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Respaldado à Estação

Nôla,

E se entrelaçássemos as mãos? São tantos os casais respaldados às muretas que dão para a Praça da Estação. Já não há Sol, nem Lua, só nuvens disformes.  Não posso comentar que o dia está lindo, nem que a Lua brilha, tampouco sobre os desenhos que as nuvens deveriam fazer, mas não fazem, estão incomunicáveis. Só há silêncio nesse segundo. Eu despedaçaria aquele relógio elevado aos céus para ascender a ti. Aí, sim, o mundo seria mais belo, contigo no centro de tudo. As pessoas não correriam ao ver o tempo passar, andariam devagar pra ver a ti. Observo uma paisagem de prédios, daqui há mais arte de homens que de Deus. Aperta firme a minha mão, Nôla, pois o trem está passando e não quero que te leve. Confesso-te: a única certeza que tenho é que choverá, inclusive, engano-me no tempo do verbo: chove. Já sinto as gotas. Temos que ir, Nôla. Temos que deixar de olhar o horizonte. Vamos. Vou-me. Mas, afinal, por que estou a falar contigo se estás tão longe?

Antunes
Rio de Janeiro, 16 de novembro de 2009

Vista da Praça da Estação em fim de tarde nublado

Libertas quae sera tamem

Logo que cheguei ao aeroporto de Minas Gerais, deparei-me com um bochechudo Tancredo Neves e embaixo a frase: Liberdade é o outro nome de Minas. Com manias de turista nipônico, fui andar no Mercado Municipal, a tirar fotos e a comprar regalos inúteis. Não resisti a uma camisa com a bandeira do Estado que contém a frase do título: libertas quae será tamem. Consultando o mapa com os pontos turísticos que eu havia separado, percebi que um dos principais deles era uma tal Praça da Liberdade. Liberdade, liberdade, liberdade… vi que essa é uma marca da qual o mineiro se orgulha. Podemos andar livres pelo Centro de Cidade, sem qualquer ameaça, sentimo-nos seguros, suas praças transmitem uma sensação de liberdade, ao ponto de lembrar-me um ditado medieval: “o ar da cidade cheira a liberdade”.  Durante a tarde, a igreja de São José está lotada, os parques lotados, as praças lotadas. Terá o homem se libertado do trabalho? Andando na hora do almoço pelo Parque Municipal, vi casais que se beijavam apaixonadamente entre mendigos. O parapeito da Praça da Estação é repleto de casais que se beijam: vi menina de quinze beijar homem de trinta e homem barbudo beijar homem bigodudo na boca, sob a luz do Sol. Minas, teu outro nome é liberdade! Então pra que tanta polícia montada?

Antunes, 13 e 14 de novembro de 2009 – Belo Horizonte e Rio de Janeiro

Casal entre mendigos no Parque Municipal
Um apaixonado casal sob a copa da árvore entre mendigos

A Polícia Montada desmontada

A Polícia Montada desmontada


O fofinho Tancredo Neves do Aeroporto

Um pássaro morto no Museu das Artes e Ofícios. Casual metáfora?