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O LAGARTO QUE SORRI

Há vantagens, claro. Quem dera fosse por elas que o lagarto sorrisse. Conseguimos um albergue para hospedar-nos por cem mangos e que fica a menos de dez minutos a pé do Centro de Ouro Preto. Muita felicidade, leitor, pois o segundo lugar mais barato para se ficar custava praticamente o dobro. Anote aí a dica se quer pagar barato: Albergue Sorriso do Lagarto. Entretanto, ao chegarmos, começaram as problemáticas da esmola em demasia: uma bagunça. O quarto em que nos depositaram parecia vitimado por um furacão: umas cinco camas beliches reviradas, colchões jogados, lençóis desarrumados… e, no meio delas, uma cama de casal pra mim e pra senhora minha esposa. Claro que, ficamos nós apenas, as camas de beliche eram tão-somente decoração e por sorte não inventaram de hospedar ninguém ali conosco. O banheiro é daqueles que se pode tomar banho sentado sobre o vaso sanitário, boxe é alto luxo. Foi assim, leitor, que descobri porque o lagarto sorri. Sorri debochadamente da nossa cara, sorri com o cantinho da boca, sorri porque é um sacana. Maldito lagarto que sorri!

Antunes
Belo Horizonte, 17 de setembro de 2010

Nosso debochado amiguinho...

E no nosso quarto, passara um furacão?

Era por isto que o maldito sorria?

Ourilândia – A Cidade Ridícula

Calma, inteligente leitor. Não ache que o título é um preconceito de minha parte. Na verdade, quero o sentido original da palavra ridículo: aquele que provoca o riso. Falo isso não por mim, mas pelo que me mostraram os outros. Toda vez que falei de Ourilândia marquei um encontro com o riso, com o dente alheio.

As galhofas começaram ainda no Rio.

– Vou pra Ourilândia!

– Pra onde?

– Ouri-lândia!

– Urilândia? Haha. Deve ter muito mijo nessa cidade.

É, leitor. A primeira piada foi assim: Ourilândia apareceu-me como a Dinsney da urina. Viria a segunda, irmanada à terceira:

– Vou pra Ourilândia.

– Pra onde?

– Ouri-lândia!

– Haha. Gurilândia, deve ter muitos guris por lá.

– É? – dizia eu de riso torto.

– Pensando bem, acho que não. Deve ter é muito gorila, fica no meio da Amazôna. Haha. Gorilândia!

É, leitor. Este pobre escrevedor foi vítima até de humoristas que não sabem que não existem gorilas na Amazônia. Logo pensei: este maldito etnocentrismo do Rio de Janeiro acabará em breve, quando eu chegar a Ourilândia, o Eldorado tupiniquim! Liguei pro Pará para me informar:

– Oi, eu gostaria de uma informação sobre Ourilândia…

– Sobre onde?

– Ouri-lândia!

E depois, só ouvi os risos abafados da telefonista.

Quando encontrei o meu guia da floresta e motorista, o piauiense, seu Luiz Gonzaga, também ouvi piadinha:

– É, barão, sabe que Ourilândia cresceu, né?

– É?

– É, já está alcançando o Rio.

– É?

– É, o Rio Verde que fica aqui do lado de Gogó da Onça. Hahaha.

Inconformado, esperei chegar à cidade e, diante de minha turma repleta de alunos moradores de Ourilândia, enchi a boca e pronunciei com o peito estufado de orgulho: Bom, gente, vamos começar nosso curso de formação de multiplicadores de Ourilândia do Norte. Mas, quando acabei de pronunciar a palavra, todos trocaram olhares, morderam os lábios e não conseguindo esconder, riram. Riram a mais sonora gargalhada que ouvi nos últimos anos. HahahaHHAhahahahHahahahaha! Também me senti ridículo, ridículo como Ourilândia. Sentei. Esperei que acabassem e, enquanto isso, ri. Ri de mim e de Ourilândia, ri um riso amarelo para esta cidade ridícula.

Antunes

Ourilândia (hahahahahahahha), 23 de março de 2010