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O Profeta de Mucuripe

Fortaleza estava vazia como nós. Era páscoa e o profeta havia ressuscitado louco. Falava palavras sem sentido como a vida. Na cidade grande, ninguém ouve ninguém e todo profeta  contemporâneo bem-sucedido tem que ter um lado cibernético. O louco à minha frente era apenas um Antônio Conselheiro entre o cimento, um Padim Ciço com calça jeans e cheiro de fumaça. Um teísta que crê além-Mamom. Milagreiro que faz a conversão da água em mijo. O sertão não vai virar mar e o mar jamais virará sertão! Prega para o mar, mas o mar não ouve. Prega para a areia, mas a areia não ouve. Prega para as árvores, mas as árvores não ouvem. Prega para as pessoas, mas as pessoas não ouvem. Ouvir é um ato exclusivamente humano. Areia, árvores, pessoas não ouvem. Só o profeta é humano, por isso ele fala: pra se escutar, pra salvar sua alma em plena orla de Mucuripe.

– Que se salve. Segui meu caminho aguardando meu inferno.

Antunes
Fortaleza, 26 de maio de 2011

O mendigo 3 do mural 45

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia
(Manoel de Barros, Matéria de Poesia)

Há um tempo, os murais do Gentileza não valiam de porcaria nenhuma. Não que agora valham, mas pelo menos têm certo reconhecimento de alguns ditos intelectuais, estudiosos, artistas e até da classe política. Há um tempo, chegaram a ser censurados, cobertos, atacados, hoje em dia já há quem lhes dê o status de cultura. Os murais do Gentileza, hoje, já são mais importantes que gente. Pergunte pra qualquer carioca convicto: o que há debaixo do Viaduto do Caju? E lhe responderá: os murais do Gentileza. Ninguém dirá: há mendigos, e, olhe, é o que mais há.

Uma família desabrigada: Mendigo 1, Mendigo 2, Mendigo 3 e Mendigo 4 – afinal, pra gente mendigo nunca tem nome – se abriga bem em frente ao mural 45, que diz: “PENSEM DEUS PAI GENTILEZA CRIADORRR A NATUREZA DA TUDO DE GRAÇA JESUS NOS CONDUZ CAMINHO DE DEUS DISSE GENTILEZA”. Ali estão também seus poucos pertences e sua ausência de dignidade. Pela manhã, quando acordam com os raios de sol que driblam o viaduto, fazem bochecho, enrolam os trapos e começam a petição de moedas. Aprenderam que não se deve mijar em casa e vão até o pé do mural mais próximo cumprir a necessidade matinal.

Neste dia, Mendigo 3, um mendiguinho de uns 12 anos, acordou apertado pra cacete. Logo abriu os olhos, saiu com pressa, tentando correr e cruzar as pernas ao mesmo tempo. Chegou ao mural, arriou a calça e irrigou o asfalto. Vinha vindo uma senhora distinta em seu carro importado e foi freando ao lado do moleque: ô, garoto! Não tem vergonha de mijar aí, não? Não sabe que isso é uma obra de arte? E o moleque lhe respondeu: Dona, é justamente porque eu mijo em cima que isso é uma obra de arte!

Antunes
Rio de Janeiro, 8 de abril de 2010

O Profeta Louco

por Rogerio – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

De profeta e de louco, Gentileza tinha um pouco. Louco que falava de paz e de amorrr. Profeta que andava na rua vestido de louco. Quem deste mundo, senão um louco, falaria de paz e de amorrr com tanta persistência? Quem neste mundo, senão um profeta, escreveria em pedras seus mandamentos? Palavras de gentileza em verde e amarelo. Desejo insano de harmonia, botando medo do capeta, entregando ao demo o capital maldito que emporcalha a natureza humana. Quem, senão um louco, se diria um profeta? Quem, senão um profeta, ficaria louco com tanta iniquidade?

Rogerio
Rio de Janeiro, 1 de maio de 2010

Como é possível, Gentileza?

Loucura não causa a infelicidade do homem, porquanto ela é inerente ao próprio homem.” (Erasmo, Elogio da Loucura)

Os murais do Gentileza são a marca da sensatez que há na loucura. Entre suas frases desconexas, seu conteúdo religioso, suas transgressões ortográficas há uma crítica social profunda que nos faz ver o quanto estamos doentes, pois somos mais desatentos que um louco e não reparamos às lições de amor e paz – parece que somente os loucos entendem tais conceitos. Assisti algumas vezes ao curta intitulado Gentileza¹, da última vez que o vi, estava com minha esposa, meu pai e minha irmã. Algum deles indagou como o idoso Gentileza conseguia fazer suas pinturas em locais altos como passarelas. Eu, que passo todos os dias pelos murais a caminho do trabalho, nunca tinha me feito tal questão. Sou a gentil metáfora da sociedade impregnada de cotidiano e cada vez mais sem o prazer do espanto.

Antunes
Rio de Janeiro, 30 de abril de 2010

1 – O curta Gentileza está Disponível no site Porta Curtas – http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=4955

Para ver todos os murais do Gentileza acesse o Museu Virtual Gentileza através do link: http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=4955