que a da Baía de Guanabara!

Betona
Alcântara, 6 de março de 2011

E depois do texto, eis que a Betona voltou à Lagoa e tirou fotos pra compartilhar conosco!

A Lagoa, vista dum pedalinho

Betona e dom Felipo na Lagoa Rodrigo de Freitas

Lagoa Rodrigo de Freitas

Ipanema

por Xandinha Magalhães – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Podia estar me referindo à bela e bucólica Ipanema de Minas Gerais com seu exemplar ensino público, mas hoje escrevo sobre a Ipanema carioca, bairro perto de onde moro e por onde passo freqüentemente.

Ipanema, assim como tantos outros bairros cariocas, apresenta uma contradição entre sua paisagem e sua etimologia. O nome Tupi para “rio sem peixe”, ou “água ruim” não traduz a essência da Ipanema que consagrou a Garota de Ipanema, com seu clima de exultação ao gingado, ao dourado, à mini-saia, à malandragem e que brindou com suas praias a Bossa Nova para a composição dos cenários de suas canções. Ipanema, para quem não conhece o Rio, fica entre o fervor de Copacabana e seu tumultuado Réveillon e o Leblon, bairro das novelas globais de Manoel Carlos e suas Helenas.

Não sou a turista deslumbrada em sua primeira viagem ao Rio, mas uma amante das paisagens naturais e construídas de sua cidade. Faço sim passeios periódicos históricos e turísticos por vários cantos e encantos desta cidade, principalmente nas regiões do centro e litoral. Mas o que é Ipanema para a garota que não é de Ipanema?

Ipanema para mim é a escapada que dou da mesmice nas corridas na Lagoa. É onde desfruto de lanches em lugares exóticos e/ou chiques, com suor da caminhada ou arrumada para o teatro.  É onde encontro HQ e congêneres raros e lançamentos. É onde aproveito promoções posando que ganho bem $$.

Mas para chegar a todos esses lugares, passamos por outros tantos que me mostram um cenário deveras contraditório, assim como seu significado Tupi que se contradiz de seu atual cenário. Caminhando por Ipanema vejo trechos onde me sinto em Nova Iorque e suas lojas imensas e exclusivas, em outros, em Madureira e suas lojas populares. Mas todas suas ruas, independente do preço da etiqueta, me lembram dias de sol, verão e férias escolares.

Não conheço também, além dos dois bairros vizinhos, outro lugar em que possa me sentir mais fora de meu país. Isso porque não é preciso nenhum esforço, nem mesmo dez passos, em qualquer período do ano para ouvir mais de um idioma estrangeiro sendo falado ao seu lado. É tanta diversidade de origens e idiomas, que por vezes me pergunto se não sou eu mesma que estou em país estrangeiro…

Só me irrita passar por lugares assim quando já estou irritada. Já parou para pensar como é chato estar aborrecido em um lugar que parece que todos têm a obrigação de estar felizes? Você querendo xingar o mundo e um casal russo pára sorrindo ao seu lado para admirar o contorno do sol na pedra e seu contraste com os grandes prédio? Não dá para ficar aborrecido. O jeito é dizer “sim, eu moro aqui” e esquecer na mesma hora o que estava reclamando…

Xandinha Magalhães
Rio de Janeiro,  21 de fevereiro de 2011

Desde que a Lapa é Lapa é assim

por Emily Aparecida – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Hoje quero mandar um alô especial para aqueles que murcham de tristeza quando vêem os primeiros raios de sol tocando as calçadas da gloriosa Lapa. Essa vai pra você que viveu vidas inteiras em uma só madrugada. Aos que se entregam sem preconceitos a uma noite de puro ecletismo musical e que ficam zangados ao clarear do dia. A todos que também já tiveram seus corações partidos numa gafieira e que foram obrigados a praticar a solidão andando por aquelas ruas de arquitetura delicada sob o zumbido de gargalhadas e estalos de copos. Enfim, a todos que guardam memórias inesquecíveis desse bairro que desperta emoções, paixões e felicidade em todos que experimentam de seus ares.

A Lapa é um verdadeiro parque de diversões para os amantes da boa música. Tem de tudo: Rock, pop, samba, funk, forro, choro, sertanejo, hip hop… todos os ritmos compartilhando o mesmo espaço, o mesmo público e o melhor, tudo em harmonia. Mas se voltarmos um pouquinho no tempo veremos que nem sempre foi assim. A Lapa também já viveu períodos de escuridão. A perseguição do Estado Varguista à malandragem e à prostituição calou por alguns anos o grave dos surdos e as rodas de malandro daquele lugar. Foi assim até o final da década de 90, quando o movimento de jovens chorões assoprou a brasa da boêmia, fazendo a lapa renascer das cinzas. É, seu Nelson! Desculpe, mas terei que discordar… a Lapa que já foi ainda é¹!

“A Lapa de hoje e a Lapa de outrora”² fazem pulsar os corações de seus freqüentadores a cada madrugada. O passado e o presente sambam na mesma cadência com perfeição. “Os famosos arcos, os belos mosteiros são relíquias deste bairro” que ainda mantém vivos aqueles personagens escondidos nas letras dos sambas chorados nas esquinas da década de 40. Tenho certeza que a dama do cabaré³, que tantas vezes tirou o sono de Noel, continua a vagar por aquelas ruas. Wilson Batista e sua flor4 devem se reunir todo sábado na gafieira para dançar ao som da saudosa Orquestra


1 – Rainha da Lapa Nelson Gonçalves -– Referência ao trecho “Quando a Lapa era Lapa”

2 – Lapa em três tempos – Paulinho da Viola

3 – Dama do Cabaré – Noel Rosa

4 – Flor da Lapa – Wilson Batista

Emily Aparecida
Rio de Janeiro, 11 de fevereiro de 2011

Kota Kahuana

por Dagoberto – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Nunca sou tão Carioca como em suas areias.

Quando dividiram as linhas do mundo, porque desejou dividir o meu? Pois levanto assim sob teu sol, e quando percebo, meus pés em suas águas. Rolo por seus postos peregrino com minha barraca vermelha. Meca! Lhe trouxe um terço; me abençoas, mãe? Domingo a domingo renasço assim.

Ai que sou teu filho, Raquel! Eu, Prometeu alado, louco por Jocasta minha doce perdição. Aprendi na lentinha de seu silencio o segredo da esperteza, Têmis. Assim, sou perito no cassino da sorte, no sapato bicolor, no pão de cada dia.

E guarda sob teu vestido, segredos de avenidas, tuneis, praças! Mil estórias para cantar no tom de tuas escadas, nos teus velhos pra desviar, nos entregadores à bicicleta… ainda que nada seja tão seu quanto o mar.

E eu trôpego de ciúmes lhe encontro no sorriso de alguma em Caxias. Copacabana. E perdido entre a multidão no Centro, não é você que atravessa o sinal doutro lado? Copacabana. Na duração das integrações para Santa Cruz, eu vi Copacabana.

E nas noites sem fim da Lapa, salivo teu quadril ao meu lado quebrando. Copacabana. No baile charme em Madureira, teu copo sempre cheio. Copacabana. Na boate sem consumação ou no funk na Ladeira. Copacabana. No uniforme do motorista de ônibus, no lixo da Comlurb, nos prédios egoístas da Barra, ou velhos do Catete, eu vi Copacabana. Entre os pivetes esgueirados; você…

Tão planeta e a cidade tão lua. Se diverte em fazer todos girar sob sua gravidade, em lhes dar uma identidade universal; “brasileiros não apenas, Cariocas por gentileza, malandragem”. E já não se sabe onde é Rio, onde é mar, Brasil, Copacabana.

Ah, se soubesse da saudade que sinto minha porta bandeira! Teus postes, um colar de pérolas noturno. Princesa; não te mereço! E te invejo! Nunca das juras eu me esqueço. Santa! Guarda teus transeuntes! Senão apareceremos nus no Jornal das Oito.

Copa, até bêbada é dama de alta classe. Soberba, seu vomito ressaca de inverno. E os coqueiros, estandartes da paz, balança vaidosa, vai! Pois bonito é ver do forte o pão de açúcar que serve. E consenso em nossas bocas, no céu, o arcos Iris de gente que atravessa o mundo inteiro pra lhe venerar mais que eu.

Ainda te reencontro,

No mar de seu calçadão, Copacabana.

Dagoberto
A ilustração foi retirada daqui, pelo Dagô
Rio de Janeiro, 2 de março de 2011

Ao vivo, do Sambódromo

por Venturieta – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

– Eu avisei que ia faltar cerveja, agora já não dá pra comprar mais.

De fato, o isopor estava quase vazio. O gelo que ainda não havia derretido mantinha corajosamente uma latinha na temperatura exata para combater o verão carioca. O caso é que a pobre órfã de família numerosa – única sobrevivente de um pack de doze – era combustível insuficiente para acompanhar o último desfile na Sapucaí. Nada mais justo então do que enaltecer sua visão estratégica, provando que suas previsões haviam sido calculadas com precisão militar. Seu protesto, no entanto, terminou abafado pelo aquecimento da bateria, e o subsequente descaso da companheira. Decidido a manter a postura bélica, insistiu:

– Eu tô morrendo de sono.

Eram quase seis horas da manhã de uma terça-feira gorda, o último dia do feriado. Porque não havia nem a colher de chá de ir trabalhar só ao meio dia de quarta: oito da matina a firma queria todo mundo lá, continência e ponto batidos. A situação desanimadora: em apenas três goles a provisão etílica reduzira-se à metade, e em menos de 24 horas precisaria estar curado da ressaca para conseguir levantar-se da cama, coisa que só seria possível se o repouso do herói houvesse começado há coisa de quatro horas. Seu apelo não apenas havia sido sumariamente ignorado como foi neutralizado por um contra-ataque engenhoso: a inimiga tratou de distraí-lo.

– Já dá pra ver a comissão de frente, olha lá!

Mesmo sem querer, sentiu o entusiasmo renascer. Como último esforço para encerrar a campanha, fixou os olhos uma vez mais nas evoluções que tomavam a passarela. Abre-alas, passistas, baianas, paradinhas, destaques, velha guarda. Quando deu por si sabia o samba-enredo de cor. De olho no relógio, comemorou quando os portões da dispersão foram fechados, indicando que sua escola havia tomado a avenida por exatos oitenta e dois minutos. Nesse ano ganhariam, certeza. Daria um jeito de desertar na quarta, pra assistir a apuração – quem sabe na quadra!

– Minha coluna está me matando. Você pode dar um jeitinho nas coisas e deixar os copos na pia, por favor?  – gemeu Aurora, enquanto se espreguiçava no sofá.

Como não render-se às manhas da mulher? Resignado, pôs-se a arrumar a sala, recolher o lixo e fechar as janelas. Por fim desligou a TV e, numa marchinha, alcançou a cozinha.

Venturieta
Petrópolis, 11 de março de 2011