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Duas cidadezinhas quaisquer

“Êta vida besta, meu Deus.”
(Carlos Drummond de Andrade, Cidadezinha Qualquer)

Não fosse Drummond e o ferro, Itabira continuaria sendo a mesma cidadezinha qualquer. Na verdade, sejamos realistas, mais pelo ferro do que por Drummond. No taxi, inda em Belo Horizonte, exclamei cheio de ares poéticos ao motorista: “Itabira, terra do Drummond!” e o sujeito me indagou “de quem?”,” Drummond, o poeta…”, “Ah…” Na própria Itabira, perguntei: “Onde fica o memorial do Drummond?”, “O quê?”, “A estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade.”, “Ah, fica por ali.” Eu deveria estar com feições bem patéticas, rumo à Itabira drummondiana parecia que eu iria conhecer a Paris de Baudelaire. Quando cheguei lá, percebi que a relação não era exatamente a mesma. Aquela vidinha besta, as ladeiras reticentes, a igrejinha sozinha, a vagarosidade dos habitantes… esta é uma Itabira, a dos caminhos que celebram Drummond e que quer ser a cidadezinha ficcional. Há outra, a imensa Itabira de ferro, a rápida Itabira global, a Itabira dos livros de geografia e não dos livros de poesia. Foi por estas Itabiras que caminhei e, ao olhá-las, tive a certeza do quão genial foi Drummond.

Antunes
Rio de Janeiro, 4 de janeiro de 2011

Itabira vista de cima

Uma pracinha qualquer...

Igrejinha

O mercado da cidade

A cidade que cresce, filha do ferro

A Itabira que vai pro mundo: A mina de ferro

A difícil travessia de Congonhas a São João Del Rei

Depois de visitar a Romaria e o Santuário dos Matosinhos, a pergunta era: como sair dali? Congonhas não é dinâmica como as outras cidades históricas. Sorte que contamos com a colaboração dum sujeito extremamente solicito:

– Senhor, por favor, como a gente pega um taxi aqui?

– Eu ligo pra vocês.

Foi assim, pedimos a informação e ganhamos o taxi.

Em 15 minutos o veículo estava nos levando. O motorista era um senhor de cabelos grisalhos e ar sério. Deixou-nos por 15 Reais na rodoviária e, ofereceu, por mais 150, levar-nos até São João Del Rei.

– Só mais 150 deixo vocês na porta da pousada.

– Tá muito caro pra gente, estamos fazendo uma viagem de baixo orçamento.

– Vou ficar aqui esperando caso mudem de idéia.

Ao chegarmos ao guichê fomos informados que todos os ônibus estavam lotados. A tal de Viação Sandra enchia os ônibus em outras cidades e chegava a Congonhas sem uma vaguinha sequer. A atendente matou o pouco de esperança que tínhamos: “ó, a chance de vir com lugar é quase zero, tá chegando tudo lotado.”

Para que não nos sentíssemos sós, Deus enviou uma companhia:

– Cês tão esperando o ônibus pra São João?

– Isso.

– Não tem lugar, né?

– Tem não.

Nisso, surge nosso taxista:

– Vocês ainda estão aí? Por que não dividem o taxi com esta senhora. Levo vocês até São João Del Rei.

Ficamos animados, mas a senhora foi irredutível:

– Não, obrigado.

Ficamos às moscas esperando o ônibus e nada dele, nem cheio, nem vazio.

Dez minutos depois, volta o taxista.

– Pois ainda estão aí?

– É, né?

– Eu faço por vocês por 130. O que acham?

A senhora uma vez mais se mostrou irredutível.

Passados mais 10 minutos, volta o taxista e fala aos nossos ouvidos:

– Olha, vou fazer por 115 pra vocês, só pra não levar esta senhora. Que mulher mais irredutível!

No sufoco, minha esposa e eu aceitamos a proposta e partimos de taxi até São João Del Rei, graças à incompetência da Viação Sandra, à irredutibilidade da senhora e à insistência do taxista.

O piloto, aquele senhor grisalho e sério, foi esbravejando contra a senhora:

– Que mulher maldita, não queria andar no meu taxi. Bicho ruim de jogo, bla, bla, bla.

De repente, no meio da conversa ele nos faz a primeira revelação:

– Vocês sabiam que eu sou adventista?

Pensei cá comigo: “e daí?” No segundo seguinte ele nos deu um cartão.

– Leram aí, sou adventista: ADVOGADO e DENTISTA.  Hahaha.

Seguimos a viagem ouvindo sobre as suas três profissões: advogado, dentista e taxista. De repente, ele resolve fazer a segunda e bombástica revelação:

– Se eu contar mais uma coisa pra vocês, juram que não contam pra ninguém?

– Claro, fique à vontade.

– Sou descendente direto de Luís XVI.

Fez-se silêncio, leitores. E fomos assim, até São João Del Rei, em reverência à vossa majestade.

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 2010

A horrível e imprestável Viação Sandra (repare na mão de insatisfação que captei no canto inferior direito da foto)

De como cheguei à Igreja de Matosinhos em Congonhas

Como o leitor deve ter percebido, na última crônica eu estava em Mariana. Pois começo aqui minha passagem por Congonhas. Mas, antes disso, meses atrás, minha esposa teve o trabalho de pensar como circular entre as cidades históricas. Pasme, leitor, pois nossos destinos turísticos são péssimos em deslocamento. Nos foi mais fácil, na Bolívia, conseguir comprar passagens de uma cidade pra outra do que viajar pelas Cidades Históricas mineiras.

Voltamos a Ouro Preto e acordamos cedinho para viajar para Ouro Branco e de lá ir para Congonhas. Para chegar a Igreja dos Matosinhos, pegamos um ônibus na rodoviária que deu uma volta desesperadora (ou seja, leitor, se você quer ganhar tempo, vá de taxi). Congonhas não é uma cidade bonita e não vale a pena se hospedar por lá, entretanto, se torna indispensável visitá-la, pois possui o maior acervo barroco do mundo e ficar diante de sua igreja é como sentir-se uma criança diante de Deus.

Antunes
Rio de Janeiro, 9 de novembro de 2010

O transporte

O melhor meio de transporte em Buenos Aires são seus pés. Nada como andar pelas ruas antigas, passar pelos prédios históricos, cruzar praças monumentais. Porém, longe de ser a única opção. O transporte de Buenos Aires é bom, barato, só não chega a ser bonito (diga-se de passagem, é bem feio), mas é melhor que o nosso. Os taxis estão pela metade do preço pra gente. Afinal, com o peso desvalorizado os brasileiros levam vida de bacana. O metrô (El Subte) custa cerca de sessenta centavos de Real, é antigo, sem ar condicionado e suas estações são azulejadas. Mas, a grande atração dentre estas, são os ônibus! Se você nunca teve a oportunidade de sair em um carro alegórico, será na Argentina que realizará este prodígio. Os ônibus são coloridos, possuem um bigode (esta frase roubei da Emily), e andam de franjinha: uma divertida junção de mau gosto e cafonice. Se você é um bom brasileiro e tem por hábito jogar suas moedas fora ou empatá-las em um porquinho, perca este hábito. Moeda na Argentina é coisa difícil e muito útil. Não pense em pagar os ônibus com notas, eles não aceitam, só vale moedinha. Se o tio Patinha resolve se mudar para a Argentina percorreria, molinho, o país num ônibus. Trocador, cobrador, não existe isso lá. Sendo assim, atualizemos o ditado: “na vida tudo é passageiro, menos o motorista.” No lugar desta profissão muito popular no Brasil, mas em vias de extinção, está uma robusta e mal-encarada máquina de moedinhas. Ali você coloca o dinheiro da passagem e ela lhe retribui com o troco e um recibinho.  Além disso, a máquina de moedinhas não avisa em que ponto saltar, não lhe diz que não tem troco, não dá o troco errado, não come cheetos durante a viagem, não alisa a mão das menininhas, não dorme durante o trabalho, nem grita: vai saltá, piloto! Ou seja, um retrocesso à diversão urbana! Trocadores de todos os países, uni-vos!

Antunes Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2010

Metrô

Os azulejos do Subte

O ônibus com seu bigodinho

A máquina de moedinhas que substitui o trocador do ônibus

A frente do ônibus

Transporte Estilo Angélica

Desce, moço! Desce!

Parece que o dia 10 de novembro de 2009 era mesmo meu dia de histórias com taxi. Depois do Rio, dita na postagem anterior, conto outra, já em Belo Horizonte. Cheguei perdido a um aeroporto que sei lá qual era, saí quase cambaleando, impressionado, parecia que pousáramos no meio do mato. Olhei um busto: era o presidente Tancredo, descobri que o nome do aeroporto era o nome de vossa excelência. Liguei prum número de taxi que constava no voucher.

– Preciso dum taxi.
– Pois diga.
– Digo: tô no aeroporto.
– E qual?
–  Do Tancredo.
–  Da Pampulha?
– Sei lá, só sei que é do Tancredo.
–  Tá bom, já mando o taxi
.

Nada do taxi vir. Chegou um sujeito até mim.
– Pediu um taxi?
– Pedi.
-Qual?
– É tal.
– Iiih, tal taxi não atende aqui não.
– Como não?
– Não.
– Entendi.

Liguei e perguntei. A moça confirmou que viria. Veio de novo o sujeito:

– Liga de novo.
– De novo?
–  É.

Liguei. Expliquei pra moça do telefone e ela falou: ah, cê tá no Confins, aí a gente não atende mesmo não. Logo me assustei, pois o nome do lugar era muito sugestivo. Como eu conseguiria um taxi no Confins, ou, talvez, nos confins. Veio o moço de novo, disse que tal empresa lá aceitava o voucher e ficava ali onde apontava ele. Fui. Cheguei diante dos carros:

– Seu moço, aceita este voucher.
– Pois, sei não, vou perguntar pra meu amigo.

Perguntado, o amigo respondeu: aceita, leva ele (esse ele sou eu). Fui com o velhinho quase centenário a dirigir com sua cara de bonzinho. Chegamos ao meio do caminho, toca o celular do vô. Fala um pouco e, depois, o velhinho passa o celular pra mim: a moça da cooperativa quer falar contigo. Atendi.

– Com quem falo? – disse ela.
– É com o Vinícius.
– Seu Vinícius, não aceitamos tal voucher.
E? – falei-lhe sonoramente.
Como ‘e?’?
– O que você quer que eu faça?
– O senhor vai ter que pagar.
– Até pago, mas quede dinheiro?
– Se o senhor não tem dinheiro vai ter que descer
(lembro ao leitor que estávamos no meio da estrada)
– Não vou descer, pois o erro foi de vocês.
– O senhor vai ter que descer ou pagar a corrida
– dizia a dona que começava a se desesperar.
– Não vou descer – respondi-lhe.

Então, já sem saber o que falar, nervosa e desesperada, pois a empresa poderia perder esta viagem de 87 Reais, a senhorinha começa a me dizer, infantilmente: Desce, moço! Desce! Vai ter que descer, moço. Desce!

E eu, como alento para aquele pobre coração, com uma palavra definitiva e revitalizadora, lhe respondi: Tá bom, pode deixar que vou descer. É só esperar chegar no hotel. Desliguei o telefone, finalizei a crônica.

Antunes
Belo Horizonte, 12 de novembro de 2009

Uma mulher gostosa

Começa, hoje, mais um novo conjunto de crônicas de uma viagem. Desta vez, meu rumo é Belo Horizonte. Desculpe-me a cretinagem e o machismo, mas começarei ainda no Rio, levando-o a seguinte reflexão: pense numa mulher gostosa. Caminhe com estes olhos caninos pelas curvas. Estacione onde for necessário. Agora, volte cá comigo ao texto.  Já imaginou, velho leitor, se você fosse assim? Isso, exato! Se você, leitora pela qual ninguém dá nada, você leitor de cabelos nas costas, você leitora de pernas de bambu, você leitor de espinhas na cara, imagine, se você fosse uma daquelas capas de revistas, namorada de jogador, musa de borracheiro… Pois eu fui! Vivi esta experiência. Sei que você não acredita, ainda mais, sendo eu tão peludo, mas é a mais insípida, inodora e incolor das verdades. Fui, por alguns breves minutos, uma mulher gostosa e passo, agora, a contar a experiência:

Desci do SENAC Flamengo, Rua Marquês de Abrantes, número 99, com minha mala de viagem, após ter chamado um taxi por telefone – já iriam bater onze da manhã. Parei ingenuamente à calçada com a mala no chão e apoiei-me nela, levemente, como tudo que é belo.  De repente ouço: Psiu! Psiu! Como não sou malandreado em cantadas, visto não recebê-las, resolvi olhar. Era um taxista olhando arregaladamente para a minha mala, como um tarado para um traseiro feminino. Disse que não, e agradeci. Passado isto, fiquei a olhar pra rua e os taxis passavam lentamente do meu lado e todos me olhavam sedentos, uns chegavam a buzinar, outros faziam gestos, uns só tiravam fino e olhavam, como olhavam, teve aquele que quase bateu e outro que parou a fazer promessas: que me dava conforto, desconto. Recusei. Até que veio meu taxi, parou diante de mim, abriu-me as portas e entrei, não sem antes olhar pra trás. E assim fui eu: tal qual caricatura de mulher gostosa. Mal sabiam eles que eu não tinha conteúdo nenhum, meu bolso não sangrava uma moeda sequer, a diferença é que, o que me quis, aceitava voucher.

Antunes Belo Horizonte, 10 e 11 de novembro de 2009