Arquivo da tag: Preconceito

Ourilândia – A Cidade Ridícula

Calma, inteligente leitor. Não ache que o título é um preconceito de minha parte. Na verdade, quero o sentido original da palavra ridículo: aquele que provoca o riso. Falo isso não por mim, mas pelo que me mostraram os outros. Toda vez que falei de Ourilândia marquei um encontro com o riso, com o dente alheio.

As galhofas começaram ainda no Rio.

– Vou pra Ourilândia!

– Pra onde?

– Ouri-lândia!

– Urilândia? Haha. Deve ter muito mijo nessa cidade.

É, leitor. A primeira piada foi assim: Ourilândia apareceu-me como a Dinsney da urina. Viria a segunda, irmanada à terceira:

– Vou pra Ourilândia.

– Pra onde?

– Ouri-lândia!

– Haha. Gurilândia, deve ter muitos guris por lá.

– É? – dizia eu de riso torto.

– Pensando bem, acho que não. Deve ter é muito gorila, fica no meio da Amazôna. Haha. Gorilândia!

É, leitor. Este pobre escrevedor foi vítima até de humoristas que não sabem que não existem gorilas na Amazônia. Logo pensei: este maldito etnocentrismo do Rio de Janeiro acabará em breve, quando eu chegar a Ourilândia, o Eldorado tupiniquim! Liguei pro Pará para me informar:

– Oi, eu gostaria de uma informação sobre Ourilândia…

– Sobre onde?

– Ouri-lândia!

E depois, só ouvi os risos abafados da telefonista.

Quando encontrei o meu guia da floresta e motorista, o piauiense, seu Luiz Gonzaga, também ouvi piadinha:

– É, barão, sabe que Ourilândia cresceu, né?

– É?

– É, já está alcançando o Rio.

– É?

– É, o Rio Verde que fica aqui do lado de Gogó da Onça. Hahaha.

Inconformado, esperei chegar à cidade e, diante de minha turma repleta de alunos moradores de Ourilândia, enchi a boca e pronunciei com o peito estufado de orgulho: Bom, gente, vamos começar nosso curso de formação de multiplicadores de Ourilândia do Norte. Mas, quando acabei de pronunciar a palavra, todos trocaram olhares, morderam os lábios e não conseguindo esconder, riram. Riram a mais sonora gargalhada que ouvi nos últimos anos. HahahaHHAhahahahHahahahaha! Também me senti ridículo, ridículo como Ourilândia. Sentei. Esperei que acabassem e, enquanto isso, ri. Ri de mim e de Ourilândia, ri um riso amarelo para esta cidade ridícula.

Antunes

Ourilândia (hahahahahahahha), 23 de março de 2010

Piadinha Pebana-Canaense

Já falei, em algum lugar, que Parauapebas e Canaã dos Carajás têm mais maranhenses que Paraenses (não é uma hipérbole). Isso se deve à linha férrea que liga Parauapebas a São Luís. Brincam, ou talvez seja verdade, que quem quer fugir de São Luís por delito, foge para Parauapebas de trem. Numa aula, um aluno contou pro grupo uma piadinha regional com pitadinhas de preconceito. Transcrevo:

Estavam num avião o Mineiro, o Gaúcho, o Baiano, o Maranhense e o Paraense. No auge do vôo o piloto anuncia: “senhores passageiros, estamos com problemas sérios no avião, precisamos eliminar peso. Joguem pela janela o que possuírem de menos necessário”. O Mineiro pensou: “estou indo de volta pra minha casinha, o que mais tem lá é queijo, vou jogar esse monte de queijo que tá aqui comigo”. Após dizer isso, o Mineiro jogou os queijos pela janela. O Gaúcho, ouvindo o Mineiro pensou: “bá, posso jogar meu chimarrão, lá no Sul eu consigo outro com facilidade”. O Baiano seguindo o exemplo dos outros, resolveu jogar todos os seus aparatos pra oferenda, tamanha a facilidade que teria pra conseguir de novo quando de volta à Bahia. O Maranhense, cheio de camarões e Guaraná Jesus, pensou consigo: “isto eu consigo fácil no Maranhão, vou jogar tudo pela janela pra salvar nossas vidas”. Então, chegou a vez do Paraense que na mesma hora não teve dúvida: “vou jogar esse babaca desse maranhense que tá cheio dessa porcaria lá no Pará”.

Antunes
Rio de Janeiro, 4 de novembro de 2009