Arquivo da tag: Poesia

Duas cidadezinhas quaisquer

“Êta vida besta, meu Deus.”
(Carlos Drummond de Andrade, Cidadezinha Qualquer)

Não fosse Drummond e o ferro, Itabira continuaria sendo a mesma cidadezinha qualquer. Na verdade, sejamos realistas, mais pelo ferro do que por Drummond. No taxi, inda em Belo Horizonte, exclamei cheio de ares poéticos ao motorista: “Itabira, terra do Drummond!” e o sujeito me indagou “de quem?”,” Drummond, o poeta…”, “Ah…” Na própria Itabira, perguntei: “Onde fica o memorial do Drummond?”, “O quê?”, “A estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade.”, “Ah, fica por ali.” Eu deveria estar com feições bem patéticas, rumo à Itabira drummondiana parecia que eu iria conhecer a Paris de Baudelaire. Quando cheguei lá, percebi que a relação não era exatamente a mesma. Aquela vidinha besta, as ladeiras reticentes, a igrejinha sozinha, a vagarosidade dos habitantes… esta é uma Itabira, a dos caminhos que celebram Drummond e que quer ser a cidadezinha ficcional. Há outra, a imensa Itabira de ferro, a rápida Itabira global, a Itabira dos livros de geografia e não dos livros de poesia. Foi por estas Itabiras que caminhei e, ao olhá-las, tive a certeza do quão genial foi Drummond.

Antunes
Rio de Janeiro, 4 de janeiro de 2011

Itabira vista de cima

Uma pracinha qualquer...

Igrejinha

O mercado da cidade

A cidade que cresce, filha do ferro

A Itabira que vai pro mundo: A mina de ferro

Cidade do adeus

É que arrisco a prosa mesmo com balas atravessando os fonemas.
(Paulo Lins, Cidade de Deus)

Eu voltava da igreja com a minha esposa, caminhando pela estrada Miguel Salazar Mendes de Moraes, a principal da Cidade de Deus, quando avistei um livro caído na calçada. Já o tinha: era a Antologia Poética do Carlos Drummond de Andrade. Lamentei que alguém o tivesse perdido. Abri-o para ver se por dentro constava nome, telefone, endereço, ou alguma informação relevante para encontrar dono ou dona. Na primeira página estava escrito de esferográfica azul: Gênesis Silva do Rosário, Travessa Tabor, 7Cidade de Deus. Como eu não conhecia, por ali, nada além da rua em que estava e como o lugar conserva a fama de perigoso, resolvi levar o livro comigo.

Em casa, estava curioso pela antologia que já lera. Deitado no sofá, resolvi folhear algumas páginas e ler alguns versos em voz alta: “Perdi o bonde e a esperança. / Volto pálido pra casa.” e “No caminho onde pisou um deus / há tanto tempo que o tempo não lembra.” Minha surpresa se deu, quando às margens, ao lado de alguns versos do Drummond, encontrei versos escritos com letras trêmulas e frágeis provavelmente de autoria da dona do livro. Cito os que li e nunca mais esqueci: “Ao lado de minha casa / há uma planta dormideira / todo sábado a acaricio / pra acordar na segunda-feira.” Eram riminhas singelas e pueris. Fiquei impressionado com a escrita de Gênesis, pois mesmo sendo moradora da Cidade de Deus, nenhuma de suas linhas expressava violência, medo, vingança. Pensei: esta menina é como a flor drummondiana, furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Digo menina, pois pelo nome e pela letra já imaginava quem era Gênesis: garota de 17 anos como minha irmã, só que com cabelos enrolados e óculos fundo de garrafa como os da estátua do Drummond. Compadecido de sua perda e curioso por conhecê-la fisicamente, tive total certeza: devolverei o livro, não me importa o trabalho que dê.

No domingo que seguiu o achado, conversei com uma amiga minha, freqüentadora da igreja e também moradora da Cidade de Deus. Expliquei-lhe a situação e disse que muito queria lhe devolver o livro pessoalmente. Ela se dispôs a levar-me ao local e me tranqüilizou dizendo que a Travessa Tabor era de fácil acesso. Por volta do meio-dia, pegamos um ônibus que nos deixou na Miguel Salazar e entramos a pé na Travessa Maressa. Confesso que estive bastante assustado e só lembrava das cenas protagonizadas pelo Zé Pequeno. O ápice do estranhamento foi quando passei por uma tal Praça do Apocalipse, minha amiga me tranqüilizou explicando que a maior parte dos nomes das praças possuía uma indiscriminada referência bíblica, afinal, estávamos na Cidade de Deus. Rapidinho e com toda tranqüilidade chegamos à Travessa Tabor, casa 7. Bati palmas à porta da casinha simples. De dentro, saiu uma moça gorda e morena. Disse-lhe de imediato: vim devolver o livro e exibi o achado. Ela tomou a antologia de minhas mãos, a abraçou e começou a chorar. Feliz, pensei comigo mesmo: que bom que o devolvi, deve ser um livro de estimação, vide o pranto. Porém, a moça gorda me explicou entre lágrimas: era da minha filha, ela foi assassinada voltando da escola e trazia este livro na mão.

Antunes
Rio de Janeiro, 9 de abril de 2010

Camino al Caminito

Caminito é parte da história de Buenos Aires. Está lá, antes mesmo de suas cores berrantes. É lindo, dizem. Mas, mire de perto: é como uma favela, com seus tijolos e telhas de zinco. É a beleza atingida pela feiúra, ou a feiúra convertida pelo exagero da cor. Pelas ruas de artes elevadas pelas baixezas, há turista mesclado à dançarina de tango, gaucho mesclados a pintor-vendedor. Há regalitos, comiditas, musiquitas, bailitos… Acomode-se sobre a poesia sob a telha de zinco, ouça o tango de la guitarra, arrisque um corte da parrillada, siga camino al Caminito.

Antunes

Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 2010

El gran gaucho y nosotros en el Caminito

 

 

 

Tienda del Caminito

Los colores del Caminito

Con Perón y Evita en el Caminito

Sobre la poesía

Parrilla en el Caminito

Los bailadores

En el Tango

Encontro

Drummond levantou-se da calçada de Copacabaca, largou seu banco, recompôs seus óculos e foi. Deixou o Rio pra trás, a rir com sua boca de pedra no meio do caminho do seu rosto. Encontrou Pedro Nava, pelas ruas de BH, pertinho da prefeitura, ao vê-lo, este, o gorducho, lhe falou:

Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.

Neste exato momento fotografei: estavam os dois ali, num momento único, vivinhos de pedra,  juro.

Antunes
Rio de Janeiro, 6 de dezembro de 2009

Drummond, solitário, em Copacabana no Rio de Janeiro

Drummond e Nava se encontram nas ruas