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Sinos da Agonia

É triste o toque de agonia, disse ela quando terminou de rezar. Sim, é triste, mas é belo demais.
(Autran Dourado, Sinos da Agonia)

Mariana é uma subida. Enquanto em Ouro Preto o viajante ora sobe, ora desce, em Mariana, o viajante sobe. As principais igrejas são aquelas que estão mais junto ao céu. De mapa em mãos, procurava a Igreja de São Pedro dos Clérigos. Em verdade, chegar até ela não é difícil: há que subir. Difícil é acertar o caminho mais curto. Com pressentimento que o som vinha de lá, deixei-me guiar pelos sinos que tocavam incessantemente. Lembrei da obra de Autran Dourado, Os Sinos da Agonia: no século XVIII enquanto não morria o enfermo, os sinos tocavam em agonia, para que toda a cidade rezasse pela alma do quase-morto. Os sinos de Mariana estavam insistentes, imaginei que a tradição fora mantida e que alguma alma teimava em não desencarnar. Eu nada podia fazer pelo agonizante, já não era mais aquele bom aluno do catecismo: esquecera o Credo; não lembrava mais da Salve Rainha; ave Maria – por ser curta – inda conseguiria arriscar, mas preferi balbuciar os primeiros versos do Pai Nosso que estás no céu, santificado seja teu nome, venha a nós o vosso reino… apertei o passo e, antes de chegar no Amém, cheguei à Igreja de São Pedro dos Clérigos. Os sinos dobravam.  Vi a bonita fachada da Igreja que é diferente das outras que tinha visto até ali e, lá de cima, observei todo o corpo de Mariana.  Entretanto, os sinos dobravam ao ponto de arrepiar até o mais valente dos homens, imagine eu: covarde. O quase-falecido não largava o quase. Após pagar, entrei na igreja junto com outros que faziam o sinal da cruz, os sinos dobravam. Andei ao lado dos bancos e genuflexórios, fui até o altar. Lembrei do que dizia minha avó: ao sair duma igreja, nunca dê as costas pro altar. Andei meio sem jeito até sair. Os sinos inda dobravam e o som parecia cada vez mais forte, triste e belo. A esta altura eu já amaldiçoava o quase-falecido: maldito finado que não quer findar e que me obriga a ouvir este som de terror, que vá pro inferno. Ao sair da igreja, a moça que cobra entrada me recomendou: agora vá por estas escadas aqui, pois levam aos sinos. Os sinos!, repeti. Quase hipnotizado, subi. As escadas eram estreitas e precárias, nas paredes, diversos avisos: favor não tocar os sinos; favor não tocar os sinos; favor não tocar os sinos… O quase-finado deveria ser importante pra se quebrar a regra, o padre estaria ensandecido de tanto fazer o sino dobrar, a esta altura já estava surdo. Finalmente, cheguei ao topo da Igreja. Lá estavam os sinos e não havia padre algum. O que havia eram dois pestes duns moleques que se entretinham a bater o sino e a rir. O clima de agonia em Mariana era brincadeira de duas crianças. Cheguei até o parapeito, vi o corpo da cidade ainda mais de cima. Ri. Me aproximei dos molecotes e perguntei: será que agora posso tocar um pouco deste sino também?

Antunes
Rio de Janeiro, 8 de novembro de 2010

Diante da Igreja São Pedro dos Clérigos

Altar da Igreja São Pedro dos Clérigos

Escadaria da Igreja São Pedro dos Clérigos que leva aos sinos

Os sinos que dobravam na Igreja São Pedro dos Clérigos

Torre da Igreja São Pedro dos Clérigos

Pretos Mina

Preto mina é pras lavras, pras faisqueiras. A fama dos minas na faiscação, o faro para o ouro. Tinham parte com o demo, feiticeiros. De longe os olhos de um mina eram capazes de catar num cascalho um grão de ouro da melhor qualidade.”
(Autran Dourado, Os Sinos da Agonia)

A primeira sensação que tive foi medo. Abordou-nos um guia turístico como se lesse pensamentos: querem conhecer uma mina? Queremos – disse minha esposa. Eu me sobressaltei, não sabia se podia confiar no homem. Começou a nos conduzir por subidas daquelas que só se encontram nas Minas Gerais. Depois de muitos passos, temi por nós. Começamos a entrar em algo parecido com uma favela. Pensei: nos arrastou feito dois gringos ingênuos e agora nos vai assaltar e matar, nosso corpo ficará eternamente perdido, ironicamente sem história diante de uma Cidade Histórica. Mas não. Não morríamos e parecia que não iríamos morrer. Chegamos a um casebre só de tijolos, um barraco. Dentro dele havia uma mina: Jeje. Dizem que, próximo ao Centro de Ouro Preto, é uma das melhores Minas pra se visitar por seu bom estado, iluminação e por quase não ter infiltrações e umidade. Um curioso por profissão foi nosso guia. Não apenas conhecia a mina, como conhecia Ouro Preto, as rochas, os morcegos, os fantasmas dos escravos, as almas penadas dos senhores, a assombração de Tiradentes e onde morara cada pepita de ouro que havia sido retirada dali e levada para Portugal. Diferente dos escravos, nos protegemos com capacetes. Um senhor, nos primeiros segundos, claustrofóbico, pediu para retornar, desistiu de visitar a mina. É o medo. Medo porque as rochas cantam cantos fúnebres que aprenderam com os escravos. Os caminhos se estreitam, até que chegamos a uma clareira. Por ali passaram escravos cujo destino era apenas lavrar e morrer. Morriam: centenas, milhares. A vida era curta quando se trabalhava dia e noite deitados à escuridão, lavrando. Uns conseguiam o êxito de algum ouro escondido no cabelo, sob a língua, ocultado no cu. Para os brancos, os pretos mina eram os diabólicos, pois não tinham o que perder, a vida já estava perdida. Foram estes pretos do diabo que cobriram de ouro as igrejas de Vila Velha, de Lisboa e, quiçá, de Roma. Foram estes pretos que não foram pra história.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de outubro de 2010

A entrada da mina é por uma casa, mais parece um barraco

À entra da Mina

Nôla às portas da Mina

No melhor estilo "tchui tchun clais"

De onde era extraído o ouro

Dentro da mina

Corredores cada vez mais estreitos

A mina se torna em certos trechos, bem baixa


Interior da Mina Jeje