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Entre o céu e o inferno

Aos turistas, quiçá não seja a missa o principal atrativo da Catedral de San Francisco. Ao pagar-se 3 bolivianos, pode-se subir ao mirante e vislumbrar a praça sob a copa das incontáveis árvores. Dali vê-se o verde, os pombos, vê-se o dentro de nós na ausência de conseguir ver algo mais. O mais interessante é a companhia que temos lá em cima: casais ardentes que se aproximam para arderem-se mais, mãos ousadas que lêem corpos em braile, degustadores de gente. A igreja, castíssima e ainda que não fosse, vê-se no dever de tolher os amantes – que vão procurar um motel! – espalhou pela escadaria avisos de não fornicar na santa igreja. E penso, olhando a paisagem, que curiosa representação: abaixo acontece a missa, acima os casais comungam. Seria um desarranjo de tudo: o céu abaixo e acima o inferno? Ou Deus está brincando com essa metáfora pra nos dizer: tudo continua no seu lugar: o inferno está abaixo e os céus acima?

Antunes
Rio de Janeiro, 20 de maio de 2010

Subindo ao mirante da Catedral

É proibido fornicar! Aviso na Catedral de Santa Cruz!

De longe consegui fotografar um casal se amando

Uma catedral perdida no tempo

São tijolinhos, uns sobre os outros, que se equilibram e se encaixam, feito Lego, e vão até o céu. Todos eles, uns sobre os outros, ficam na praça 24 de Septiembre no Centro de Santa Cruz de la Sierra, compondo a Catedral de São Francisco. Quando chega domingo, a igreja lota, vão as mães com seus filhos pedir a Deus (quem sabe a Pacha) o dinheirinho pro de comer, pedir saúde, pedir futuro. Ouvem um padre, um espanhol, com sotaque de quem sabe muito do exterior. Depois da missa, se sentam na praça, comem lanches de procedência qualquer. As crianças imitam pombos e com eles brincam de voar. E assim segue, toda semana, Santa Cruz, insistindo em ser uma cidade pequena de qualquer lugar do passado.

Antunes
Rio de Janeiro, 20 de maio de 2010

A Catedral de Santa Cruz de la Sierra

Às portas da Catedral de Santa Cruz

Um casal de turistas

A cruz da lateral da Catedral

Catedral de Santa Cruz por dentro

O cristo de saia da Catedral

Mirante da catedral

A praça vista do mirante da Catedral

A Catedral de Santa Cruz vista de longe

Los microbuses de Santa Cruz

Tenho uma amiga chamada Xandinha Magalhães que morou alguns anos em Santa Cruz de la Sierra. Conversava com ela e me contava que lá praqueles lados da Bolívia não tinha sinal de trânsito, tampouco ônibus. A diversão da gaja era ficar, no fim de semana, a olhar da janela de seu apartamento os acidentes de trânsito. Pois venho, então, contar as boas novas: Santa Cruz de la Sierra já tem sinais de trânsito e ônibus. Os sinais de trânsito são meia dúzia que ficam no centro da cidade e os ônibus são o que eles chamam de “microbuses”. Os microbuses são, como diz o nome, onibusinhos. Além de pequeninos, são coloridos e adesivados. Tem microbus com adesivo do Che Guevara, do Garfield, da Nação Camba, do Johnny Bravo e por aí vai. Os ônibus vão sempre cheios, mas são freqüentes e baratos (custam um boliviano e cinqüenta = cinqüenta centavos de Real). Visualmente, parecem sucata que sobrou do Japão, mas, se perdem em qualidade, sobra em cordialidade, pois os motoristas estão sempre prontos a informar e a população, além de espremida, é bem educada. Com cara de turistas, minha esposa e eu, estávamos sentados em um microbus saído da rodoviária e um boliviano meio grogue, quis dar-nos as boas-vindas: “Rai, rou are iú? Ere iú from?” Sorte que ele não estava sóbrio e, diante das risadas do ônibus, pude simplesmente ignorá-lo e não decepcionar o público crucenho, pois afinal, não era um gringo que falava inglês que estava ali tendo o privilégio de andar em seus microbuses.

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de maio de 2010

Vários microbuses crucenhos

Un microbus

Um microbus por dentro

Eu penso quadrado, ele redondo

Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

“Supõe que já cruzamos pela vida
Mas nos deixamos sempre para trás
Porque eu andava pelas avenidas
E  tu corrias pelas transversais.”
Supõe – Chico Buarque,
Versão de Sílvio Rodriguez.

Sempre me gabei de saber andar onde quer que estivesse, de ter um ótimo senso de direção. Creio que eu não seja uma pessoa com bom senso de orientação por ser geógrafa, nem o contrário, mas acredito que as duas coisas têm a ver. Esta minha suposta qualidade se sobressaía ainda mais quando andava com meu delicioso marido, dono deste blog, que é a pessoa mais desorientada que já vi na vida. Nunca consegui lhe convencer de que a menor distância entre dois pontos sempre é uma linha reta, apesar de já ter provado mil vezes, não só matematicamente, quanto praticamente.

Pois bem, esta minha suposta qualidade sempre foi muito bem aproveitada ao andar nas ruas do Rio de Janeiro, cujo modelo de plano urbano em tabuleiro de xadrez (ruas quase sempre perpendiculares entre si) está internalizado por mim. Observe no mapinha abaixo, do centro do Rio de Janeiro, como este padrão é quase uma regra. E não só o centro, mas toda a cidade do Rio tende a este tipo de organização. É muito fácil no Rio de Janeiro pegar um mapa e colocá-lo na orientação correta para que sigamos nosso caminho.

Qual não foi minha surpresa, ao chegar em Santa Curz de la Sierra e me deparar com uma cidade cujo plano urbano não é em tabuleiro de xadrez, mas radial! Radial é um plano urbano onde as ruas se organizam a partir de ruas em forma de círculos concêntricos, veja só:

Em Santa Cruz, estes círculos são chamados de anéis e é a partir deles que você se localiza na cidade. Sempre que alguém vai lhe explicar onde fica algum lugar, diz que é na rua tal que fica no centro ou entre o 1º e o 2º anel, entre o 2º e o 3º, ou entre o 3º e o 4º. Parece simples, e talvez seja. Mas o fato é que isto me abalou mentalmente. Passei 3 dias em Santa Cruz e provoquei vários momentos perdidos na cidade, já que eu – devido ao meu suposto ótimo senso de direção – sou sempre a responsável pelos caminhos. Não conseguia sequer orientar o mapa em minhas mãos e, para minha surpresa, meu delicioso marido, dono deste blog, passou a me ensinar os caminhos.

Fiquei pensando no que Cervantes fez pelos espanhóis… A loucura do Quixote inspirou cidades redondas, talvez motivada pelo girar dos moinhos de vento. Acho que esse mesmo vento soprou no Vinícius e, de repente o que era errado passou a ser certo. Ou o que eu pensava que era errado na verdade era certo.

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 21 de maio de 2010

Santa Cruz: tênia, Saturno, cigana, senhora de tantos anéis

Dobre a direita, vire à esquerda, siga em frente, mais duas direitas, mais 578 esquerdas e 42 direitas: pronto, você chegou. É assim que estamos acostumados a dar informação na maioria das cidades grandes do Brasil. Mas, Santa Cruz de la Sierra é diferente, é uma cidade circular, lá se diz assim: até o segundo anel. Siga até o terceiro anel. É só ir até o quarto anel. Santa Cruz, caro leitor, é como uma tênia, feita por anéis; é como Saturno, interessante por seus anéis; é como cigana, misteriosa devido aos anéis. Santa Cruz de la Sierra, é senhora de tantos anéis, ainda que não tenham lhe ficado os dedos.

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de maio de 2010

Nôla segurando o mapa circular de Santa Cruz de la Sierra