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Que Mário?

por Jônatas Amaral – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Se eu conheço? Lógico que conheço o Mário! Desde pequeno! Meu pai era amigo dele antes de eu nascer. Meu avô diz que o viu criança. Coroa gente fina pra caramba. Pra falar a verdade, nem tão coroa assim. O Mário tá numa idade boa, com uns 50 e blau, quase 60 – vendendo saúde. Esses dias até ouvi dizer que ele tá fora de circulação por uns tempo. É, viajou pra abastecer de ar fresco auqueles pulmões.

Benditos pulmões! Mais parecem duas bombas de ar, isso sim. Mário fala alto, sempre falou. Gesticula, ocupa espaço, como se não bastasse seu tamanho. Ô homem grande! Lá na rua, o chamávamos de maiordomundo. Ele gostava, se divertia com o apelido.

Puxa, saudade dele… Já faz um tempo que não o vejo. Tô torcendo pra ele voltar logo pra gente bater papo, falar sobre futebol. Ih, quando a gente para pra falar de futebol, o tempo voa. A grande paixão do Mário é a redonda. Já vimos muito jogo do Flamengo juntos.

Engraçado é que ele não diz pra qual time torce, fala que torce pra todos. Já ouvi dizer que é tricolor. Meu primo jura que Mário é botafoguense, mas eu tenho pra mim que é flamenguista. Não é possível, ninguém grita daquele jeito que nem a gente gritou naquele Flamengo e Cruzeiro de 2003 sem ser urubu.

Enfim, maiordomundo é o cara. Amigo de geral, conhece gente da cidade toda! Ele brinca que tem amigos ao redor do mundo inteiro e vou te falar: eu nem duvido. Com aquela simpatia, pode ser mesmo. Na última vez que conversamos, ele me disse que em 2014 vai organizar uma festa aí e vai trazer gente de todas as partes do planeta. Essa festa eu não perco.

Mário Filho, desse cara eu sou fã.

Jônatas Amaral
Rio de Janeiro, 1 de fevereiro de 2011

Boa Ação Cultural no Pão de Açúcar

por Carla Ceres – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL


Você, turista de bom gosto, que vai ao Rio de Janeiro, poderia engrandecer sua viagem com uma boa ação cultural. Que tal levar um carioca para conhecer o Pão de Açúcar? Eu já fiz isso e recomendo.

Não, não vale conhecer de longe, como todo carioca da gema conhece. Tem que fazer o passeio completo: ir à Praia Vermelha, tomar o teleférico, mais conhecido como bondinho do Pão de Açúcar, encantar-se com a paisagem desde a saída, subir a 220 metros, desembarcar no morro da Urca, filmar e fotografar tudo o que puder, tomar outro bondinho, encantar-se mais ainda, chegar ao Pão de Açúcar, com seus 396 metros de altura, e ficar fazendo hora, embriagando-se de beleza, comprando umas lembrancinhas, beliscando alguma coisa, sem vontade de descer.

Há quase um século, os bondinhos fazem esse trajeto. Já levaram milhões de passageiros. Até Albert Einstein e o Papa João Paulo II estiveram lá. Atualmente os bondinhos estão na terceira geração. Enquanto os primeiros pareciam vagões de trem e inspiravam um certo receio, os atuais, de paredes transparentes, dão segurança e conforto para 65 pessoas e fazem cada parte do percurso em três minutos. Mesmo com tanta beleza e modernidade, há milhares de cariocas que nunca estiveram no Pão de Açúcar. Pelo bem deles, devemos levá-los até lá, nem que seja sob o pretexto de acompanhar-nos.

Agora, se você tiver um grupo de amigos radicais, cariocas ou não, pode
convidá-los para escalar o Pão de Açúcar. Só não se esqueça de pedir permissão ao Guardião da Pedra, a figura de um velho de 200 metros, que, com alguma prática, se consegue ver estampada no morro.

Mais informações: http://www.bondinho.com.br/

Carla Ceres
Piracicaba, 20 de janeiro de 2011

Abaixo de Cristo

Por Vinni Corrêa – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Como é sabido por alguns conhecidos meus, a altura é um dos meus maiores medos, ainda que ao mesmo tempo eu possa ter fascínio por ela. Desde que eu me sinta seguro, é claro. E falar em altura, para mim, é como falar de algo do Rio de Janeiro, é como adorá-lo ao mesmo passo em que temo alguns aspectos dessa cidade, incluindo seus gentílicos. Quando o meu amigo Vinícius Antunes me solicitou que escrevesse algo sobre o Cristo Redentor, pensei: por que ele não pedira para falar do Monumento Cristo Terceiro Milênio, em Caxias do Sul, ou o Sagrado Coração de Jesus, estátua que se localiza na cidade de União de Vitória/PR, ou o Cristo de Pouso Alegre, ou ainda o da cidade de São José do Rio Preto, ou os diversos Cristos deste Brasil? Todos estão a uma altura bem menor. Não seria imprudente afirmar que nenhum deles está à altura do Cristo Redentor, ainda mais sobre o Corcovado.

É possível chegar ao monumento de duas formas, pegando trilhas pela Floresta da Tijuca que saem do Jardim Botânico, Parque Lage e Cosme Velho. Todas essas trilhas desembocam nos trilhos do Trem do Corcovando – exatamente, Trem do Corcovado, nunca chame de bondinho, senão o pessoal do trem pedirá que você vá a Santa Teresa -, que é a outra opção para chegar ao destino. Ainda não encarei as trilhas, mas o passeio no trenzinho é bem interessante, por que é mais confortável do que subir a pé.

No cume do morro vemos a imensa figura que simboliza o cristianismo no Brasil, sobretudo o catolicismo, pois a Mitra Arquiepiscopal do Rio de Janeiro é que detém o direito de imagem do monumento. Apesar disto, é possível ver todo tipo de religioso visitando o local, inclusive protestantes – e inclusive ateus, como eu. Numa das novas sete maravilhas do mundo, de braços abertos sobre um Rio de Janeiro babélico, o verdadeiro fascínio e temor misturados a um só tempo estão na contemplação das contradições da cidade. Abaixo de Cristo: a favela e o asfalto; a mata da floresta e o concreto dos prédios; a alegria e a tristeza de um Vasco vs Flamengo no Maracanã, ouvidas lá do alto; o pássaro e a asa-delta; a névoa e os carros. Mas quando estive lá em 2007, pude perceber o quanto o nosso Cristo é pequeno, tão pequeno mesmo diante de um homenzinho ao seu sopé, com a mesma barba, com semelhantes trapos e sandálias, e talvez de uma mesma etnia, mas que não está representada em pedra-sabão. E lá estava o homenzinho pedindo esmola a turistas, religiosos e cariocas, pedindo esmola diante daquela pequena Altíssima figura, mas por ser menor, por ser menor ainda do que todos ali, ainda que tão pequeno quanto qualquer um de nós, não é capaz de livrar ninguém de cair de lá de cima, nas trevas e nas graças do Rio de Janeiro. Mas talvez por isso, o Cristo esteja lá em cima, no alto do Corcovado, e vermos o quanto ele é pequeno, e o quanto somos ainda mais, e que deveríamos temer a nós mesmos e não a altura.

Todos sobem ao Cristo, seja a pé ou de trenzinho, mas não há quem carregue junto consigo uma cruz do tamanho do Rio de Janeiro.

Vinni Corrêa
Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2011

Vinni e o mendigo no Cristo Redentor

Abaixo de Cristo

Nos lenços amarrados

De Nôla Farias – Participação Especial

Não, não estamos em guerra. Eu sei que você não vê homens, só mulheres por toda parte. Eu sei que elas são policiais, vendedoras, varredoras, recepcionistas. Não, os homens não estão combatendo enquanto elas trabalham e cuidam dos filhos e cuidam das casas, eu tenho certeza. Onde estão os homens? Não sei, mas não estão na guerra. Talvez estejam em casa dormindo, no bar bebendo ou em qualquer lugar sem importância. Talvez eles nem estejam. Mas tenho a sensação de que não é necessário que estejam em canto algum, pois a força dessas mulheres está estampada em seu rosto e é uma força muito grande. Esta força, me parece, é capaz de sustentar nas costas, nos lenços amarrados, todo um país.

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2010

As cores da bandeira

De Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

O que leva alguém a querer abrir mão de todas as cores para ficar só com uma? Pois não consigo entender, ainda que ouça muitas explicações. A Bolívia, de fato, é um país riquíssimo e cheio de contradições, algumas delas, discretas, outras, muito evidentes.

Como o caro leitor já sabe, iniciamos nossa jornada pelo país na cidade de Santa Cruz de la Sierra, fomos a Sucre e, enfim a La Paz. Nesta jornada, uma diferença ficou muito clara entre Santa Cruz e as demais cidades: as bandeiras. Em Santa Cruz há um “nacionalismo regional” tão forte a ponto de só se ver a bandeira verde do departamento pelas ruas. Enquanto isso, não conhecemos a bandeira das outras cidades que visitamos, pois por ambas, só encontramos a Wiphala.

A Wiphala é bandeira que representa a união de todos os povos andinos. É uma bandeira oficial da Bolívia desde a década de 1950 e muito difundida pelos departamentos dos vales centrais e do altiplano boliviano, onde há grande concentração de população indígena. Esta bandeira, diferente da de Santa Cruz, não apresenta um nacionalismo regional, mas tem um caráter étnico.

Enquanto andava pelas ruas de Santa Cruz, me lembrava do filme Invictus. Confesso que não conhecia muito a história da África do Sul e, ao ver o filme aprendi algumas coisas. A bandeira da África do Sul, antes do Mandela era verde, tal qual a de Santa Cruz. A bandeira da África do Sul, depois do Mandela, passou a ser colorida, tal qual a wiphala. Aliás, este não é o único ponto em comum entre as duas histórias. Há um que me parece pior e que talvez o leitor não saiba. O termo “apartheid” foi utilizado originalmente para descrever as relações étnicas na América andina, entre o colonizador e o indígena. Espero que um dia as cores desçam a imensidão de altura da cordilheira e encham de igualdade cada cantinho deste país tão rico.

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2010

As bandeiras camba, o verde e branco de Santa Cruz de la Sierra

Wiphala, a união andina

El Soroche

De Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Tenho uma charada para você, estimado leitor: como pode a seleção boliviana em 2009 ganhar da argentina de 6×1 e, apresentando tal excelente resultado, não ter sequer se classificado para a copa de 2010???

Charada boba, resposta simples: é a altitude. O jogo se deu em La Paz, a 3.600 metros de altitude, no estádio Hernando Siles, em frente ao hotel em que fiquei hospedada. Pude experimentar um pouquinho desta desagradável sensação, o soroche. A coisa existe mesmo e mexe com aqueles que vivem ao nível do mar.

Quando cheguei a La Paz senti efeitos sutis, apenas uma dorzinha de cabeça, que apesar da pouca intensidade, me perturbou constantemente. O cansaço provocado também é bem intenso e é potencializado pelas tantas ladeiras da cidade. Tomei o polêmico chá de coca, que aqui é vendido em sachês no supermercado, tal qual o chá de camomila ou hortelã, ou tantos outros no Brasil. Sinceramente, o chá não me provocou nenhum efeito fora o prazer de bebê-lo, visto que é muito saboroso.

Posso dizer que os sintomas do mal de altitude que tive quando cheguei em La Paz não foram nada diante dos que experimentei no dia seguinte, quando visitei a cidade de Tiahuanaco, a 3.800 m. Caminhar pelo sítio arqueológico, entre tantas subidas e descidas e sob um sol muito intenso me fez sentir muito mal. Experimentei muito desânimo, cansaço e enjôo, sintomas que só foram resolvidos quando cheguei de volta ao hotel, deitei e comi.

Dizem que para amenizar estes efeitos, devemos tomar muito chá de coca, mas é impossível tomá-lo o tempo todo, por que sob as ruínas incas, não há chá sendo servido. Resta então, ter paciência, contar com a compreensão do seu companheiro de viagem e diminuir o ritmo, respeitando seu organismo. Mas não se deixe intimidar e explore, suba e conheça, o quanto agüentar, pois conhecer é bom demais.

Nôla Farias
Santa Cruz de la Sierra (iniciado), terminado: Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2010

Emanoelle tentando sobreviver ao soroche à base de chá de coca

O Sonso Cruceño

Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Era o último dia em Santa Cruz de la Sierra. Tudo que queríamos era entrar num avião para voltar para casa. O dia foi vivido sentado em um banco de praça, pois não há nada que se possa fazer nessa cidade num domingo. O tédio era tão grande, que até à missa fomos, depois de jogar o jogo dos pontinhos. Pensamos: Vamos à missa depois fazemos um lanchinho naquela lanchonete bonitinha que tem ali.

Assim foi feito, assistimos meia horinha de padre e fomos encher nossas barriguinhas. Queríamos muito experimentar as tais salteñas bolivianas, pois ainda não tivéramos a oportunidade. Entramos na tal lanchonete modernosa e tivemos que apertar um botãozinho pra chamar o garçom. Ele veio e Vinícius deu a sorte de comer a última salteña da casa. Provamos também a empanada nacional que é frita, não assada. Mas algo faltava dentro de mim. Olhei para o lado e na vitrinezinha eis que vejo uma coisa amarelinha, apetitosa, brilhando e acenando para mim, me convidando a experimentá-la. O que é aquilo? – pergunto ao garçom. É sonso, um prato típico de Santa Cruz, feito a base de aipim e queijo, é muito bom! – responde ele. Hum, eu quero! – replico.

Vi a Deus. Tivera a melhor experiência gastronômica da viagem. No momento em que comia, já pensava em chegar em casa, comprar aipim, queijo, encontrar uma receita na internet e prepará-lo para saboreá-lo novamente. Dito e feito. Cheguei de viagem na segunda, terça fui ao mercado e encontrei uma receita e, finalmente, na quarta fiz o sonso.

Modéstia a parte, meu sonso não deixou nada a desejar em relação ao cruceño, ficou muito gostoso! E é muito simples de fazer. Se você tiver ficado com água na boca, pode tentar fazer em casa, abaixo vai a receita que eu segui.

SONSO

Ingredientes:

– 1 kg de mandioca cozida com sal

– 75 g de margarina

– 1 ovo

– 250 g de queijo meia-cura ralado

– 100 ml de leite (para regar)

Jeito de fazer:

– Numa tigela, coloque 1 kg de mandioca cozida ainda quente e amasse com o auxílio de um garfo ou amassador de batata. (Obs.:É melhor não passar a mandioca no processador para não tirar o toque rústico do prato.)

– Junte 75 g de margarina, 1 ovo e e 250g de queijo meia-cura.

– Misture bem.

Para a montagem:

– Numa assadeira retangular (25 cm x 20 cm C 4cm de altura), untada com margarina, coloque a massa de mandioca e polvilhe queijo meia-cura.

– Regue com 100 ml de leite.

– Leve ao forno a 200ºC por cerca de 20 min para gratinar.

Fonte: Receitas Mais Você

É bem fácil de fazer, mas é um pouquinho trabalhoso porque tem que amassar o aipim. O que me complicou um pouquinho foi que meu amassador de batatas quebrou enquanto eu o estava usando… Por isso fica a dica, cuidado com seu amassador. Fora isso, é super fácil. Além disso, todo o trabalho é compensado pelo sabor, pode acreditar! Se você fizer, convide a gente para experimentar!

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 15 de junho de 2010

EL SONSO

A autora do texto e sua inspiração