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Paraty: uma Terra do Nunca

São ruas de pedra que remetem àquelas cantadas pelas mães à hora de dormir. São ruas de pedra que não são de brilhante, mas são de pé-de-moleque. São doces ruas, difíceis de caminhar que nos levam aos tropeços a visitar igrejas, a passear por praças, a cochilar em pousadas, a ladear carroças, a comprar artesanatos e doces: comer pé-de-moleque ao andar sobre pé-de-moleque.

Uma canção antiga saída d’alguma garganta espanhola é replicada pelo gramofone de dona Maria Rameck, sai pelas janelas azuis e guia os passantes pelas ruas de pedra, água e fogo da histórica Paraty.

Nas andanças matutinas, vêem-se os pássaros imortais que estão ali desde a fundação da cidade, vêem-se cães e gatos irmanados neste éden urbano. À beira mar, o vento de mãos macias está sempre disposto a acariciar a pele das moças e a saudar os românticos que recitam poemas roubados de algum poeta inglês.

Nos passeios noturnos estão os fantasmas dos piratas que outrora assustavam por ali. Agora, mortos, são amigos das crianças e quando juntos desejam um irônico “vida longa” ao brindar com canecos de vinho e garrafas de rum e repetem piadas insólitas aprendidas com seus papagaios.

Por toda a antiga cidade há rumores que se confundem com as músicas, não se sabe se é o marulho ou as infinitas vozes de senhoras que rezam seguindo as infinitas procissões. Toda Paraty tem uma reverência de igreja, uma graça cenográfica, um mistério maçônico, uma felicidade infantil e um luto de viúva.

E estar na cidade é desfrutar de uma alienação meritosa, de um anacronismo feliz, é despregar-se do tempo dentro do próprio tempo. Mas ao cruzar as correntes do IPHAN, finda-se a viagem pela Terra do Nunca fluminense. Fica a Cidade, vão-se as pessoas: ontem chegaram e partiram valentes navegantes, hoje chegam e partem distintos turistas. Quem chegará amanhã?

Antunes
Publicado no jornal Jacarepaguá Em Destaque, julho de 2010.

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Ourilândia, a Terra do Nunca

Logo que soube que iria a Ourilândia, joguei o nome da cidade no Google. A primeira coisa que me apareceu foi o site da Desciclopédia com o bizarro verbete que dizia o seguinte:

Sem dinheiro para ter uma terrinha em Tucumã todos esses garimpeiros invadiram uma fazenda e fizeram um povoado, construíram seus barracos de lona e pau-a-pique e viveram em condições sub-humanas de saneamento e urbanismo e assim Ourilândia do Norte foi fundada. Sabe-se-lá como foram elevados à condição de município.”

“A grande expressão da economia municipal são os pequenos coronéis criadores de gado, que aproveitam pouco menos de 2% de suas terras para tal ou as arrendaram para a mineração, desviando para si a maioria dos Royalties que a cidade consegue com a mina

A cidade possui uma infra-estrutura de comércio e serviços limitada, em seus supermercados quase sempre faltam mercadorias e as poucas que existem estão vencidas e foram adquiridas nos lixões de Marabá. No setor de vestuário, suas lojas apresentam algumas peças de roupas fora de moda e empoeiradas, tornando a cidade dependente de caixeiros viajantes para conseguir alguma coisa mais atual, como Jeans e camisetas.”

Obviamente, achei muito estranho, porque todas as outras cidades, por mais precárias que fossem,  o Google sempre mostrava algumas informações positivas também. Resolvi escrever para um aluno de Parauapebas, pedindo informações sobre o Eldorado paraense. Eis a resposta:

Ourilândia é um lugar muito feio e perigoso, aconselho quando chegar na cidade fazer somente o deslocamento do hotel para Vale e vice-versa. ” (Cabe ressaltar que o aluno que deu este depoimento está longe de morar no paraíso)

A partir daí foi que vi que a brincadeira era coisa séria. Porém, idiota como todo otimista, continuei insistindo mentalmente que a viagem seria boa. Assim que cheguei a Marabá, às 3 da tarde, perguntei para o meu motorista e guia da floresta, seu Luiz Gonzaga, a que horas estaríamos em Ourilândia. Ele me respondeu: 22h. Eu levei na brincadeira e ri. Demorei, vítima de meu otimismo, sete horas para compreender que ele não tinha brincado. O caminho até a cidade é lunar: só possui buracos e, garanto, a poeira que comi não tinha o menor sabor de queijo. Fui deixado às portas de um bizarro hotel e comi em uma espelunca de aparência também bizarra. Com o transcorrer dos dias, descobri a importância do lugar: OURILÂNDIA É A TERRA DO NUNCA!

Em Ourilândia o celular NUNCA pega

Em Ourilândia o hotel NUNCA é bom

Em Ourilândia a lama NUNCA acaba

Em Ourilândia as ruas NUNCA são iluminadas

Em Ourilândia NUNCA se anda pela calçada

Em Ourilândia os buracos NUNCA são fechados

Em Ourilândia NUNCA há atendimento médico

Em Ourilândia NUNCA há opções de comida

Em Ourilândia NUNCA a imagem da TV é boa

Em Ourilândia NUNCA a conexão da internet é estável

Em Ourilândia NUNCA há entretenimento

Em Ourilândia NUNCA se está seguro

E Ourilândia é a cidade a qual não voltarei, NUNCAAAAAAA!!!!

Antunes

Terra do Nunca, 24 de março de 2010