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O que escondem os rotos

Se fossem quaisquer pedintes, provavelmente a multidão os tornaria invisíveis como tem o dom de fazer. Mas não são. Parecem uma rede localizada estrategicamente no centro da cidade de Santa Cruz de la Sierra, responsável por arrecadar moedas.

O que os favorece é sua aparência incomum. São pontos de referência social. Personagens românticos como que saídos da pena de Victor Hugo, ainda mais por habitarem as cercanias da Catedral.

A indiazinha anã: localiza-se à saída direita da Catedral diante da Bodeguita. Pede moedas de 50 centavos, pois as de 1 boliviano são maiores que ela. É de feiúra encantadora capaz de converter-se em beleza, o que faz com que os pedestres se sensibilizem e lhe atirem moedas como atiram milho aos pombos.

O mendigo perneta: confunde-se às imagens da catedral. Ao seguir os quadros da via crucis, se esbarra com ele, como um cristo que caiu das molduras. Seus olhos de cão são ímãs para moedas, suas mãos são cofres.

O aleijado da bicicleta: um senhor imóvel que se locomove sobre uma geringonça que lembra uma bicicleta. Chama atenção tanto pelo fantástico de seu aparelho como pelo exagero de seu bigode. Anda dentre os pães do mercado a ver se lhe sobram os trocos.

Dizem, entretanto, que quando cai a noite, a indiazinha anã abre o ziper que está sobre a sua pele e de dentro de si sai uma loira de sotaque yankee, seios fartos e um metro e oitenta de altura. Dizem, também, que o mendigo perneta se levanta e retira a pele que esconde por baixo um engravatado norte-americano de poucas palavras e muitas ações. Dizem, ainda, que o senhor de bigode transforma sua bicicleta num tanque de guerra e retira a máscara que esconde um coronel das forças armadas que se regozija em ostentar bandeirinhas com a sigla USA. Eles, à penumbra da noite, enquanto a população dorme, cantam New York, New York, comem no Burger King e brindam refrigerantes de cola, enfartando o coração da América Latina.

Antunes
Rio de Janeiro, 25 de maio de 2010

A indiazinha anã

O mendigo perneta

O aleijado da bicicleta

A bela arte do pedir e mendigar

Pues no es vergüenza ser pobre
y es vergüenza ser ladrón.

(HERNANDÉZ, Martín Fierro)

Vergonha é roubar e não poder carregar” (Dito popular brasileiro)

Parece seguro andar pelas ruas da Argentina, amado leitor. Não vi ninguém portando fuzil, 38, espingarda de chumbinho ou estilingue que fosse. A arma dos argentinos é a mesma de Gama contra Adamastor na epopéia camoniana: a palavra! Los hermanos não roubam, eles pedem. Afinal, pedir não é vergonha, pelo menos lá. Dizem que a moda foi lançada por Menem e rebuscada pelos Kirschner. Sendo assim, se você não quer dar uma de ultrapassado: peça! Peça Peso, peça Real, peça gorjeta, peça aperto de mão, peça beijo, peça abraço! O negócio é pedir e assumir a bancarrota!

Se você acha este hábito estranho, é porque se deixou moldar por esta sociedade totalitária. Pedir, na verdade, é costume pueril, intrínseco aos seres humanos. Voltemos no tempo: quando crianças pedimos dinheiro ao pai, brinquedo à mãe, comida à vó, cachaça ao vô, salgado na porta da cantina pro amigo, nota pra professora… e ainda conservamos hábitos na fase adulta: pedir aumento, pedir emprestado, pedir presente, pedir atenção… Somos eternos carentes e felizes apenas quando ganhamos ao pedir. Afinal, quer maior prazer que o de ganhar inteiramente de graça? Quem não vibra ao achar um dinheirim caído na calçada, nota de 50 perdida no bolso do paletó, chiclete esquecido na mochila?

A Argentina é um país tão prafrentão que seus mendigos não são como os brasileiros. Há, em Buenos Aires, uma elite social e intelectual mendiga e pedinte. Andando pelas ruas, pode-se ser abordado por velhinhas com cara de cheirosas vovós que pedem “um rrreal, por fabor”; por adolescentes de discman que pedem uns trocadinhos; por atarefados mendigos de paletó que falam ao celular. No auge do gozo estético-intelectual, é possível acompanhar debates de calorosos mendigos racionalistas que discutem na praça sobre a razão pura ou com adoçante e a epistemologia do nada em si. Mas, não ache que isto é o fim do mundo. Se você é um tradicionalista, lá também encontrará os clássicos mendigos sujos e totalmente sem posses, ou aqueles mais caricaturais que levam guarda-chuvas e dormem abraçados a melões. Mas, esteja atento, afinal, você é elite em Buenos Aires e muito provavelmente não reparará que há mendigos e, se reparar, quiçá seja pra exclamar: Viva o Brasil, estamos melhor ao menos que os hermanos!

Antunes
Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2010

Mendigo de paletó passeia na praça

Mendigo de guarda-chuva dorme abraçado com melão

A arte de pedir