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As Cabeças e a Igreja dos Negros

O senhor veja o efeito, apenas a sensação, imagine; veja a ilusão do barroco, mesmo em movimento como um rio parado; veja o jogo de luz e sombra, de cheios e vazios, de retas e curvas, de retas que se partem para continuar mais adiante, de giros e volutas, o senhor vai achando sempre uma novidade.” (DOURADO, Autran. Ópera dos Mortos)

O olho não se move, como o barroco se move.” (DOURADO, Autran. Ópera dos Mortos)

Só existe barroco porque existem os pretos e quem anda por Tiradentes pisa nas cabeças dos pretos que são as cabeças que pensaram a religião dos brancos que é também a religião dos pretos e que se movimenta pelos corações vermelhos dos pretos que põem sua fé no rosário dos brancos que é a igreja dos pretos, e a santa dos pretos, feito são Benedito, feito Nossa Senhora Aparecida, feito os quinze mistérios da igreja dos pretos, primeira de Tiradentes, que era branco, que sequer queria libertar os pretos, mas virou herói dos pretos que somos todos nós e que negamos ser porque queremos ser brancos, nada de pretos, embora só haja branco porque haja preto, senão sequer se perceberia branco e preto, pois todo antônimo precisa de seu antônimo e quem sabe um dia virarão sinônimos já que são tão necessários um ao outro, mas se queres saber a diferença, olhe as mãos, pois as mãos dos brancos são lisas e as dos pretos grossas, como são as coxas de fazer telhas, como são as cabeças de pensar a religião dos brancos e fazer o mundo dos brancos que antes de ser o mundo dos brancos era o mundo dos pretos, era a escuridão, daí que nasceu o mundo de brancos que só são brancos por causa dos pretos.

Antunes
Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2011

Cabeça de Negro, em Tiradentes, é como se chama o chão de pé-de-moleque

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (Tiradentes)

O teto da Igreja, repleto de histórias e sinais

O Santo Negro

No altar da Igreja Nossa Senhora dos Pretos

Curiosidades Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

Pés de moleque e de moças também

Ao se descer na rodoviária de Paraty, pode-se pensar: mas onde raios está a cidade histórica? Vá com calma, viajante, pois basta dar alguma meia dúzia de passos que se esbarra com umas correntes postas pelo IPHAN, a partir dali, adeus asfalto. Agora são “pés de moleque” nada doces, diga-se de passagem. Escorregadios, traiçoeiros, fatais para alguns. Quando cai a chuva, parece que estamos diante daquela antiga olimpíada do imortal Faustão, chamada Pedra Maldita! Aí, revivemos os pesadelos infantis e os sonhos frustrados porque fomos meros espectadores daquelas brincadeiras de domingo à tarde.  Enfrentei cada maliciosa pedrinha carregando uma mala pesada de autoria de minha mulher: secador, chapinha, sapato, sapato, sapato… e todas estas coisas com as quais elas se apovoam pra nós. A única alternativa era a charrete, mas é muito caro o valor que se paga para assistir a evacuação dos cavalinhos. Resolvi ir a saltar de pedra em pedra, mala num ombro, esposa noutro, tal um valente homem capaz de habitar a remota Paraty. Vi tropeçar e cair, por ali, vários casais apaixonados, senhoras distintas, turistas avermelhados, vi escorregar pés de moleque e de moças também. Em Paraty, o ar é fraterno, pois nos irmanamos vítimas de um mesmo algoz: o pé de moleque!

Antunes
Rio de Janeiro, 25 de agosto de 2010

Pés de moleque nada doces

Pés que já foram de moleque sobre os pés de moleque

Quando cai a chuva, parece que estamos diante daquela antiga olimpíada do imortal Faustão, chamada Pedra Maldita!

Vídeo: Emanoelle Farias filma e narra o chão de pé de moleque.

Paraty: uma Terra do Nunca

São ruas de pedra que remetem àquelas cantadas pelas mães à hora de dormir. São ruas de pedra que não são de brilhante, mas são de pé-de-moleque. São doces ruas, difíceis de caminhar que nos levam aos tropeços a visitar igrejas, a passear por praças, a cochilar em pousadas, a ladear carroças, a comprar artesanatos e doces: comer pé-de-moleque ao andar sobre pé-de-moleque.

Uma canção antiga saída d’alguma garganta espanhola é replicada pelo gramofone de dona Maria Rameck, sai pelas janelas azuis e guia os passantes pelas ruas de pedra, água e fogo da histórica Paraty.

Nas andanças matutinas, vêem-se os pássaros imortais que estão ali desde a fundação da cidade, vêem-se cães e gatos irmanados neste éden urbano. À beira mar, o vento de mãos macias está sempre disposto a acariciar a pele das moças e a saudar os românticos que recitam poemas roubados de algum poeta inglês.

Nos passeios noturnos estão os fantasmas dos piratas que outrora assustavam por ali. Agora, mortos, são amigos das crianças e quando juntos desejam um irônico “vida longa” ao brindar com canecos de vinho e garrafas de rum e repetem piadas insólitas aprendidas com seus papagaios.

Por toda a antiga cidade há rumores que se confundem com as músicas, não se sabe se é o marulho ou as infinitas vozes de senhoras que rezam seguindo as infinitas procissões. Toda Paraty tem uma reverência de igreja, uma graça cenográfica, um mistério maçônico, uma felicidade infantil e um luto de viúva.

E estar na cidade é desfrutar de uma alienação meritosa, de um anacronismo feliz, é despregar-se do tempo dentro do próprio tempo. Mas ao cruzar as correntes do IPHAN, finda-se a viagem pela Terra do Nunca fluminense. Fica a Cidade, vão-se as pessoas: ontem chegaram e partiram valentes navegantes, hoje chegam e partem distintos turistas. Quem chegará amanhã?

Antunes
Publicado no jornal Jacarepaguá Em Destaque, julho de 2010.

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