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Por las calles de barranquilla

Cualquier ciudad que uno llega por primera vez es inquietante.”
(Santiago Gamboa em Los Impostores)

Flanar é um verbo demasiadamente francês. Eu marchava, caminhava. Enquanto dormia, despregado do corpo, seguia os sons do vallenato, via figuras carnavalescas inda que fosse fim de ano. Uma imensa gota de suor escorreu-me pelo rosto. Despertei do sonambulismo às portas do El Prado. Saí às ruas, era dia. Dia de estufa. Tomei um ônibus quadrado e colorido e fui à casa de souvenirs:  comprei camisa, ímãs, inutilidades – as inutilidades tornam minha vida útil.  Soube que na cidade havia um famoso zoológico e dois famosos museus. Ou o zoológico, ou os museus. Meu tempo era curto, só possuía a manhã, a tarde seria de aviões. Sacrifiquei o zoológico, fui aos museus. Museu Caribe, Museu Romântico. Depois: torno às ruas. Estou no Centro de Barranquilla. O calor possui o chão, os raios de sol causam miragens de água. Ninguém arrisca as ruas: deserto. Um centro da cidade vazio, apenas alguns beduínos iguais a mim, diferentes de mim. Topo com uma catedral que não me roga atenção.  Sigo silencioso por ruas estreitas, antigas e silenciosas. Oro para sobreviver ao calor, oro para não me desfazer e escorrer pelos bueiros. Oásis da cidade é um shopping. Ar-condicionado. Caminho entre lojas iguais às do Brasil, da Argentina, dos EUA, de qualquer lugar do mundo. Eles comemoram o halloween – mais que nós. Vou à praça de alimentação e arrisco uma comida enlatadamente típica para me sentir de volta às ruas e fora do shopping. Cansado, durmo. Acordo no banco do avião. Não sei como fui parar ali.

Antunes
Rio de janeiro, 14 de fevereiro de 2011

As ruas de Barranquilla são numeradas como as de NY

igrejinha ao lado do El Prado

ônibus barranquillero conhecido como LA BUSETA

Loja de lembrancinhas, barranquilla

Monumento em frente ao Museu Romântico

Gracias por pensar en mí

Mercado Popular de Barranquilla

Miragens de água

Desérticas ruas barranquilleras

Estátua na Praça diante da Catedral

Catedral de Barranquilla

Shopping - oásis moderno

Halloween no shopping de Barranquilla

Praça de Alimentação do Shopping em Barranquilla

Livros: pontos turísticos que trouxe comigo na mochila

Florentino Ariza escrevia qualquer coisa com tanta paixão que até os documentos oficiais pareciam de amor.”
(Gabriel García Marquez, Amor nos tempos do Cólera)

Ainda que não sirva de nada para os colombianos, afirmo: tenho orgulho da Colômbia. Um orgulho como sinto da Argentina. São dois países – como há alguns outros – que se pode dizer: vou à terra de grande literatura e, ao menos, lembramos de García Marquez (no caso da Colômbia) e de Jorge Luís Borges (no caso da Argentina). Lamento pelo Brasil, um lamento sem qualquer importância, pois temos grandes autores, mas ninguém diz que vem à terra do Machado de Assis. Acho esse tipo de lamento tão lamentável e piegas, mas ainda assim o faço, faço sem qualquer intelectualidade, faço por tristeza apenas, pois pertenço a uma minoria derrotada que prefere os vilões de papel aos heróis da tevê e não me sinto melhor, não me sinto pior, me sinto apenas só, como alguém que gosta de jiló, de falar holandês, de andar de monociclo.

Imaginei que chegava a um país, como contam as lendas, que faz filas imensas às portas das livrarias para comprar lançamentos do García Marquez, imaginei que chegava a um país em que seu ídolo maior não era um jogador de futebol, mas um escritor, imaginei, então, que movido pelo exemplo, milhões de García Marquez nasciam todos os dias pelas ruas da Colômbia. Uma livraria, na cidade de Barranquilla, foi meu principal ponto turístico. Ainda no Brasil, fiz uma lista com nomes de autores que achei na internet e cheguei determinado a me encontrar com eles, ou melhor, com seus livros:

– Santiago Gamboa.
– Hector Abad Faciolince.
– Ricardo Hernandez Contreras.
– Julio Cesar Londono.
– Jorge Franco.

Como dinheiro não é a minha maior qualidade, tive que cortar alguns nomes. Só podia trazer dois, acabei trazendo três. Deixei pra trás, ou melhor, pra frente, para o futuro, o Ricardo Hernandez Contreras e o Julio Cesar Londono. Garanti o famosíssimo Rosario Tijeras de Jorge Franco. Depois peguei o intitulado Los Impostores de Santiago Gamboa. Por fim, quando já não mais podia, não resisti ao nome do livro El olvido que seremos de Hector Abad Facionlince. Li todos, seguidamente, assim que voltei ao Brasil e posso dizer com total convicção que foram minhas melhores leituras do ano de 2010.

¿Si te has fijado que muerte rima con surte?

Rosario Tijeras é extremamente violento, erótico, uma espécie de Kill Bill colombiana que não se arma com espadas, mas com pistolas e metralhadoras e não quer se vingar de uma pessoa, mas do mundo e de si mesma. Rosario é a metáfora da droga: excitante, deliciosa, mas extremamente nociva. Um livro que se tornou um marco da literatura atual colombiana e ganhou, inclusive, versões em filme e novela. Jorge Franco é possivelmente o autor mais popular do país depois do velho Marquez.

Todo lo que está escrito es irreal, aunque haya existido.

Los impostores foi o livro mais engraçado que li em 2010, graças à inteligência de Santiago Gamboa. Com uma forma leve, rápida e cativante, possibilita que o leitor atravesse suas páginas sem sentir. Narra aventuras de personagens que são farsantes diante da vida, impostores por não serem nada do que crêem ser e que acabam juntos graças à uma viagem à China. O livro envolve mistério, aventura e vai desde cretinos comentários até a mais alta literatura (se é que existe isso).

Un día tuve que escoger entre Dios y mi papá, y escogí a mi papá.

El olvido que seremos é um livro biográfico-ficcional de Hector Abad Facionlince que me pescou logo pelo nome, ao meu ver, intraduzível (O ESQUECIMENTO QUE SEREMOS – arrisco esta tradução, embora não goste). Se Los Impostores foi o livro mais engraçado que li em 2010, este outro foi um dos mais tristes que já li na minha vida. Com um punhado de frases contundentes e outro punhado de frases infantis, Abad faz uma obra de arte primorosa que brilha e prende até passar a metade do livro. Depois disso, nos acostumamos ao pranto e voltamos a ser indiferentes à dor. O livro poderia ter menos páginas, mas vale arrancar as últimas para secar as lágrimas das primeiras.

Aos livros, os fiz amigos, travesseiro, bíblia, prato de comida. Estes livros fizeram que meus brevíssimos dias na Colômbia durassem meses, durassem o que durarei eu.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2010.

Todas as citações do corpo do texto são do livro que está logo abaixo delas.

A livraria em que comprei meus livros

Os livros que comprei: Rosario Tijeras, El olvido que seremos, Los impostores

V.I.P.

Qué ambiente más cómodo. Sillones de cuero. Saloncitos cerrados. Zonas para dormir, para fumadores, para ver televisión. Hay una barra en la que se pueden pedir licores, café y refrescos. Neveras con agua mineral, jugos y sádwiches. Un escaparate contiene periódicos de Europa y Estados Unidos, lo mismo que revistas como Newsweek, Harper’s Bazaar, Bild, Caray, cómo se cuidan los viajeros. La mayoría son hombres de negocios, Señores muy serios de vestido y corbata.” (Santiago Gamboa em Los Impostores)

Não há nada tão ruim que não possa melhorar, assim reinvento o ditado popular e assim tive minha concepção sobre o vôo um tanto quanto reinventada também. Foi na viagem à Colômbia aquela em que enfrentei sérios problemas para embarcar e fiz três tentativas até conseguir (ver o vídeo da postagem anterior):

1ª Compraram uma passagem pra mim via Panamá, não pude embarcar porque o Panamá precisa de passaporte.

2ª Compraram uma passagem pra mim via Venezuela, não pude embarcar porque Venezuela à época, também precisava de passaporte.

3ª Finalmente embarquei, fui pra São Paulo, passei à noite no hotel do aeroporto e segui para Bogotá e, depois, Barranquilla (meu destino).

A sorte foi, que no desespero e na pressa, só conseguiram vôos na classe VIP da Avianca. Ou seja, foi difícil ir, mas quando fui, fui como um magnata.

Aos que nunca tiveram o privilégio de entrar na sala VIP (eu estou há séculos juntando milhas da GOL pra tentar acessar) – relato:

É uma sala com sofás confortáveis, bebida liberada, comida liberada, tudo que é tipo de jornais e revistas, internet, banheiros limpos e cheirosos. Os VIPS jamais enfrentam filas quaisquer. Ou seja, dá pra entender como executivos conseguem viajar tanto de avião e não ficam entediados.

Mas o maior privilégio vem depois: entrar no avião e ter 3 ou 4 janelas só para você, saber que seu banco pode deitar, rodopiar, balançar… Logo que entrei, estava deitadão, esparramado na cadeira-cama, veio a aeromoça com uma toalhinha quente e úmida para higienizar as minhas mãos. E tem entrada, almoço, sobremesa, bebidas… Ganhei presentinhos! E olha que nunca uma empresa de avião tinha me dado nada além de desespero!

Mas o sonho acabou… se a ida foi um privilégio, na volta mal consegui reclinar o banco:  minhas pernas ficaram dormentes, a coluna doía. E lembrei que não havia nada tão bom que não pudesse piorar. Findava a vida de magnata. Acabava o carnaval aéreo em que eu fantasiava ser alguém.

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 2011

Sala VIP da Avianca em São Paulo

Sala VIP da AVIANCA na Colômbia

SALA VIP: queijos, cerveja colombiana e leitura...

No avião: televisão com vários lançamentos de filme, inclusive colombianos

Poltronas confortáveis, muito espaço, como deveria ser sempre

Os muito botões da poltrona VIP da AVIANCA

Muitas janelas só pra mim