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Caminhos de São João Del Rei

É agradável caminhar pelas ruas de São João Del Rei. Teria caminhado mais tempo e mais vagarosamente, se eu tivesse tido mais tempo e se a vida também caminhasse mais vagarosamente.

A cidade se dividiu em duas em minha memória: de um lado, a metade que me hospedou; do outro, a metade que visitava pelas manhãs e tardes. São umas pontezinhas muito simpáticas que unem um lado ao outro.  É possível andar um dia inteiro por São João Del Rei sem se cansar. Deve-se aprender a dar um passo mineiro, tranqüilo e sábio, pausando nas esquinas para tomar uma água, ou uma cachacinha, comer um pão de queijo, comprar um queijão mineiro pra família que espera no Rio de Janeiro. O bom de São João Del Rei é ir parando em cada igreja que se revela pelo caminho, passar pela fonte, ir até a Estação de Trem e descansar à porta do Solar dos Neves. E depois ir embora – pra Tiradentes, São Paulo, Rio de Janeiro, o que lhe pareça mais natural – pois se até os Neves a abandonaram, por mais que eu goste, por que eu ficaria?

Antunes
Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 2010

As pontes de São João Del Rei unem minhas duas metades da cidade

As ruas históricas de São João Del Rei

Entre os sobrados, pode-se topar com igrejas

Todas as ruas levam a um bocado de história

O Solar dos Neves - os Neves são uma espécie de Magalhães ou Sarneys mineiros

Nestas ruazinhas pode-se comer à vontade por cerca de 8 Reais

A cruz está em todos os lugares del rei

Igreja e quartel no lado mais recente de São João Del Rei

A fonte de São João

E lugar para se comprar queijo pra casa

A maior e mais verdadeira obra de arte de Ouro Preto

É lixo o que fez o Aleijadinho. Ataíde não passa de um discípulo de quinta. O verdadeiro mestre de Ouro Preto não sei quem é, mas é ele quem reverencio. Fica atrás de uma grossa parede, talvez também seja aleijado e talvez também se chame Ataíde, mas sua obra é muito maior. Sua obra não fica exposta em museu algum, muito menos em igreja, talvez sua obra seja, na verdade, o maior dos pecados – não me cabe agora julgar. Tal arte fica à cozinha e também às prateleiras do Cantinho do Pão de Queijo, bem no Centro de Ouro Preto. Pois não adianta dizer-me da Igreja de São Francisco, nem da Casa dos Contos ou do Museu dos Inconfidentes: o que mata a fome do homem é a arte da culinária. Nunca comi pão de queijo igual. Faço críticas veementes à prefeitura de Ouro Preto por não divulgar este pão de queijo como patrimônio cultural. Se não bastasse ser servido puro, há como aprimorar a perfeição: o pão de queijo pode ser servido recheado e, recomendo, recheado de queijo minas. Mas, não é qualquer queijo minas, não é aquele monte de farinha com água que estamos acostumados a comer no Rio de Janeiro e em São Paulo, é queijo de verdade. Não há combinação de artes, não há Aleijadinho e mestre Ataíde somados, há apenas o pão de queijo recheado com queijo minas e confesso que voltarei a Ouro Preto e desprezarei todo aquele lixo barroco, virarei o rosto para a montoeira de anjos, ignorarei Tiradentes, seus cúmplices e seu traidor, voltarei a Ouro Preto apenas para comer pão de queijo e apreciar esta arte de raiz tão mineira.

Antunes
Rio de Janeiro, 7 de outubro de 2010

Aleijadinho não faria desses

É possível aprimorar o que já é perfeito? Queijo e linguiça.

A maravilhosa fábrica de pães de queijo

Parauagrécia – o presente

Pelo fato de ligar para marcar taxi pra outras pessoas, mantive certo contato com O Guia da Floresta seu Luiz Gonzaga, pai do também motorista Nelson Nedi. Ademais do contato pelo telefone, trocamos cordialidades, inclusive presentes. Regalei-o um porta-retratos com foto sua que tirei e, em troca, mandou-me um pesado isopor que recebi pelas mãos de minha amiga de trabalho, Xandinha Magalhães. No ápice da curiosidade e entre os astutos olhares dos colegas de trabalho, resolvi abrir aquele sarcófago para ver que mistérios guardava. Vi um monte de sacos plásticos enrolados e não era possível compreender mais nada. Foi quando gigantescas formigas amazônicas saltaram do isopor como gregos saltaram do Cavalo de Tróia. Fechei o presente enquanto era tempo e pisoteei algumas formigas que se aventuravam pelo carpete. Com o isopor bem fechado, cheguei em casa e criei uma estratégia de guerra baseada em Sun Tzu, pus luvas, enfiei o isopor dentro do tanque, abri. Formigas estavam ansiosas para saltar dali, fugiam com perspicácia e dominavam diversas artes marciais. Apressado, desenrolei as sacolas plásticas: encontrei doce de bacuri, polpa de cupuaçu, queijo, castanhas descascadas e castanhas com casca e terra – daqui vinham as formigas. Fervi água no microondas, retirei tudo que tinha no isopor – menos as castanhas com casca e terra e tasquei aquele fervor dos infernos nas bichas. Elas agonizaram e não desistiram, algumas tentaram ataques suicidas. O combate durou uma interminável noite. Desta vez, quem venceu foi Tróia!

Antunes
11 de fevereiro de 2010

O Isopor no tanque

Deixando só as castanhas com terra no Isopor

Só as castanhas no Isopor

Vitória obtida, mesa posta

Carta à mãe: minas de queijo

Mãe,

Pousei cá em Minas Gerais. Me enganaram, mãe. Eu achava que Minas era que nem a Lua: feita de queijo, mas né não. Ainda nem vi queijo aqui. Tá certo que não andei muito, mas mesmo assim. Logo que cheguei, baixei no chão e bati com a mão, tentando arrancar um pedaço. Era asfalto, mãe. Era asfalto que nem no Rio de Janeiro. Que ilusão, as ruas aqui não são feitas de queijo. Outra coisa, mãe. O pessoal aqui não anda com matinho no canto da boca, nem de camisa xadrez. O pessoal é moderninho que só.  Até funk eles ouve aqui, virgi santa mãe, que pecado. Eu achei que fosse encontrar o Chico Bento, separei na minha mala só roupa xadrez e vim com a gula de queijo. Me dei mal, mãe. Minas Gerais é uma mentira. Só tem uma coisa, só uma coisa, mãezinha, que é verdade e tá salvando minha viagem, só um dos folclore é a mais pura verdade: mãe, como mineiro fala UAI!

Beijo do teu filho sedento de queijo
Antunes
Belo Horizonte, 13 de novembro de 2009