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O Profeta Louco

por Rogerio – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

De profeta e de louco, Gentileza tinha um pouco. Louco que falava de paz e de amorrr. Profeta que andava na rua vestido de louco. Quem deste mundo, senão um louco, falaria de paz e de amorrr com tanta persistência? Quem neste mundo, senão um profeta, escreveria em pedras seus mandamentos? Palavras de gentileza em verde e amarelo. Desejo insano de harmonia, botando medo do capeta, entregando ao demo o capital maldito que emporcalha a natureza humana. Quem, senão um louco, se diria um profeta? Quem, senão um profeta, ficaria louco com tanta iniquidade?

Rogerio
Rio de Janeiro, 1 de maio de 2010

“Onde as estrelas menten.”

Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo.” (Lima Barreto, Elogio da Morte)

A inscrição está no aqueduto da Colônia Juliano Moreira: “onde as estrelas menten.” Pichação, poesia ou somente uma frase sem significado e com erro ortográfico? Conheci seu autor, chama-se Epimênides da Rocha e diz-se filho de Lima Barreto com uma enfermeira, logo, o próprio Lima Barreto, pois para ele, pai e filho são a mesma coisa vide os impérios antigos e a Santíssima Trindade.  Para quem não sabe, o escritor Lima Barreto foi dado como louco e passou parte da sua vida, ou de sua morte, na Colônia em Jacarepaguá.

Os moradores do lugar atribuem loucura a Epimênides, dizem ser apenas um interno cheio de invenções sem sentido algum. O cotidiano deste velho louco é preenchido por músicas que canta diante da igreja, rabiscos que faz nas paredes das casas antigas e passeios sob o aqueduto. Segundo ele, não há mais loucos ali, pois sua missão foi curar a todos. “Antes haviam lunáticos, agora só olhamos pra terra, deixamos o mundo da lua.” Diante do aqueduto, tive o prazer de perguntar a Epimênides o porquê de sua curiosa frase. Respondeu-me:  “As estrelas mentem porque são um falso espelho, refletem sempre beleza. Mas, na verdade, o que há aqui não é belo: é dor, é feiúra. O que há aqui é aflição, gritos de tortura de muitos que têm seus espíritos ainda em sofrimento. Por isso as estrelas mentem, pois sobre a Colônia elas deveriam ser feias e tristes.”  Depois que me respondeu, ele levantou-se e saiu a rodopiar, livre. Fiquei em dúvida de quem era o louco e quem era o são.

Antunes
18 de abril de 2010

Inscrição de Epimênides no Aqueduto da Colônia Juliano Moreira

Rio do janeiro

A piada, aprendi no berço: inda pequeno meu pai dizia, se a fralda teimava em baixar da cintura: tá com o janeiro de fora, garoto. Na fase das interrogações lhe perguntei: janeiro?, explicou-me fácil: é o comecinho do anus!

Na estória que conto, o protagonista não tem nome. A bem da verdade, até tem, mas não lhe posso revelar pois, por ser amigo próximo, pediu-me que guardasse segredo. Imagine-o João, Pedro, Daniel, talvez, um nome russo: Gorbatchev. Lhe darei dois dados: antes tinha uma imensa barriga e não tem mais, antes tinha peitos enormes e os operou. Se acertas, ganhas um doce, mas não será isso que adoçará a narrativa.

A Central do Brasil às 18 parece ser o ponto de encontro de todos os trabalhadores do Rio de Janeiro. Ali, vão os das biroscas, das farmácias, dos escritórios, das ruas. Vai também o protagonista desta estória: um gordo desajeitado, ou, se o leitor é de eufemismos, um cheinho simpático. Vão todos juntos, ladeados, o protagonista e os coadjuvantes, parece que a disputar o mesmo último espaço no vagão do trem. A corrida até o vagão é desrespeitosa, cruel, inumana. Cada qual faz uso das armas que tem: as senhoras, das bolsas; as moças, das unhas; os cavalheiros, dos guarda-chuvas; os senhores, das bengalas. Ao protagonista, por conta de seu sobrepeso, sempre subestimado e humilhado, cabe suportar a união de bolsas, unhas, guarda-chuvas e bengalas, além de ter que ouvir todas as reclamações por ser o último dos últimos a entrar no vagão e por espremer ainda mais o que já está espremido.

Neste dia de longo azar – após o protagonista encontrar um lugar para seu braço direito sobre o ombro direito do velhinho, para sua perna direita entre as saias da senhora, para o braço esquerdo sobre a cabeça do anão, para a perna esquerda entre dois senhores de terno, seu corpo entre dezenas de corpos e sua cabeça com o nariz pra cima buscando ar – noticiou o maquinista da geringonça: esta composição não realizará serviços por problemas técnicos. Por favor, dirijam-se à composição na linha 8H.

Passo a este parágrafo, pois de desordem já basta o que aconteceu naquele momento do anúncio. Todos resolveram descer do trem quase ao mesmo tempo, porém os de trás antes dos da frente e o protagonista foi atropelado pela manada humana. Se pensas que todos resolveram usar os métodos recomendados para a transferência de composição, te digo que nunca deves ter ido à Central do Brasil. Os passageiros foram saltando de um trilho a outro, atirando-se na vala com cerca de metro e meio que os protegeria de possíveis atravessamentos. O gordinho, estarrecido, arregalou os olhos e ficou com aquelas dúvidas de um segundo que parecem levar eternidades: pulo ou não pulo? faço o caminho do povo ou o caminho correto? Nos segundos seguintes, atrás dos malandros que saltaram, foram os senhores, as senhoras, as crianças, até os mais idosos e deficientes. Pensou o gordinho: lá vou eu. Tomou distância, saltou na vala dos trilhos do trem, riu-se por ter se saído bem até ali. Porém, quando foi subir de volta para plataforma, encalhou. Ficou ali, de bunda pro ar e suas calças desceram, exibindo o comecinho do anus. Os outros passageiros e eu, que estávamos ali apenas para observar, rimos, rimos daquele janeiro.

Antunes,
Rio de Janeiro, 7 de abril de 2010

No vídeo acima, exemplo do que o nosso protagonista tentou fazer.

Rose: genérica, alternativa, pirata

Mal começavam a berrar os alto-falantes do Saara e Rosecleide já se aventurava sob o sol. Tinha por hábito começar as compras de sábado pelas lojas com vista pro Campo de Santana e acabava batendo perna pelo Camelódromo da Uruguaiana. As lojas de panos eram caminho certo, as de bijuterias também. Era impossível não comprar uns calçados e as bolsas, tê-las era lei. Sabia escolher o que era bom e o que ficava bem. Sexta-feira ia sempre ao shopping, olhava as lojas de grife pra, no sábado, comprar os produtos genéricos, alternativos, piratas (chame como quiser), na Rua da Alfândega. E acertava, quando não, comprava coisa ainda melhor. Porém, ultimamente, Rosecleide andava com um amor maior, na verdade uma paixão, talvez um vício: era o swarovski!Ela dizia que a culpa era da maldita voz que gritava por todas as ruas: swarooooovski! swarooooovski! Acabou fazendo-lhe lavagem cerebral e obrigando-a a consumir loucamente. Quando batia a hora do almoço, resistia à tentação de entrar no Cedro do Líbano e torrar o dinheiro que economizara num arroz com lentilha e kafta. Optava por parar numa barraquinha ao lado da Biblioteca Estadual e comer uma esfiha de carne cheia de cebola, acompanhada de guaraná natural. A parte da tarde reservava pro camelódromo e esbanjava nos produtos eletrônicos. Sua última grande aquisição fora um celular, cópia perfeita do da loja, só que made in China. De tarde voltava pra casa, no Méier, no máximo 30 minutos do Centro, tomava um banho caprichado e se cobria com as imitações de perfumes franceses que abusavam na quantidade de fixador. Quando chegava à noite, despencava pra casa do seu paquera lá no Leblon. Ele, ao vê-la e cheirá-la, subia pelas paredes, lhe abraçava no sofá e dava a perguntar: Como é que você consegue ficar tão linda assim, Rose? A moça, toda vaidosa respondia: Vem tudo de Paris, Carlos! É tudo coisa boa, coisa importada!

Antunes
Rio de Janeiro, 15 de abril de 2010

O milagre do Fred Astaire do sertão

Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré etc.”
(Machado de Assis, Dom Casmurro)

Raimundinho Dó Ré é figura marcada em São Cristóvão. Sujeito dançante. Vive se requebrando pela Quinta da Boa Vista, pelo Largo da Cancela, por São Januário e, principalmente, pela Feira dos Paraíbas. Os seguranças já o conhecem. Entra pela saída, de graça, não precisa deixar a moedinha de um Real. E justificam: “este é amigo do Luiz Gonzaga.” E se alguém resolve argumentar que o Luiz Gonzaga já morreu, eles explicam: “Você não entendeu, ele é amigo da estátua do Luiz Gonzaga. Ficam ali no maior papo.” Raimundinho vai pelos corredores da Feira, cumprimentando a Deus e ao mundo, dando bom dia ainda que de noite, dando boa noite ainda que de dia e todo mundo retribui. Passa na barraca dos doces e cata um quebra-queixo pra chupar na boca banguela. Pelo caminho, cata pedacinhos de carne-de-sol no prato alheio, dá golada num Guaraná Jesus, troca passos com as moças, com as senhoras, com uma brisa besta qualquer. Até que chega diante do palco.

Alguns cantores e algumas bandas já conhecem o cabra. Espertos, chamam-lhe pro tablado e garantem o espetáculo. Outros, menos experientes ou mais vaidosos, deixam Raimundinho de lado, aí é fatal, pois o sujeito, bom como é, rouba a cena. A última vez que fui, presenciei fato assim. O nordestino chegou já dançando com as pernas moles pela música e pela birita, trazia sua pochete atravessada no corpo por cima do blusão largo e, cobrindo a calvície, estava o tradicional chapeuzinho. A banda tentou chamar mais atenção, a cantora balançava os glúteos, cantava música lenta, cantava música rápida e só dava Raimundinho. Abriu-se uma clareira imensa ao redor do homem e os que puderam, sacaram suas máquinas fotográficas e filmadoras pra registrar o Fred Astaire nordestino. Cansados de disputar, os membros da banda boicotaram o show e desligaram os instrumentos. Ele, nem aí, continuou a dançar ao som do silêncio, deixando os músicos boquiabertos a assistir do tablado. Foi assim, tal um Padim Ciço, que Raimundinho fez o milagre da transformação do palco em público e do público em palco.

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de abril de 2010

Raimundinho Dó Ré dando show na Feira dos Paraíbas. Repare o pessoal ao redor filmando e fotografando.

A Feira de Trocas

Peguei esta estória antiga na feira de trocas, se ao leitor não couber, troque-a por outra:

Seu José Pedro chegou às 4 da manhã na Praça XV, as barracas estavam de pé antes do sol. Ia o velho, levando no colo uma boneca de pano feita pela esposa há 10 anos, coisa rara e bem feita, sem valor nenhum financeiro, mas lotada de cifrões afetivos. Na primeira barraca que lhe interessou viu um lustre bonito que serviria para alumbrar todo quarto, quis trocar a boneca por ele, mas o vendedor lhe perguntou de que serviria aquela porcaria. Andou mais um pouco resfriado pelo sereno da madrugada e viu uma jaqueta feita de couro e teias de aranha. Disse ao moço das roupas que a trocasse pela boneca, mas este lhe disse que era cedo para piadas. Andou até parar pela terceira vez, ao avistar um canivete inglês, e o vendedor lhe disse que não lhe interessavam joguetes. Quando já estava a desistir, avistou uma caixa de ferramentas seminova numa tenda dum homem de barbas brancas. Zé Pedro envergonhado lhe ofereceu a boneca e, na mesma hora, o homem barbudo aceitou. Os amigos encarnaram ao feirante que se desfizera dos utensílios para tomar um brinquedo pra si. De noite, com as ferramentas, Zé Pedro dava novo jeito à sua casa, num raro momento de alegria e, Marcelinha, a filhinha do homem barbudo, tinha a noite mais feliz de sua vida, ao dormir abraçadinha com a nova boneca que um dia havia sido da filha de Zé Pedro que morrera de tuberculose.

Antunes / Ilustração: Rogerio Tadeu
Rio de Janeiro, 6 de abril de 2010

Desfile do Grupo E – Intendente Magalhães

Por Garota Insulina – participação especial

Quando você pensa em Rio de Janeiro qual a primeira coisa que vem a sua cabeça?, se fizéssemos essa pergunta a cariocas ou não, acredito que a resposta de muitas dessas pessoas seria: carnaval.

Ah!!! O carnaval! Mulheres bonitas, perfeitas, samba no pé, desfiles lindíssimos. Não é isso? E eu respondo: depende. Sim, depende. É sério, leitor. Nunca fui à Sapucaí, mas esse ano passei um carnaval um tanto quanto “diferente”, que talvez não seja o desejo de muitas pessoas. À primeira vista, admito ter ficado (e minha cunhada também) um tanto quanto receosa ao receber o convite do meu irmão, mas digo que valeu a pena.

Tudo bem, irei ao ponto: no último dia de carnaval fomos assistir ao desfile do Grupo E. Lá, nós temos a sensação de ser tudo improvisado, já começando pelas ruas onde acontecem os desfiles que são fechadas. Algumas fantasias nos dão a impressão de papel crepom, não há preocupação com beleza e as mulheres expõem seus corpos, cá entre nós, nada sólidos (e bem líquidos, talvez pastosos)… e assim segue, e tudo que você não espera pode aparecer por lá, desde crianças chorando em meio ao desfile até pessoas desfilando de biquíni fio dental por falta de fantasia e, tudo isso, ao mais agradável odor de urina proveniente dos banheiros químicos, que não deram conta e vazaram, fazendo uma poça gigante de xixi, onde estavam montados, ao lado das arquibancadas também improvisadas.

Acreditem, foi um programa divertido, com risadas do começo ao fim. Aliás, qual a graça de ir assistir ao desfile do Grupo Especial e não ter do que rir? Se “todo carnaval tem seu fim”, digamos que o meu terminou de uma forma um tanto quanto exótica.

Garota Insulina

Rio de Janeiro, 9 de março de 2010

Garota Insulina (Vanessa Antunes, autora deste texto) e Vinícius Antunes (autor do blog)