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A linda ruína de Itabira

A lua: seca, cinza, morta, esburacada. Mas quando está no céu, os casais a olham e lhe dizem linda. Quero os olhos dos casais, estes de olhar a lua, pra qu’eu possa olhar o câncer. Quero os olhos dos católicos que santificam as chagas de Cristo e tocam-na e beijam-na. Quero os olhos do primeiro artista que gritou “linda” à Torre Eiffel, monte de ferro exposto. Quero os olhos de um deus que achou bonito ter hienas entre sua criação. Itabira é seca, cinza, morta, esburacada e linda! Linda com a beleza da supremacia do homem sobre a natureza. Linda com a vitória do ferro sobre as árvores. Linda porque a criatura de deus destruiu as criações de deus. Linda como o homem que é feito de ferro até a alma. Itabira é linda, embora feia pra caralho e justamente por isso. Se nos regozijamos com as ruínas incas, se sabemos gozar com os restos egípcios, se ejaculamos sobre os destroços do império romano, por que não podemos ter prazer nas nossas próprias ruínas?

Antunes Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 2011

Ar leve e seco como a rocha

“Otra vez este flamear invisible, seco, que se pega a los cuerpos. Me parece que debería abrirse una ventana en alguna parte para que entrase el aire.”
(Augusto Céspede, El Pozo)

Soroche: É um efeito causado pela falta de oxigênio. Apresenta sintomas claros e perigosos: indisposição geral, seguida de forte dor de cabeça e uma ânsia de vômito incontrolável. (fonte: http://www.arqueologiamericana.com.br)


Em La Paz, não sofri em momento algum com o maldito SOROCHE. Estive tal agnóstico que só sabe que há diabo porque lhe disse alguém. Não senti o Demônio, mas o suposto Cão atacou minha esposa. A pobre teve dor de cabeça, vontade de vomitar, sono…  nem a água benta chamada CHÁ DE COCA lhe tirou o mequetrefe do corpo. Seus pulmões não foram suficientes, mas os meus, treinados por quase três décadas de bronquite, adquiriram resistência aos mais de três mil metros de altura (cada vez creio mais na lei da compensação). Até admito que em La Paz não funcionei como funciono no Rio de Janeiro: faltou aquela energia pra dar o pique atrás do ônibus, as ladeiras pareceram sempre maiores, o corpo mostrou-se mais pesado… porém cheguei a imaginar que isso eram apenas setas de Satanás e não o Cramunhão em sua íntegra. Das facetas fantásticas do ar, a única com que tive contato foi a Secura. Em La Paz, talvez não sejam todos atingidos pelo SOROCHE, mas parece-me impossível não ser atingido pela aspereza do ar, seco com uma rocha. A cidade parece contrariar as leis da natureza e apresentar ar em estado sólido. A boca logo fica seca e descasca, a sede é constante. Há, ainda, uma mescla improvável, presente em uma música popular latino-americana gravada e repensada por Chico Buarque: “Soñé que el fuego heló. Soñé que la nieve ardia.” La Paz é neve que arde: sob um frio de quase zero grau, é possível ficar queimado de sol sem perceber e sem derramar suor. Depois de andar pelas ruínas Tihuanaco, cheguei ao hotel no centro de La Paz com a pele totalmente seca e queimada, chegava a descascar. Eu poderia confundir-me com o chão de terra batida do império: desértico e maltratado pelo Sol. Foi então que percebi que o Soroche e a Secura não eram intervenções diabólicas, mas as mãos dos deuses andinos que queriam converter o invasor pseudoeuropeu em pó seco, apenas para que o pesado vento me levasse dali.

Antunes
Rio de Janeiro, 15 de julho de 2010

Em meio ao Tihuanaco: frio, sede e sol forte. Muita água para combater a aspereza do ar.