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Barranquilla, a cidade mais quente do meu mundo

Quando me falaram que meu destino seria Barranquilla, gelei. Sabia que iria à Colômbia, mas esperava Bogotá, ah, que vontade tenho de conhecer Bogotá, sua catedral, as obras de Botero… Esperava até a violenta (ao menos em nosso imaginário) Medellín, suas facções criminosas, seu perigo em cada esquina… mas o destino me reservou Barranquilla. E me questionei, mas que raios terá Barranquilla? E quando anunciava minha viagem para alguém com ar de autoescárnio, o ouvinte, no lugar de debochar-me, dizia: “Ah, você vai pra terra da Shakira!” E assim descobri que Bogotá tem sua catedral, Medellín seus fuzis e Barranquilla tem a Shakira! Ou melhor, tinha, pois quando cheguei à cidade, diziam que ela mal pisava mais na terra natal – fofocas.

Passei horas trancafiado no aeroporto de Bogotá, depois fui num aviãozinho de brinquedo para Barranquilla e quando cheguei à cidade, a noite já estendia seu lençol negro. Eu não podia esperar mais, queria conhecer a cidade que vai além de ser maternidade de cantora pop, queria conhecer seus becos, quem sabe ser assaltado em alguma esquina, comer alguma coisa, olhar os passantes, ser picado por bichos regionais. Quando abri a porta do quarto que me separava do mundo, senti sensação idêntica à que senti quando desembarquei do avião: um bafo dos infernos! Barranquilla é quente como a terra do cramulhão. Barranquilla é úmida como uma chaleira fervente. Dois passos pela cidade e percebe-se que o corpo humano é realmente feito de setenta por cento de água, senão mais. Numa breve caminhada noturna, percebi que o que está no céu é o Sol travestido de Lua. Barranquilla é mais que a cidade da Shakira, é a cidade mais quente do meu mundo.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2011

suor

Brasil Colômbia

Penso que um velho marinheiro, que tenha viajado por todo o mundo, pode saber em que mar se encontra pela maneira do barco balançar.”
(Gabriel García Marquez em Relato de um náufrago)

Minha ansiedade para chegar à Colômbia era muito alta. Não pela Colômbia em si, mas pela Colômbia que havia e há em minha imaginação, pela Macondo que sonhei encontrar, inda que soubesse que para encontrá-la não precisava ir à Colômbia. Viajei por horas imensas, mas não tão imensas como as que viajei pelas páginas de Cem Anos de Solidão, Relato de um Naufrago, Amor nos tempos do Cólera, Cândida Erendira, o General em seu labirinto… enquanto eu voava, as frases, soltas, voavam por mim:

O mundo avança. Sim, respondi, avança, mas dando voltas ao redor do sol.
As pessoas que a gente ama deveriam morrer com todas as suas coisas.

Os filhos herdam as loucuras dos pais.

Antes de pisar em solo, eu não sabia qual das Colômbias era a mais real. Depois que pisei em solo, tampouco descobri. Sou um ignorante que não sabe onde começa e termina a Colômbia do García Marquez, onde começa e termina a Colômbia das FARC, onde começa e termina a Colômbia da Shakira. Sou tão ignorante que não sei a diferença entre a Colômbia e o Brasil. Eu achava tudo tão igual, tão igual ao ponto de me confundir e, por mais que o avião balançasse em ritmos diferentes, eu não sabia, enquanto voava, em que céu estava. Nas minhas primeiras horas, tive a certeza que brasileiros e colombianos somos irmãos, tive certeza que nossos países são idênticos, pelo menos enquanto se está no céu.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2011

As citações no meio do texto são de García Marquez nos livros: Memórias de Minhas Putas Tristes, Amor nos tempos do Cólera e Cem anos de solidão.