Arquivo da tag: senso de direção

Eu penso quadrado, ele redondo

Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

“Supõe que já cruzamos pela vida
Mas nos deixamos sempre para trás
Porque eu andava pelas avenidas
E  tu corrias pelas transversais.”
Supõe – Chico Buarque,
Versão de Sílvio Rodriguez.

Sempre me gabei de saber andar onde quer que estivesse, de ter um ótimo senso de direção. Creio que eu não seja uma pessoa com bom senso de orientação por ser geógrafa, nem o contrário, mas acredito que as duas coisas têm a ver. Esta minha suposta qualidade se sobressaía ainda mais quando andava com meu delicioso marido, dono deste blog, que é a pessoa mais desorientada que já vi na vida. Nunca consegui lhe convencer de que a menor distância entre dois pontos sempre é uma linha reta, apesar de já ter provado mil vezes, não só matematicamente, quanto praticamente.

Pois bem, esta minha suposta qualidade sempre foi muito bem aproveitada ao andar nas ruas do Rio de Janeiro, cujo modelo de plano urbano em tabuleiro de xadrez (ruas quase sempre perpendiculares entre si) está internalizado por mim. Observe no mapinha abaixo, do centro do Rio de Janeiro, como este padrão é quase uma regra. E não só o centro, mas toda a cidade do Rio tende a este tipo de organização. É muito fácil no Rio de Janeiro pegar um mapa e colocá-lo na orientação correta para que sigamos nosso caminho.

Qual não foi minha surpresa, ao chegar em Santa Curz de la Sierra e me deparar com uma cidade cujo plano urbano não é em tabuleiro de xadrez, mas radial! Radial é um plano urbano onde as ruas se organizam a partir de ruas em forma de círculos concêntricos, veja só:

Em Santa Cruz, estes círculos são chamados de anéis e é a partir deles que você se localiza na cidade. Sempre que alguém vai lhe explicar onde fica algum lugar, diz que é na rua tal que fica no centro ou entre o 1º e o 2º anel, entre o 2º e o 3º, ou entre o 3º e o 4º. Parece simples, e talvez seja. Mas o fato é que isto me abalou mentalmente. Passei 3 dias em Santa Cruz e provoquei vários momentos perdidos na cidade, já que eu – devido ao meu suposto ótimo senso de direção – sou sempre a responsável pelos caminhos. Não conseguia sequer orientar o mapa em minhas mãos e, para minha surpresa, meu delicioso marido, dono deste blog, passou a me ensinar os caminhos.

Fiquei pensando no que Cervantes fez pelos espanhóis… A loucura do Quixote inspirou cidades redondas, talvez motivada pelo girar dos moinhos de vento. Acho que esse mesmo vento soprou no Vinícius e, de repente o que era errado passou a ser certo. Ou o que eu pensava que era errado na verdade era certo.

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 21 de maio de 2010