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Aeroporto ou rodoviária?

Esta derradeira história sobre minha viagem ao interior de São Paulo, escrevo no bojo do monstro rumo a Sergipe, lugar que já está a parir casos antes mesmo que eu chegue lá.

Tenho certeza: quando cheguei de avião a Ribeirão Preto, era um aeroporto.  Porém, ao atravessar o portão de desembarque, virou uma rodoviária perdida no meio do mato. Descobri que, beirando a madrugada, o aeroporto se fecha para uma soneca. Não havia ninguém por lá, exceto um sinhô brigando com o sono. Fui ao banheiro e seu estado era rodoviário e não aeroviário: papel higiênico molhado jogado sobre a pia, chão mijado, portas quebradas. Não resisti: fotografei.  Se a foto não ficou boa, a culpa foi exclusiva do modelo. Saí dali para voltar no dia seguinte para embarcar a São José do Rio Preto. Fiquei ainda mais surpreso: Olá, boa noite : Boa noite, senhor Vinícius. Pare o texto. Respire! Isso foi o que fiz. O beltrano que recebia  as passagens sabia meu nome. Ou eu estava no aeroporto mais intimista do mundo, ou apenas eu pegaria aquele Passamedo. Perguntei onde ficava o painel para acompanhar as informações do vôo. Ele disse que não havia nenhum e que eu não me preocupasse que eles chamavam. Descobri, mais à frente, que eu fora o último a chegar (por isso sabia meu nome). A embarcar comigo estavam muitos aposentados com semblantes sonolentos. Fizeram-me sentir em um vôo à melhor idade (como agora se diz). E viajei, assim, por meia hora até São José. Posso dizer que Ribeirão possui um aeroporto mágico: de um lado é aeroporto e do outro é rodoviária.

Antunes – Voando a Aracaju – 15 de outubro de 2009 – 14:45

O belo banheiro aerorrodoviário de Ribeirão.

O belo banheiro aerorrodoviário de Ribeirão.

Quando os pilotos tomam guaraná

Não sei donde veio o mal, mas lhes afirmo que morro de medo de avião. Não há barata, sapo, lobisomem, sucuri, aumento de imposto que me assuste mais do que altura. Ressalto: abandonei a UERJ porque não suportei atravessar as passarelas de monstruosos onze andares, tampouco chego à janela do meu modesto segundo andar. Medroso, precavido, cagão, empregar-me-ás estes adjetivos conforme a intimidade e carinho que nutres por mim. Minhas experiências com o monstro alado são poucas: ainda bebê, fui a Brasília; aos onze, fui até Recife; este ano, São Paulo e, agora, estou em Ribeirão Preto. É do vôo de Ribeirão que trago a experiência mais assustadora, apenas por ser a mais recente: voei em um avião da Passaredo (só acreditei que existia esta companhia de sugestivo nome quando vi) em que, de tão pequeno, só se andava curvado dentro dele. Fui sentado em um banquinho ao modelo “Jesus me chama”, famoso em ônibus do Rio de Janeiro. A senhorinha do banco ao lado, ao fim da viagem, confessou-me: comentei com minha amiga como estava engraçada sua cara de medo (engraçada pra elas, ressalto eu). Ao pedir um suco de pêssego para a aeromoça, percebi no bojo do diminuto avião, através da porta aberta da cabine, que piloto e co-piloto, sobre o painel de controle, tomavam guaraná. Deve ser por isso que tenho medo de voar, por não tomar guaraná.

Antunes, Ribeirão Preto, 10 de setembro de 2009 – 21:38

Este é o Passaredo, chamado popularmente de Passamedo. Foto tirada ao descer do avião.

Este é o Passaredo, chamado popularmente de Passamedo. Foto tirada ao descer do avião.