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Crônica Falada 8 – Lapa

Parafraseando o Chico:

Eu fui à Lapa e não perdi a viagem,
fiz um vídeo de sacanagem,
à nata da malandragem
que não existe mais.

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Antunes
Rio de Janeiro, 7 de abril de 2011

Desde que a Lapa é Lapa é assim

por Emily Aparecida – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Hoje quero mandar um alô especial para aqueles que murcham de tristeza quando vêem os primeiros raios de sol tocando as calçadas da gloriosa Lapa. Essa vai pra você que viveu vidas inteiras em uma só madrugada. Aos que se entregam sem preconceitos a uma noite de puro ecletismo musical e que ficam zangados ao clarear do dia. A todos que também já tiveram seus corações partidos numa gafieira e que foram obrigados a praticar a solidão andando por aquelas ruas de arquitetura delicada sob o zumbido de gargalhadas e estalos de copos. Enfim, a todos que guardam memórias inesquecíveis desse bairro que desperta emoções, paixões e felicidade em todos que experimentam de seus ares.

A Lapa é um verdadeiro parque de diversões para os amantes da boa música. Tem de tudo: Rock, pop, samba, funk, forro, choro, sertanejo, hip hop… todos os ritmos compartilhando o mesmo espaço, o mesmo público e o melhor, tudo em harmonia. Mas se voltarmos um pouquinho no tempo veremos que nem sempre foi assim. A Lapa também já viveu períodos de escuridão. A perseguição do Estado Varguista à malandragem e à prostituição calou por alguns anos o grave dos surdos e as rodas de malandro daquele lugar. Foi assim até o final da década de 90, quando o movimento de jovens chorões assoprou a brasa da boêmia, fazendo a lapa renascer das cinzas. É, seu Nelson! Desculpe, mas terei que discordar… a Lapa que já foi ainda é¹!

“A Lapa de hoje e a Lapa de outrora”² fazem pulsar os corações de seus freqüentadores a cada madrugada. O passado e o presente sambam na mesma cadência com perfeição. “Os famosos arcos, os belos mosteiros são relíquias deste bairro” que ainda mantém vivos aqueles personagens escondidos nas letras dos sambas chorados nas esquinas da década de 40. Tenho certeza que a dama do cabaré³, que tantas vezes tirou o sono de Noel, continua a vagar por aquelas ruas. Wilson Batista e sua flor4 devem se reunir todo sábado na gafieira para dançar ao som da saudosa Orquestra


1 – Rainha da Lapa Nelson Gonçalves -– Referência ao trecho “Quando a Lapa era Lapa”

2 – Lapa em três tempos – Paulinho da Viola

3 – Dama do Cabaré – Noel Rosa

4 – Flor da Lapa – Wilson Batista

Emily Aparecida
Rio de Janeiro, 11 de fevereiro de 2011

Ao vivo, do Sambódromo

por Venturieta – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

– Eu avisei que ia faltar cerveja, agora já não dá pra comprar mais.

De fato, o isopor estava quase vazio. O gelo que ainda não havia derretido mantinha corajosamente uma latinha na temperatura exata para combater o verão carioca. O caso é que a pobre órfã de família numerosa – única sobrevivente de um pack de doze – era combustível insuficiente para acompanhar o último desfile na Sapucaí. Nada mais justo então do que enaltecer sua visão estratégica, provando que suas previsões haviam sido calculadas com precisão militar. Seu protesto, no entanto, terminou abafado pelo aquecimento da bateria, e o subsequente descaso da companheira. Decidido a manter a postura bélica, insistiu:

– Eu tô morrendo de sono.

Eram quase seis horas da manhã de uma terça-feira gorda, o último dia do feriado. Porque não havia nem a colher de chá de ir trabalhar só ao meio dia de quarta: oito da matina a firma queria todo mundo lá, continência e ponto batidos. A situação desanimadora: em apenas três goles a provisão etílica reduzira-se à metade, e em menos de 24 horas precisaria estar curado da ressaca para conseguir levantar-se da cama, coisa que só seria possível se o repouso do herói houvesse começado há coisa de quatro horas. Seu apelo não apenas havia sido sumariamente ignorado como foi neutralizado por um contra-ataque engenhoso: a inimiga tratou de distraí-lo.

– Já dá pra ver a comissão de frente, olha lá!

Mesmo sem querer, sentiu o entusiasmo renascer. Como último esforço para encerrar a campanha, fixou os olhos uma vez mais nas evoluções que tomavam a passarela. Abre-alas, passistas, baianas, paradinhas, destaques, velha guarda. Quando deu por si sabia o samba-enredo de cor. De olho no relógio, comemorou quando os portões da dispersão foram fechados, indicando que sua escola havia tomado a avenida por exatos oitenta e dois minutos. Nesse ano ganhariam, certeza. Daria um jeito de desertar na quarta, pra assistir a apuração – quem sabe na quadra!

– Minha coluna está me matando. Você pode dar um jeitinho nas coisas e deixar os copos na pia, por favor?  – gemeu Aurora, enquanto se espreguiçava no sofá.

Como não render-se às manhas da mulher? Resignado, pôs-se a arrumar a sala, recolher o lixo e fechar as janelas. Por fim desligou a TV e, numa marchinha, alcançou a cozinha.

Venturieta
Petrópolis, 11 de março de 2011

Três menções ao samba e ao sambódromo

1 – Samba do Rio

Se “o samba nasceu lá na Bahia” , foi no Rio de Janeiro que ficou bom. E se outros acham que o Rio de Janeiro é o berço do samba, “São Paulo é o túmulo.” Meu xará de Moraes, igualmente carioca, foi o responsável por biografar o samba, com direito a local de nascimento e morte. Os cariocas somos assim: muito pretensiosos, arrogantes, presunçosos quando se trata de futebol e samba, mais ainda de samba. Carnaval para nós, só o do Rio de Janeiro. Embora haja uma onda de aceitação cada vez maior pelo pula-pula atrás dos trioelétricos baianos, ainda é insuportável para os cariocas ver um desfile de escola de samba de São Paulo. Por mais que a comercialização do carnaval esteja em um crescente desenfreado e na passarela do samba se destaquem os nomes televisivos, pelo menos ainda resta um espaço para que em todo comecinho de ano ressuscitem nomes como Cartola, Noel, Paulo da Portela, Jamelão, Silas de Oliveira, Natal…

2 – A Marquês e suas escolas

A Marquês de Sapucaí surgiu nos anos 80 sonhada por duas figuraças geniais e históricas: Oscar Niemeyer e Leonel Brizola. A partir daí, mesmo muito criticada, se converteu na passarela por onde desfilam as tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, porém, o que mais me impressiona no projeto e quase ninguém sabe é que desfilam por ali, diariamente, centenas de crianças de escolas que não são de samba. Os CIEPS, entretanto, estão sendo retirados da avenida em 2011 pois, devido ao carnaval, os alunos acabam perdendo muitos dias de aula. No lugar deles, entrará na avenida um projeto do EJA. O que importa é que de uma forma ou de outra, a Marquês de Sapucaí continuará abrigando escolas de Samba e de Educação.

3 – O que será do Samba…

O samba é mutável, isso é fato. Dele saiu a Bossa Nova (que seus autores dizem não ser bossa nova e sim samba) e dele saiu o pagode (que seus autores juram de pés juntos não ser pagode e sim samba). Assim como a melodia vai se alterando, as letras também. Ontem, a poesia e a melancolia foram marcas que encontraram em Silas de Oliveira do Império seu maior representante. Hoje, as letras e as melodias vivem os desdobramentos lançados por Martinho da Vila, que popularizou iê-iês e la-la-lás na avenida. E se melodia, letra e música vão mudando, é claro que o mesmo acontece com o formato das escolas. Ontem, elas eram blocos. Hoje, cresceram tanto que passaram a mobilizar milhares de pessoas e milhões de dinheiros. Com Joãozinho Trinta o luxo entrou na avenida e hoje, por mais que neguem, as purpurinas e os penachos de pavão finalmente vão chegando ao fim. Começa a era Paulo Barros, em que efeitos especiais, ilusões de ótica, personagens pop, ganham a avenida e fazem sucesso entre o público e a mídia. Vivemos exatamente uma época excepcional em que coexistem na Marquês de Sapucaí duas expressões muito distintas de escolas de Samba. O modelo Mangueira: tradicional de extrema qualidade, em que o histórico da escola, seus mitos e o samba no pé são muito valorizados. E o modelo Unidos da Tijuca-Paulo Barros: extremamente agradável visualmente, pós-moderno e aclamado por gritos de campeão por toda a Avenida. O embate entre estes dois modelos forjará as escolas de samba de amanhã, gostem os críticos ou não, é um movimento que não se pode mais frear.

Antunes
Rio de Janeiro, 20 de março de 2011

Casal verde e rosa

Éric e Nô levam um banho de espuma na Sapucaí (olha a cara de contente do Éric)

Após a saída de cada escola, a famosa presença dos garis que deixam a Sapucaí limpinha

A eterna águia da Portela

Paulo Barros levou uma gigantesca barca de Caronte para a avenida

Ogum, Oxossi e Iemanjá saem da Avenida e dão lugar a Harry Potter no carnaval de Paulo Barros

O sambódromo se enche de verde e rosa pra receber a Mangueira

Chuva e orações recebem a Mangueira na Avenida

Nôla e eu, aguardamos a verde e rosa até às seis da manhã

"Mangueira, teu cenário é uma beleza."

E enquanto isto, meu primo Arthur saía de diretor de ala da Mangueira.... vai entender!