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Pés de moleque e de moças também

Ao se descer na rodoviária de Paraty, pode-se pensar: mas onde raios está a cidade histórica? Vá com calma, viajante, pois basta dar alguma meia dúzia de passos que se esbarra com umas correntes postas pelo IPHAN, a partir dali, adeus asfalto. Agora são “pés de moleque” nada doces, diga-se de passagem. Escorregadios, traiçoeiros, fatais para alguns. Quando cai a chuva, parece que estamos diante daquela antiga olimpíada do imortal Faustão, chamada Pedra Maldita! Aí, revivemos os pesadelos infantis e os sonhos frustrados porque fomos meros espectadores daquelas brincadeiras de domingo à tarde.  Enfrentei cada maliciosa pedrinha carregando uma mala pesada de autoria de minha mulher: secador, chapinha, sapato, sapato, sapato… e todas estas coisas com as quais elas se apovoam pra nós. A única alternativa era a charrete, mas é muito caro o valor que se paga para assistir a evacuação dos cavalinhos. Resolvi ir a saltar de pedra em pedra, mala num ombro, esposa noutro, tal um valente homem capaz de habitar a remota Paraty. Vi tropeçar e cair, por ali, vários casais apaixonados, senhoras distintas, turistas avermelhados, vi escorregar pés de moleque e de moças também. Em Paraty, o ar é fraterno, pois nos irmanamos vítimas de um mesmo algoz: o pé de moleque!

Antunes
Rio de Janeiro, 25 de agosto de 2010

Pés de moleque nada doces

Pés que já foram de moleque sobre os pés de moleque

Quando cai a chuva, parece que estamos diante daquela antiga olimpíada do imortal Faustão, chamada Pedra Maldita!

Vídeo: Emanoelle Farias filma e narra o chão de pé de moleque.

Superstições, coincidências e transtornos obsessivos compulsivos ao avião 2 (Vitória)¹

Como prometido, cito novamente:

Logo refletiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões; com lógica perversa inferiu que prever um detalhe circunstancial é impedir que este aconteça.” (BORGES – meu autor favorito neste segundo – no conto Milagre Secreto).

O maior gênio vivo do Brasil chama-se Oscar Niemeyer e não anda de avião. O maior idiota vivo do Brasil sou eu que ando quase todo dia.

A lógica autoajudista-circunstancialista-mercadológica diz diferente do escritor argentino. O famoso livro O Segredo explica: força da atração. Ou seja, tudo que você pensa vai até você. Borges – neste texto – nega: se você pensa, está errado, pois não é possível prever.

Sendo assim, fica o grande dilema para qualquer pessoa portadora de transtornos obsessivos compulsivos e cagaços de uma forma generalizada: ou eu penso que o avião vai cair e ele realmente cairá, pois é a força da atração; ou eu penso que o avião vai cair e ele não cairá, pois sou incapaz de prever (força da repulsão – este nome é por minha conta e não do Borges).

Por enquanto ganha a teoria do conto Milagre Secreto, visto que é impossível que um medroso pense algo muito diferente de tragédias. Ou seja, a repulsão predomina no mundo.

DICA: Ao jogar na Mega Sena pense: jamais ganharei. Assim, você estará seguindo um princípio lógico diferente de todos os tolos que jogam pensando que vão ganhar e sempre perdem. É a força da repulsão.

O mais difícil desta lógica terrena e extraterrena é ter que pensar em todas as possibilidades justamente para que elas não aconteçam. Aí, urge citar novamente o mestre Borges:

“O senhor replicará que a realidade não tem a menor obrigação de ser interessante. Eu lhe replicarei que a realidade pode prescindir dessa obrigação, mas não as hipóteses.” (A morte e a bússola)

O grande tormento da vez foi eu ter “trocado” de vôo com minha cara amiga de trabalho Xande Magalhães. Imagine se a morte estivesse reservada a ela e não a mim e eu, simplesmente, tomei sua grande oportunidade de chegar ao outro mundo.

Somado a isto, há a grande quantidade de frases que parecem querer comunicar que chegou a sua hora. Placa no aeroporto: “O Rio de Janeiro sentirá sua falta”. Fala do amigo: “Ah, então você não vem mais, né?”. E nas despedidas: “Então você já está partindo…” Viajar e morrer proporcionam muitas falas similares, é saber interpretá-las que vai justamente evitá-las. Ainda mais quando se viaja para um lugar de nome tão sugestivo: “Vai para o Espírito Santo?”

O grande desafio reside no avião. Chega a hora de colocar as teorias à prova. Um problema: caso falhe, não será possível relatar aqui, acho.

1 – A primeira parte de Superstições, coincidências e transtornos obsessivos compulsivos está relacionada a Belo Horizonte, clique aqui.

Antunes
Vitória, 14 de dezembro de 2009

Superstições, coincidências e transtornos obsessivos compulsivos ao avião (BH)

Começo citando, pois este texto não sobreviveria sem isto:

Logo refletiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões; com lógica perversa inferiu que prever um detalhe circunstancial é impedir que este aconteça.” (BORGES – meu autor favorito neste segundo – no conto Milagre Secreto).

Lembrei-me desta fala de Borges em dois textos, neste que você lê agora e no próximo que publicarei aqui e começarei exatamente da mesma maneira. Este se deve ao número do vôo em que eu embarquei: 1747, repito por extenso: mil setecentos e quarenta e sete, ou, como habitual, um sete quatro sete. Logo, pensei: ferrou! O número é trágico, não me soou bem, trouxe-me memórias estranhas. Então, seguindo a lógica de Borges, previ: CAIRÁ! Pensei isto exatamente para que não caísse, pois como todas as previsões são falsas, o Universo, Deus, o Destino, me contrariariam e manteriam o avião no ar.

Vinham à cabeça combinações exóticas como as que a Rede Globo faz para que todos os números relacionados ao Zagalo dêem treze. Por exemplo: vôo 1747. 7+7=14-1=13+4=17-4(quantidade de algarismos presentes no número do vôo)=13. Ou seja, o resultado final das contas são sempre manipulados para acabarem num número macabro. Macabro no meu ponto de vista, pois não é a mesma coisa para o PT e para o Zagalo (a Globo nunca perguntou pro Zagalo em que número ele vota, o PT bem que poderia usá-lo como “”””garoto”””” propaganda).

Agora, explico os dois principais fatores que me assustavam além-13:

1747 possui como três primeiros números os mesmos do ônibus que foi seqüestrado no Rio de Janeiro em 12 de janeiro de 2000 e resultou em morte.

1747 é um número que nos remete imediatamente ao avião da Air France que caiu neste ano: 474.

Por fim, digo que minhas previsões foram muito úteis e que Borges estava certo, justamente por ser óbvio que cairia, o avião não caiu. 1747 continua sendo um vôo noturno que vai de BH ao Rio e que me trouxe de volta, tranqüilo…

Antunes
Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 2009.