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A Catedral e os pombos

Nem o padre, nem o bispo, nem a mais virgem beata, nem Deus. Naquela hora da manhã só eu e os pombos na catedral cinza qual a manhã.

Sentei-me num degrau sujo de joelhos e pecados para ver as torres góticas a furar as nuvens pesadas, fazendo pingar as primeiras gotas pós-quaresma, suor de Cristo, choro de Deus, mijo dos anjos ou apenas a tradicional faxina que Pedro dá no céu. Meus óculos são batizados pela chuva e pela merda dos pombos. Aprecio a fé destas aves sujas e doentes de cidade, fé que as faz voar. Os pombos são nossos semelhantes, irmanados pela fumaça, pelo lixo, pelo nojo que produzem.

Fiquei ali jogado, devotando em São Francisco, fazendo de Fortaleza minha contemporânea Assis. Os pombos se aninharam em mim, arrulhando-me impropérios. Disse-lhes “bom dia, irmãos.” E desta vez cagaram-me todo. Sorri feliz, pois assim irmanei-me à catedral de Fortaleza, senti-me gigante ao ponto de tocar o céu. Eu, a Catedral, Deus, o Mundo, todos irmanados pela merda dos pombos.

Antunes
Fortaleza, 27 de maio de 2011

A Catedral cinza e o dia se acinzenta

As portas da Catedral

A Catedral e eu

A Catedral dos pombos

Catedral, morada dos pombos

O chão bosteado de pombos

Interior da Catedral de Fortaleza

O interior da Catedral de Fortaleza

As meninas-pássaro

São duas meninas-pássaro, irmãs ícaro, que se chamam Paloma, assim igual. Trabalham e brincam de vender comida de pombo pras senhoras e pros senhores, pros namorados e pras crianças que passam a tarde a vadiar na Praça 25 de Maio no centro de Sucre.  Vão de banco em banco, num vôo rasante, nuns saltos curtos, a ciscar umas moedas, a pedir algo de atenção, a vender punhados de alpiste para o bando de pombinhos comer. Seu trabalho é muito nobre, pois alimentam a barriga dos pombos de alpiste e a criançada de alegria. Andam com uma roupinha suja, com os olhos pesados de remela, com sorriso de vendedora. Não aprenderam, nem aprenderão, a falar na língua das gentes, só sabem falar a língua do arrulho. Se empoleiram nos monumentos da praça e dormem ali, encolhidas, cheias de pulgas e carrapatos, cobertas de cocô de pombo. Quando despertam comem do alpiste e aguardam o dia em que também voarão livres aos céus.

Antunes
Rio de Janeiro, 6 de julho de 2010

Duas meninas-pássaro, irmãs ícaro, que se chamam Paloma, assim igual.

Vão de banco em banco, num vôo rasante, nuns saltos curtos, a ciscar umas moedas, a pedir algo de atenção, a vender punhados de alpiste para o bando de pombinhos comer.

Uma catedral perdida no tempo

São tijolinhos, uns sobre os outros, que se equilibram e se encaixam, feito Lego, e vão até o céu. Todos eles, uns sobre os outros, ficam na praça 24 de Septiembre no Centro de Santa Cruz de la Sierra, compondo a Catedral de São Francisco. Quando chega domingo, a igreja lota, vão as mães com seus filhos pedir a Deus (quem sabe a Pacha) o dinheirinho pro de comer, pedir saúde, pedir futuro. Ouvem um padre, um espanhol, com sotaque de quem sabe muito do exterior. Depois da missa, se sentam na praça, comem lanches de procedência qualquer. As crianças imitam pombos e com eles brincam de voar. E assim segue, toda semana, Santa Cruz, insistindo em ser uma cidade pequena de qualquer lugar do passado.

Antunes
Rio de Janeiro, 20 de maio de 2010

A Catedral de Santa Cruz de la Sierra

Às portas da Catedral de Santa Cruz

Um casal de turistas

A cruz da lateral da Catedral

Catedral de Santa Cruz por dentro

O cristo de saia da Catedral

Mirante da catedral

A praça vista do mirante da Catedral

A Catedral de Santa Cruz vista de longe