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O Décimo Terceiro Profeta

O Décimo Terceiro Profeta

1
E se os profetas não clamarem, as pedras clamarão? E quando os profetas são de pedra? O Décimo Terceiro Profeta é de carne e clama. O Décimo Terceiro Profeta não foi feito por aleijadinho, foi feito direto por Deus, e é um aleijadinho.

2
Enquanto todos os profetas estão de pé, aquele profeta de carne está jogado ao chão. Entretanto, enquanto todos os outros profetas estão em silêncio, ele clama: clama por uma mísera moeda que ninguém lhe dá, muito menos os outros profetas que são de pedra.

3
Quando o Décimo Terceiro Profeta chega bêbado ao Santuário, maldiz a Deus, joga merda nos colegas de profecia e mija nas escadas. Outro dia encontraram-no nu, querendo comer a baleia de Jonas, assada.

4
Dizem que o Profeta Amós é o autorretrato do Aleijadinho. Mas, Meu Deus!, há algum engano, então, pois o único aleijado que vejo é aquele farrapo que está ao chão. Outro dia, uma velha senhora tropeçou em sua ausência de pernas. O Décimo Terceiro Profeta esbravejou-lhe cega! Ela lhe pediu desculpas e o profeta, ironicamente, lhe deu uma moeda. Os aleijados somos nós.

5
Quando chegam as senhoras loiras, o Décimo Terceiro Profeta as insulta com os palavrões mais terríveis que ainda serão criados. Elas sequer se dão conta, pois sequer falam português. O Décimo Terceiro Profeta aprendeu, com os turistas que visitam seus colegas de profissão, algumas palavras em espanhol, francês, russo e até japonês. O Décimo Terceiro Profeta só não aprendeu nada em inglês, pois diz que é a língua do diabo.

6
Daniel passa a eternidade abraçado com um leão. Dizem que Daniel e seu leão compõem a estátua mais bonita. Imagine se todos os profetas quisessem um bichinho de estimação, o santuário deixaria de ser santuário e viraria um zoológico. O Décimo Terceiro Profeta quer passar a eternidade inteira com um pombo doente, mas ninguém vê o bichinho, pois nem dentro de sua barriga está mais não.

7
Outro dia, o Décimo Terceiro Profeta, levou uma mendiga pro Santuário todo interessado em se assanhar com ela. Entretanto, os outros doze, não paravam de lhe olhar com olhos celibatários. O Profeta, furioso, desceu de mão dada com a mendiga até uma das casinhas da via crucis e explicou pra acompanhante que aqui dentro ninguém nos perturba, pois a maioria é de romanos e o tal barbudo é amigo das putas e dos lazarentos.

8
Há, todo mundo sabe, profetas maiores e profetas menores. Mas, nem todo mundo sabe, que há o profeta mediano que fica sentado nas escadas do Santuário de Bom Jesus dos Matosinhos. O ruim de ser um profeta medíocre é que ninguém lhe repara. O bom de ser um profeta medíocre é que se pode tirar meleca em paz.

9
Um gato preto, bem no meio da noite, saltou na cabeça de Jonas. Quando enjoou, pulou pra cabeça de Baruc. Não satisfeito, pulou sobre Isaías. Depois de Isaías, o gato resolveu pular sobre o Décimo Terceiro Profeta que, nervoso, torceu seu pescoço. Com o cadáver do gatinho caído no chão, o profeta tentou ressuscitá-lo com um milagre, mas não conseguiu não.

10
É justamente o Décimo Terceiro Profeta o único dentre eles que pode entrar no Santuário. Os outros doze profetas morrem de inveja pois estão presos sempre ao mesmo lugar, submetidos às cagadas de pombo. Como a vida é sempre injusta e curiosa, o Décimo Terceiro Profeta também os inveja. Diz que preferia estar submetido às cagadas de pombo que aos sermões do pároco.

11
Desejoso, o Décimo Terceiro Profeta olhava a bunda de Oséias, nervoso com Deus. Pai, se é pecado, porque só me colocas pra viver no meio de homens? Foi até o pároco e lhe ditou uma reclamação, disse que exigia uma profeta, bem do sexo feminino, e que não precisava ser de pedra, podia ser daquelas de plástico mesmo.

12
No dia em que morrer o Décimo Terceiro Profeta, ninguém vai lhe fazer estátua alguma. Nos primeiros dias de sua morte, ainda o lembrarão, pois sentirão alívio. Dirão assim: que bom que já se foi este profeta que nos denunciava e cuspia no chão. Depois que passar um tempo, ninguém mais o lembrará e seus colegas de pedra o invejarão, porque só o Décimo Terceiro Profeta conseguirá descansar em paz ao lado de Deus.

13
Dizem que 13 é o número do azar. Deve ter sido por isso que são 12 tribos de Israel, 12 portas no muro de Jerusalém, 12 discípulos de Jesus e, claro, 12 profetas. Entretanto, sempre há um décimo terceiro. É este décimo terceiro que não entra pra história, não vira estátua, não é celebrado e sempre se ferra. Por isto devemos ser muito mais simpáticos ao décimo terceiro, ele tem mais de nós.

Antunes

Rio de Janeiro, 17 de novembro de 2010

12 - Naum

11 - Habacuc

10 - Jonas

9 - Amós

8 - Abdias

7 - Joel

6 - Oséias

5 - Daniel

4 - Ezequiel

3 - Baruc

2 - Jeremias

1 - Isaías

Guias da História

Do alto das ladeiras é possível ver o amontoado de guias turísticos diante da Igreja de São Francisco, ao lado da feirinha de pedra sabão. Vestem a camisa branca do uniforme e fazem cara de que Ouro Preto está mais dentro de mim do que fora. Há os que falam inglês, espanhol, francês e alemão. Com sorte, pode-se até achar algum que fale português. Sabem todos os detalhes minuciosos da construção dos anjinhos barrocos, sabem o significado de cada estria daquelas bundinhas de anjo. Sabem o que vestem todos os santos, as promessas de cada fiel, o que esconde cada tumba e podem precisar a época de cada elemento do rococó com incrível detalhamento de segundos. Alguns turistas, revoltados, os chamam de mentirosos. Mas a maioria delira diante das histórias que contam e tornam pra terra natal repetindo tudo para os amigos e parentes com uma arrogância de doutor e um maravilhamento de novo na fé. O que nem sempre os pios turistas sabem, é que há uma competição entre os guias turísticos locais. Certa vez um resolveu dizer que, naquele monte de anjos, um era o autorretrato de Aleijadinho; outro logo disse que não só o anjo, mas o Jesus crucificado também era um autorretrato do Aleijadinho; um terceiro foi e disse que não só havia os autorretratos do Aleijadinho como o espírito do Aleijadinho vagava por ali à noite; um mais inventor ainda garantiu que não só havia espírito do Aleijadinho como ele já tinha visto o espírito umas três vezes ou mais; ainda houve o que disse que era amigo do espírito do Aleijadinho; e, por fim, teve aquele que disse que não era espírito nada, assegurou que Aleijadinho estava de volta em carne e osso e que não era autorretrato nenhum, o Jesus na cruz era o próprio Aleijadinho sofrendo vivo pela eternidade.

Quando entrei na Igreja de São Francisco, vi um típico guia turístico com sua platéia como um auditório. Apontava pro chão e gritava em voz baixinha pra não acordar os mortos: aqui, bem aqui embaixo de onde estamos pisando, esteve enterrado Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Os turistas arredavam o pé pra sacralizar o lugar, mas o valente guia continuava: eu, exatamente eu mesmo, minha pessoa, esteve aqui na exumação do corpo.  Fui o único guia desta Ouro Preto a participar. Trouxe, inclusive uma foto para que vocês possam ver aquele momento. O guia mostrou a foto, orgulhoso e indicava com o dedo quem era o suposto ele durante aquele feito. Os turistas satisfeitos com a melhor escolha, queriam tirar fotos com o guia, até mesmo tocá-lo por ter tocado o cadáver do mestre. Iam embora pras suas casas, mas jamais esqueceriam aqueles dias em que viram a história tão viva. Passados uns cinco minutos, a igreja novamente se enchia, agora com outro guia que repetia a ladainha, mostrava foto e a história se repetia. E a igreja novamente se enchia, até que chegava a noite e se ia o dia.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de outubro de 2010

Guias caçam turistas e turistas caçam guias diante da Igreja de São Francisco em Ouro Preto

Os Carapinas do nada em Ouro Preto

Eram carapinas do mínimo e do nada, os devoradores das horas, insaciáveis Saturnos.”
(Autran Dourado, Os mínimos carapinas do nada)

Se não ficou claro nestas primeiras palavras do Autran, eu mesmo explico e depois o evoco novamente pra arrematar, caro leitor: carapinas do nada são aqueles artistas manuais que ficam horas e horas a esculpir uma matéria prima, até convertê-la em coisa que tenha valor nenhum. Dividamos a expressão: carapinas são os que talham madeira e nada é nada mesmo, essa coisa nenhuma. Novamente Autran, agora em entrevista à Folha: “São os velhos que ficavam na janela de casa, esculpindo, tirando pequenas aparas de madeira, fazendo caracóis. Procurando o nada.”

Lembrei de Ouro Preto ao ler o texto e ao ler Ouro Preto lembrei do texto. Afinal, o que é a arte Barroca (e a maioria das outras também) senão montão de nada trabalhado por tempos e tempos? Que raio de utilidade tem um anjinho com bunda de fora? Quanto vale os olhares duma santa? E as barbas dum santo que nem sei o nome, têm valor?

Dois carapinas do nada, graças a esse montão de coisa nenhuma, ficaram famosos e entraram pra história, que é esse monte de nada também: Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho) e Manuel da Costa Ataíde (o mestre Ataíde). Posso, inclusive, baseado na obra de Autran, encaixá-los na terceira categoria de carapinas:

E agora se apresenta a pura, a sublime, a extraordinária terceira categoria. Só aos seus membros, peripatética academia, se podia aplicar estes qualificativos: divinos e luminosos, aristocráticos artífices do absurdo. Eram como poetas puros, narradores perfeitos, cepilhando e polindo as vazias estruturas do nada.”   (Autran Dourado, Os mínimos carapinas do nada)

Por Ouro Preto é fácil achar todas as categorias de carapinas: os que inventaram anjos, pintam igrejas, esculpem pedras sabão, fazem artesanato qualquer ao ponto de uma colher deixar de ser um item útil e se tornar um item de beleza. E é com essas obras que são nada que se enfeitam as igrejas. Deve Deus gostar bastante do nada. E não foi Deus que fez o homem, esse montão de coisa alguma, não seria ele então um grande carapina do nada? Está entendido.

Antunes
Rio de Janeiro, 23 de setembro de 2010

No meio do nada

Aleijadinho, um carapina do nada

Quando a pedra sabão vira monte de nada, feira de pedra sabão diante da igreja de São José