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Toffolo: um hotel ficcional

Tudo se come, tudo se comunica,
tudo, no coração, é ceia
.”
(Drummond, Hotel Toffolo)

Tudo no coração é ceia e imagino, ao redor deste banquete-coração, poetas como Drummond, Bandeira, Vinícius de Moraes e Oswald de Andrade. Era assim no hotel Toffolo. Hoje em dia, passamos diante dele e vemos senhores petiscando e cervejando. Não fosse a placa que está à parede, sequer imaginaríamos que ali estiveram aqueles senhores tão cheios de letras que tornavam o feijão e o arroz secundário à mesa. Não fosse nossa ignorância, até hoje veríamos senhores como aqueles, mas não conseguimos saber quem são aqueles velhos barrigudos que hoje sentam ao Toffolo, pois já não são famosos os poetas, são famosos apenas os atores das novelas – que bom pra eles. Fui ao Hotel Toffolo, tomei o cardápio e vi quão caro os versos de Drummond deixaram qualquer cerveja. Não tivesse escrito, eu poderia lá sentar. Não tivesse escrito, eu não quereria lá sentar. Não fiquei, fui às ruas buscar lugar mais barato, pois o Toffolo já pertence mais à ficção do que à realidade.


Leitura do poema Hotel Toffolo in loco

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de outubro de 2010

Encontro

Drummond levantou-se da calçada de Copacabaca, largou seu banco, recompôs seus óculos e foi. Deixou o Rio pra trás, a rir com sua boca de pedra no meio do caminho do seu rosto. Encontrou Pedro Nava, pelas ruas de BH, pertinho da prefeitura, ao vê-lo, este, o gorducho, lhe falou:

Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.

Neste exato momento fotografei: estavam os dois ali, num momento único, vivinhos de pedra,  juro.

Antunes
Rio de Janeiro, 6 de dezembro de 2009

Drummond, solitário, em Copacabana no Rio de Janeiro

Drummond e Nava se encontram nas ruas

O melhor das Minas Gerais

Fui à aula. Os primeiros minutos são sempre para se apresentar e conhecer os alunos. Estava a ouvi-los e muito me surpreendia a quantidade deles que gostava de leitura, uns recitaram poemas, outros diziam escrever poemas. Feitas as apresentações, comentei:

– Estou surpreso, porque nunca tive uma turma com tantos inveterados leitores.
– Que bom, professor. Isso é uma característica do mineiro.
– É mesmo? – perguntei.
– É. Aqui nós não temos praia, então ficamos muito tempo lendo, estudando. Por isso que Minas Gerais tem muita coisa boa, muitos intelectuais, muita cultura.
Pensei com meus botões e concordei com ele.
– É verdade, aqui é terra do Drumond, do Guimarães Rosa, da Adélia Prado…
– Viu, professor. Nós também formamos muitos presidentes ao longo da história – disse, satisfeito o aluno.
– Tá certo. Mas, vocês se esqueceram de dizer algo que Minas Gerais produziu, muito melhor que os poetas e que os presidentes.
– O que professor? – disse um dos alunos arregalando os olhos, curioso.
E eu lhe respondi:
– A Scheila Carvalho.

Antunes
Belo Horizonte, 13 de novembro de 2009