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A primeira impressão

Minha vó dizia que a primeira impressão é a que fica. Hoje, com tão radicalizada modernidade, não sei se a gente pode dizer isso. Talvez seja a primeira impressão justamente aquela que não fica. Tenho uma impressora HP lá em casa e, há muito, já joguei sua primeira impressão fora. Já tive Epson, Lexmarc e nenhuma primeira impressão permaneceu. Permaneceram algumas outras: fotos que imprimi, crônicas, poemetos… a primeira, aquela maldita página de teste que gasta desnecessariamente nosso cartucho, não, esta nunca guardei.

E tomara que minha avó esteja mesmo errada, pois a primeira impressão de Fortaleza foi nada boa. Tomei um taxi, fui pro hotel, deixei a mala e saí pra andar na praia de Meireles feito turista glauberiano: idéias na cabeça e máquina à mão. De repente ouço: ei, ei! Empalideci, pois percebi que os eieieiês não soaram bem. Virei-me e vi dois homens. Disse: pois não. E um deles respondeu: amigo, volte pro hotel e deixe sua máquina fotográfica. Aqui tem asssalto demais, há uns meninos que andam em bando assaltando, não tem dez minutos assaltaram um turista ali.  Agradeci, virei as costas, fiz que ia tomar o caminho do hotel. Quando vi que não me observavam mais, retomei meu caminho, com minha máquina fotográfica à mão. Afinal, se há obediência não há história. Aprendi isto, também, com minha avó, quando me lia a chapeuzinho vermelho.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de maio de 2011

A orla da praia de Meireles é tomada por restaurantes

Calçadão de Fortaleza vazio em dia de Páscoa

Os cacos da estória

Título em homenagem ao mestre Judemberg

– Um mercado popular com imensa quantidade de sapatos de um pé só

– Um retrato falado

– Um senhor dormindo sem um pé de seu calçado

Elementar, caro leitor. Não é preciso ser um Sherlock para descobrir o ocorrido. Ademais, como prova da veracidade da estória, ou melhor, HISTÓRIA, documentei tudo com minha fiel câmera fotográfica e tenho como testemunha minha esposa, não fosse a ausência de buço, poder-se-ia dizer-lhe que é o dr. Watson desta narrativa.

Ao chegarmos diante do Terminal Bimodal de Santa Cruz de la Sierra constatamos a presença de um comércio popular mui peculiar e suspeitoso: vendia diversos sapatos de origens duvidosas e muitos estavam sem o seu par. Para quem um comércio venderia um único sapato? Para pernetas? Para adolescentes que usam sapatos diferentes? Para quem? Esta questão atormentou-nos até que, ao fim, descobriríamos a sua resposta.

Assim que adentramos o recinto rodoviário, vimos pelas paredes o retrato falado de um procurado por roubo. Era um rapaz jovem, de traços indígenas. Por que motivos se anunciaria um procurado dentro da rodoviária? Para evitar que fugisse da cidade? Para precaver os que chegavam a Santa Cruz? Ou seria ali seu principal local de atuação?

Ao andarmos a procura de onde comprar passagens para Sucre uma cena incrível nos compadeceu: um senhor dormia sobre a sua mala, mas faltava-lhe um pé de sapato. Estávamos diante de um roubo gravíssimo. Foi aí que juntamos os cacos da estória. Acompanhe o desvendamento do caso e a reconstituição do crime no próximo parágrafo:

O senhorzinho estava a esperar o horário de sua viagem e dormiu sobre a mala para que ninguém a roubasse. Porém, deixou seus pés livres descuidando-se do crime que poderia ser cometido. Eis que, avistando aquela presa fácil, chegou o assaltante que está denunciado pelo retrato falado e roubou-lhe um dos pés do calçado e correu para o mercado popular para vendê-lo a um comerciante qualquer. Quando o senhorzinho acordar, desesperado por estar com um de seus pés vulnerável e descalço, sabe, leitor, para onde ele correrá para comprar um sapato que combine com o seu? Para o mercado popular de sapatos solteiros! Foi assim, leitor, que descobri como o crime trabalha no Terminal Bimodal de Santa Cruz de la Sierra.

Antunes
Teresópolis, 31 de maio de 2010

Diante da rodoviária há um mercado mui peculiar

O PROCURADO

O senhor dormindo sem UM dos sapatos

É proibido usar capacete!

Creia, leitor. Creia porque a lógica é esta. Em Ourilândia é proibido usar capacete. Não que haja leis escritas, mas afinal de que servem as leis escritas se as que valem são orais? O meio de transporte mais comum aqui é a moto. Dos meios de vida, garantiram-me: um dos mais comuns é o roubo. E não fizeram a boa combinação dos meios: moto+roubo? Só duas estirpes de pessoas usam capacete por aqui, falou-me um aluno que está na cidade desde antes de sua emancipação: ou são funcionários da Vale ou são ladrões. Os funcionários da Vale usam capacete por medidas de segurança incentivadas pela empresa; os ladrões usam pra esconder a cara qual máscara. Daí vem a lenda de Jack Cabeça, dos mais misteriosos bandidos da região.

Dizem que ninguém nunca viu a cara do Jack Cabeça e que sua referência é o fato de mandar fazer seus capacetes sob medida, tamanha cabeça tem o moço. Jack Cabeça é/era (não se sabe seu paradeiro) assaltante cruel, matava e só depois mandava levantar as mãos. Inicialmente assaltava em dupla, com seu companheiro de garupa, Jacinto das Morte. Mas se desentenderam e o próprio Jack Cabeça o matou. Dizem que o diálogo foi rápido e rasteiro:

– Jack, quero saber se cê vai me pagá aquele dinheiro que tá me deveno.

– Já disse: vô! Num me aperreie mais!

– Tô precisano do dinheiro, Jack. Quero só vê se vai me pagá hoje!

– Tá me chamano de mentiroso!

– Tô não, Jack!

-Eu afirmei, num apergutei! E agora tá dizeno que eu tô mentino porque eu disse que cê disse que eu tava mentino!

Depois cantou o revólver de Jack. Era o fim de Jacinto das Morte.

A abordagem policial, por conta dos ladrões de capacete, é sempre a mesma. Param os motoqueiros que seguem as leis nacionais e mandam que cumpram as leis regionais:

– Ei, ô da moto. Encoste!

– Que foi, seu moço poliça?

– Tire o capacete!

– Tem cara de ladrão esse, Jailto?

– Tem não, Creisso.

– Tá liberado, então. Mas, num volte a colocá capacete que isso é coisa de bandido.

Tive o (des)prazer de ouvir como funciona o método de roubo de Jack Cabeça. Dizem que em seu último assalto parou a moto diante da mulher da barraca de bijuterias. A senhora, já trêmula e quase se urinando, só conseguiu perguntar:

– O sinhô de capacete é bandido, né?

E Jack Cabeça, irônico a respondeu:

– Sou não, sou funcionário da Vale.

A pobre, coitada, num breve alívio respondeu:

– Então o que o sinhô deseja?

– Vim só garimpar teu ouro! – Disse o Jack e deu uma risada estrondosa abafada pelo capacete.

Antunes

Terra dos Sem Capacete, 25 de março de 2010

A parábola do ladrão

São as fotos, os teus olhos, leitor. Se não fossem elas, não me acreditarias. Passo a contar, então, como tudo se deu:

Mal saí do hotel e vi a multidão, sequer sabia que em Parauapebas vivia tanta gente. Pensei: assembléia popular, festa da padroeira, fim do mundo… era um povo reunido que cochichava sobre sabia lá o que. Fui tentando juntar as vozes: uns diziam dum tiro, outros duma moto. Concluí: ou alguém morreu de tiro ou alguém morreu de acidente de moto, estão todos ali a rodear o corpo. Corpo estendido no chão em cidade grande já é quase ponto turístico, em cidade pequena então… Fui lá ver, passei pela multidão: cença, com sua permissão, tenquiu. Cheguei e vi: era um sujeito sentado no chão com cara de tá bom, eu roubei. Aí, reconstituí o fato: o cabra tentou roubar a moto, a polícia chegou e deu tiro pro alto. Pronto, tava pego. Do lado dele, tavam dois fardados: um com cara de bonzim e outro com cara de mau. O com cara de mau falava: todo mundo aqui tinha que te dar muita porrada pra cê aprender. O polícia com cara de bom, era um irmãozim da Bléia e dizia pr’outro: pare com isso, o castigo cabe a Deus. E ficaram nessa dúvida: se leva o ladrão ou se lhe dá uns cascudos antes? E o povo a gritar: crucifica-o! Afinal, é a moto o transporte mais comum de Parauapebas e a prática não podia virar costumeira. Foi quando o irmãozim da Bléia teve um estalo de idéia, se alembrou do que aprendeu dada vez na igreja e tomou a frente da multidão: Irmãos, estamos aqui diante de uma pessoa que errou, é bem verdade… (fez-se silêncio), mas queria lembrar vocês de uma coisa (a multidão, furiosa, catava pedras e paralelepípedos do chão), aquele, meus irmãos, aquele que nunca roubou uma moto que atire a primeira pedra. Dita as palavras assim, arrumadas nesta ordem, começou a enxurrada, que nem chuva de aerólitos, todo mundo a tacar pedra no cabra. Os policiais tomaram os braços do sujeito, lhe meteram no carro e saíram em disparada. E o policial da Bléia pensou: onde foi que errei? – esta parte final, leitor, já não posso provar, pois, nem eu, lembro mais direito. Corri na hora das pedradas e não pude fotografar, aí descobri que as fotos, além dos teus olhos, são os inibidores da minha memória que vai além quando elas não estão.

Antunes – Canaã dos Carajás, 28 de setembro de 2009

Povo se junta: assembléia popular? festa da padroeira? fim do mundo?...

Povo se junta: assembléia popular? festa da padroeira? fim do mundo?...

É o Tripa Seca de Parauapebas.

É o Tripa Seca de Parauapebas.