Arquivo da tag: Praça XV

A Feira de Trocas

Peguei esta estória antiga na feira de trocas, se ao leitor não couber, troque-a por outra:

Seu José Pedro chegou às 4 da manhã na Praça XV, as barracas estavam de pé antes do sol. Ia o velho, levando no colo uma boneca de pano feita pela esposa há 10 anos, coisa rara e bem feita, sem valor nenhum financeiro, mas lotada de cifrões afetivos. Na primeira barraca que lhe interessou viu um lustre bonito que serviria para alumbrar todo quarto, quis trocar a boneca por ele, mas o vendedor lhe perguntou de que serviria aquela porcaria. Andou mais um pouco resfriado pelo sereno da madrugada e viu uma jaqueta feita de couro e teias de aranha. Disse ao moço das roupas que a trocasse pela boneca, mas este lhe disse que era cedo para piadas. Andou até parar pela terceira vez, ao avistar um canivete inglês, e o vendedor lhe disse que não lhe interessavam joguetes. Quando já estava a desistir, avistou uma caixa de ferramentas seminova numa tenda dum homem de barbas brancas. Zé Pedro envergonhado lhe ofereceu a boneca e, na mesma hora, o homem barbudo aceitou. Os amigos encarnaram ao feirante que se desfizera dos utensílios para tomar um brinquedo pra si. De noite, com as ferramentas, Zé Pedro dava novo jeito à sua casa, num raro momento de alegria e, Marcelinha, a filhinha do homem barbudo, tinha a noite mais feliz de sua vida, ao dormir abraçadinha com a nova boneca que um dia havia sido da filha de Zé Pedro que morrera de tuberculose.

Antunes / Ilustração: Rogerio Tadeu
Rio de Janeiro, 6 de abril de 2010

Feira da Praça XV: terror e nostalgia

Por Nôla Farias – participação especial

Confesso que não é o programa que mais me instiga. Topei ir mediante duas exigências: (1) antes, passarmos no Saara pra comprar bugigangas e, (2) depois, irmos aos centros culturais ver o que está acontecendo. Aceitas às reivindicações, fui.

A primeira vista é assustadora, pessoas aglomeradas em torno de barracas, no calor muito quente do centro do Rio de Janeiro, respirando o ar asfixiante que exala dos carros e da baía, acrescido ainda da fatal poeira das velharias. Mas tenho que admitir, há algo de instigante naquele lugar. No meio de tantas coisas assustadoras, como bisturis enferrujados e incubadoras quebradas, ou vitrolas e máquinas fotográficas muito velhas (é importante diferenciar velho de antigo, rs ), me deparei comigo, ou uma parte de mim. Nostalgia.

Nostalgia é a palavra certa pra descrever o sentimento de estar diante daqueles brinquedos, pois lá há uma grande quantidade de barracas que os abrigam: velhos, antigos, quebrados, encardidos ou, raras exceções, muito bem conservados. Não fazia diferença para mim, tudo que eu queria fazer diante deles, eu fazia: rememorar. Vi pequenos filmes, desses que se põem no You Tube, só que na minha memória, e fui feliz. Saí do Centro, fui pro Parque Aeroporto em Macaé, fui pra Campo Grande, passei por muitos lugares dos subúrbios do Rio, onde nomadiei durante minha infância, mas todo esse belo sonho chegou ao fim quando vi um brinquedo: um Topo Gigio encardido, de uns 15 centímetros, no máximo, sendo vendido por 300 reais. Voltei aos 24 anos e fui embora, asfixiada.

Nôla Farias

Rio de Janeiro, 17 de abril de 2010