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Dieta a pão de queijo

– Bom, dia senhor Vinícius, é o nosso serviço de despertador, já são sete e meia.

– Muitíssimo obrigado mesmo! – agradeço.

É assim que começa o meu dia no hotel. Como esqueci o carregador do celular, sou despertado por alguém que me acorda pelo telefone. Desço, trezeguetiando, até o pilotis e desjejuo rodeado de pães de queijos. Vou ao curso. 10:30 é sinônimo de intervalo. O lanche: muitos pães de queijo. Quando chega o almoço eu nem tento comer nada, com medo que me ofereçam pães de queijo. 15:30 é sinônimo de um segundo intervalo e, adivinhem: mais pães de queijo. Como não almocei, sinto fome e sou obrigado a comer. Às 18h saio do trabalho e vou procurar um lugar para jantar que não possa oferecer-me pão de queijo, difícil tarefa, até McDonald’s, hoje em dia, serve pão de queijo. Imagino: dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles, num pão de queijo! É Minas Mac! Volto ao quarto. Recostado, durmo. Tenho pesadelos terríveis com um imenso senhor Pão de Queijo que me persegue rodeado de pães de queijinho. Sempre que estou no auge do pesadelo, toca o telefone. Então, não resisto e agradeço enfaticamente àquele que me salva: Muitíssimo obrigado mesmo!

Antunes
Belo Horizonte, 25 de novembro de 2009

Belém, um pomar

Quando voltei para o Rio de Janeiro da viagem de São José do Rio Preto levou-me pra casa um taxista que defendeu uma curiosa tese: Sabe toda essa área aqui da Glória, do Flamengo?…  essa região aqui do aterro… pois então, toda ela deveria ser um pomar, imagine que bonito, as famílias passeando num lugar arborizado, pegando frutas, comendo, ia ser outra coisa isso aqui. Dias depois, fui a Belém e me lembrei do taxista: toda a cidade está repleta de mangueiras. Andando por ali, encontramos mangas mais que amadurecidas caídas pela calçada que servem de diversão para os mosquitos. Os mendigos, vários em Belém, também são apreciadores das mangueiras. É a solução econômico-social pra fome!, dizem alguns. Outros acham que as mangueiras são quase humanas: elas têm vida também, como nós, e são centenárias… Há, ainda, aqueles que evocam as mangas como patrimônio histórico: sabe há quanto tempo essas mangueiras estão aí? Não? Nem eu! São antigas demais, rapaz, são parte da nossa história. Como dizem, nem Cristo é unânime, então não podem ser as mangueiras: algumas pessoas simplesmente querem arrancá-las desde a raiz, odeiam mangas, tornaram-se alérgicas, deixaram de consumi-las, não podem sequer vê-las, tampouco respira-las. Por quê? Os motivos são muitos: ingênuas mangas levaram a senhora da Nazaré, nº52 , para o hospital após terem caído sobre a sua cabeça; o Pinscher de Fátima, que com Deus esteja, teve seu caminho interrompido por uma manga; e quantos carros já não foram sujos, amassados, quebrados por causa das mangas? Parecerá mentira e não acreditará, mas, ainda assim, ousarei falar: há, em Belém, um seguro feito pra proteger os carros contra as mangadas. Ou seja, feito o seguro você poderá estacionar, sem medo, à sombra duma frondosa árvore. Concluo, então, embasado na experiência do taxista: quando sonhamos com algo, em algum lugar torna-se real. Só não sei se ele gostaria de estacionar seu taxi sob alguma mangueira de Belém. Talvez seja melhor que os sonhos sejam sonhos e que a realidade seja realidade.

Antunes – Carajás, 23 de setembro de 2009.