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Marchar!

Curioso é que a palavra Marchar em português está diretamente relacionada (pelo menos em meu imaginário) aos eventos militares. Quem marcha, é soldado. Esta verdade nos está incutida desde a infância quando ouvíamos repetidas vezes a canção “marcha soldado, cabeça de papel…” Em espanhol não é assim. A palavra MARCHAR, antes de estar relacionada a eventos militares está relacionada a dois sentidos: 1 – o ato de ir embora; 2 – o ato de se manifestar (marchar hasta el edificio del gobierno, marchar por la paz) . Na Bolívia, país extremamente politizado, as marchas são cotidianas. Pude presenciar manifestações em Santa Cruz de la Sierra, Sucre e La Paz. Diferente do Brasil, país em que o envolvimento político é visto como algo pra se sentir vergonha, na Bolívia, política é uma prática muito séria e está às mãos de quem quiser fazê-la. Basta marchar sobre as ruas e praças.

Antunes Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

Vi manifestação em Santa Cruz de la Sierra

Vi manifestação em Sucre (esta só de mulheres)

Vi manifestação em La Paz

Vídeo de Manifestação em Santa Cruz de la Sierra

Vídeo de manifestação em La Paz

EVO-LUCIÓN!

É comum, cotidianamente, que a mídia brasileira massacre governos como de Fidel Castro, Hugo Chavez e Evo Morales. Porém, nada como ir aos países e perceber que tudo não passa de uma leitura feita pelos olhos dos endinheirados que dirigem os meios de comunicação e de repórteres que usam os jornais como espaço de inusitadas opiniões e não apresentam nenhuma prova concreta. Estive na Bolívia, passei pelas três cidades que se dizem capitais: 1)Santa Cruz de la Sierra que busca a autonomia e que os opositores de Evo garantem ser a capital econômica do país; 2)Sucre, capital histórica do país; 3)La Paz, capital política do país, onde se localiza a sede do governo.

Os principais opositores de Evo são descendentes de brancos, minoria da população, mas com maior poder político. Porém, graças a cidades como El Alto e La Paz, o apoio a Evo Morales é esmagador e são memoráveis atos do presidente como a redução de seu próprio salário pela metade (atitude impensável aqui no Brasil). Ao me dirigir às ruínas Tihuanaco, passei por uma região mais rural de La Paz e o motorista me indicou as universidades rurais construídas durante o governo de Evo Morales, um avanço incrível para o país, porque permite ao indígena estudo e trabalho, sem que ele precise deixar o campo e arriscar-se na cidade grande. Além disso, a identificação do povo com seu presidente é um grande benefício para o país que sempre fora governado por brancos (cabe lembrar que os indígenas, mesmo sendo a maioria da população, sofrem preconceitos e são chamados de forma pejorativa). Com Evo Morales no governo começa a construção de uma nova Bolívia, fruto de lutas seculares, presentes no país desde a colonização pelos espanhóis. Aprendi com minha esposa, estudante de Geografia da Bolívia, o termo Pachacuti. Significa, para os indígenas, um marco transformador em seu mundo, uma reorganização, um recomeço. Muitos têm visto Evo Morales como o novo Pachacuti, a evolução do país, a Revolução, a EVO-LUCIÓN!

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de julho de 2010

Eu com a camisa EVO-LUCIÓN comprada na Bolívia (Santa Cruz de la Sierra), diante de uma praça com ornamentações indígenas em La Paz.

As meninas-pássaro

São duas meninas-pássaro, irmãs ícaro, que se chamam Paloma, assim igual. Trabalham e brincam de vender comida de pombo pras senhoras e pros senhores, pros namorados e pras crianças que passam a tarde a vadiar na Praça 25 de Maio no centro de Sucre.  Vão de banco em banco, num vôo rasante, nuns saltos curtos, a ciscar umas moedas, a pedir algo de atenção, a vender punhados de alpiste para o bando de pombinhos comer. Seu trabalho é muito nobre, pois alimentam a barriga dos pombos de alpiste e a criançada de alegria. Andam com uma roupinha suja, com os olhos pesados de remela, com sorriso de vendedora. Não aprenderam, nem aprenderão, a falar na língua das gentes, só sabem falar a língua do arrulho. Se empoleiram nos monumentos da praça e dormem ali, encolhidas, cheias de pulgas e carrapatos, cobertas de cocô de pombo. Quando despertam comem do alpiste e aguardam o dia em que também voarão livres aos céus.

Antunes
Rio de Janeiro, 6 de julho de 2010

Duas meninas-pássaro, irmãs ícaro, que se chamam Paloma, assim igual.

Vão de banco em banco, num vôo rasante, nuns saltos curtos, a ciscar umas moedas, a pedir algo de atenção, a vender punhados de alpiste para o bando de pombinhos comer.

Un poco de picante

Fica o alerta: não são só os Mexicanos e Chilenos que gostam de queimar a língua. Os bolivianos também. Jamais, caro leitor, eu disse: jamais! acreditem quando um garçom te disser que a comida só leva “un poco de picante” (um pouco de pimenta). Foi assim que minha esposa sucumbiu. Eu bem que ainda tentei avisá-la: Nôla, não arrisque nada com pimenta. Mas o garçom falou que é só um pouquinho. Aí nós resolvemos perguntar novamente pro garçom: este prato aqui dos apimentados é o que tem menos pimenta, né? Sí, por supuesto. Resultado: veio um lindo prato com batata frita, frango, carne… mas, totalmente imerso em molho de pimenta. Sorte que o restaurante fornece junto com o saboroso prato um litro de refresco sem taxa adicional. Ou seja, fica aí a dica, na dúvida, faça como eu: coma um bife à parmegiana. Quanto a minha esposa, dividimos o bife.

Antunes
Rio de Janeiro, 6 de julho de 2010

A Velha Bodega em Sucre

Apagando o incêndio

Tranqüilão, comendo meu parmegiana

A Praça como centro da vida

Historicamente a praça possui um sentido muito importante: local de confronto filosófico, pregação religiosa, crítica política, lazer… nas cidades grandes, as praças cada vez mais perdem espaço. Quem do Rio de Janeiro passa o melhor de seus fins de semana em uma praça? Quem de São Paulo vai à praça buscar namoradas e lazer? Viajando pelo Brasil, comecei a ver que a decadência da praça não é tão iminente assim. Em várias cidades, principalmente nas pequenas (mas não só), a praça, e não a página do orkut, é ainda o principal ponto de encontro da cidade. Porém, comprovei a importância da praça ao viajar pela América do Sul. É impossível Buenos Aires sem a Praça de Maio. E o que dizer da Bolívia? Suas três principais cidades: Santa Cruz, Sucre e La Paz, possuem praças que usufruem de centralidade política e cultural. Foi em uma praça, na principal (talvez única) praça de Sucre, que passei praticamente todo o meu único dia na Cidade, sentado ao lado de minha esposa, observando o movimento sucreño. Ali as mulheres vão arrumadas, os pais levam os filhos pra brincar, as moças levam seus pets, os moleques sentam a olhar pro nada, os pombos ciscam e namoram e as vendedoras passam, crianças e adultas, as únicas a trabalhar enquanto todo mundo descansa.

Antunes
Rio de Janeiro, 3 de julho de 2010

na Praça de Sucre

A Praça 25 de Maio em Sucre

El chico y su perro

As crianças e os pombos

As crianças brincam no monumento da praça

Nôla posando na praça de Sucre

Passamos a tarde inteira sentados em uma praça em Sucre

O mercado de Sucre

Gosto de descobrir as cidades pelos seus mercados, pois dali saem os lixos que os povos vestem e comem. Sempre me impressionam, pois são o oposto do resultado final que vemos à mesa. No Ver o Peso em Belém, antes dos belos camarões do Vatapá irem ao nosso estômago, estão jogados dentre urubus. Em Aracaju, as castanhas antes de fazerem salivar nossa boca, estão socadas e apertadas em imensos sacos sujos. No Rio de Janeiro, antes do santo comer um frango, este está todo cagado em sua gaiola. Somos a sujeira dos mercados disfarçada pelo nosso orgulho e vaidade. Em Sucre, o mercado é branco por fora, mas cinza por dentro. Ali vão cholos e cholas a comprar não sei quantos grãos e folhas, a catar alguma carne sobre as bancadas, a atravessar corredores labirínticos de salubridade incerta. Por aqueles corredores vão, cholos e cholas, tão humanos quanto nós, tão sujos quanto nós, a consumir os mesmos lixos que nós. Sorte que os vermes tampouco são exigentes.

Antunes
Rio de Janeiro, 3 de julho de 2010

O Mercado de Sucre por fora

Os corredores do Mercado de Sucre

As verduras do Mercado de Sucre

Infinidade de grãos no Mercado de Sucre

Carne sobre bancadas

A mãe chola sai com seu filho do Mercado, carregando as compras

Um sujo entre a brancura da cidade

La Ciudad Blanca nació hacia 1622, cuando a um virrey caprichoso que la visitaba se le ocurrió ordenar que todas sus casas fueran pintadas de blanco.
(Edmundo Paz Soldán, “Fábula de la Ciudad Blanca y los graffiti”)

Sucre é também conhecida como a Cidade Branca, não sei o motivo, mas me aproprio deste, de uma cidade também branca, inventada pelo boliviano Edmundo Paz Soldán. Conforme alguém vai se aproximando de Sucre, não se pode imaginar a brancura da cidade. Sucre é o inverso dum ovo, a gema é branca e é ao redor que cabe a cor quente, um laranjado de casinhas pobres de tijolos. Pelas ruas centrais, os mercados, os prédios comerciais, os restaurantes, os museus, as igrejas, todos são brancos, talvez para se ressaltar a pele dos índios, a menina dos olhos, as infinitas cores das roupas. Lá esbarrei com um cão, outrora branco, naquele instante cinza. O cão que em algum momento se confundiu com a cidade e eu, confuso com tudo, tiramos uma foto que nos eternizará sujos diante de Sucre, a Cidade Branca, mas nem tão branca assim.

Antunes
3 de julho de 2010

As periferias de Sucre não possuem nada de branco

A gema de Sucre é clara como a Clara do ovo

A Igreja é Branca

As casas são brancas

A universidade é branca

Mas nem toda a cidade é tão branca assim: eu ao lado dum cão ou um cão ao lado do outro.