Arquivo da tag: Tiradentes

O senhor da música

O senhor, com seu passo lento, sobe o morro todos os dias com seu toca cd e um banco. Senta-se diante da cidade de Tiradentes e escolhe quem virá ao mundo, se Bach, Beethoven, Mozart… Quando aperta o play a cidade é outra. Os casais se aproximam e completam-se num abraço, as crianças flutuam sobre a grama, os cães uivam tentando alcançar a música… O senhor permanece imóvel em seu banquinho, como se Tiradentes fosse um quadro a ser admirado. O dia passa e só as músicas o alimentam. Vem a Lua, que sobe do chão como chamada pela melodia. Junto com ela, uma senhora de muitas rugas, sobe o monte. O senhor, finalmente, se move. Levanta-se do banco e a recebe com um beijo. Ele lhe diz “Polimnia” e em seguida a noite os cobre. Ouve-se apenas música, não se vê mais casais, crianças, cães. Só se ouve o amor dos velhos que paira sobre Tiradentes.

Antunes
Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 2010

As Cabeças e a Igreja dos Negros

O senhor veja o efeito, apenas a sensação, imagine; veja a ilusão do barroco, mesmo em movimento como um rio parado; veja o jogo de luz e sombra, de cheios e vazios, de retas e curvas, de retas que se partem para continuar mais adiante, de giros e volutas, o senhor vai achando sempre uma novidade.” (DOURADO, Autran. Ópera dos Mortos)

O olho não se move, como o barroco se move.” (DOURADO, Autran. Ópera dos Mortos)

Só existe barroco porque existem os pretos e quem anda por Tiradentes pisa nas cabeças dos pretos que são as cabeças que pensaram a religião dos brancos que é também a religião dos pretos e que se movimenta pelos corações vermelhos dos pretos que põem sua fé no rosário dos brancos que é a igreja dos pretos, e a santa dos pretos, feito são Benedito, feito Nossa Senhora Aparecida, feito os quinze mistérios da igreja dos pretos, primeira de Tiradentes, que era branco, que sequer queria libertar os pretos, mas virou herói dos pretos que somos todos nós e que negamos ser porque queremos ser brancos, nada de pretos, embora só haja branco porque haja preto, senão sequer se perceberia branco e preto, pois todo antônimo precisa de seu antônimo e quem sabe um dia virarão sinônimos já que são tão necessários um ao outro, mas se queres saber a diferença, olhe as mãos, pois as mãos dos brancos são lisas e as dos pretos grossas, como são as coxas de fazer telhas, como são as cabeças de pensar a religião dos brancos e fazer o mundo dos brancos que antes de ser o mundo dos brancos era o mundo dos pretos, era a escuridão, daí que nasceu o mundo de brancos que só são brancos por causa dos pretos.

Antunes
Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2011

Cabeça de Negro, em Tiradentes, é como se chama o chão de pé-de-moleque

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (Tiradentes)

O teto da Igreja, repleto de histórias e sinais

O Santo Negro

No altar da Igreja Nossa Senhora dos Pretos

Curiosidades Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

A Capela de Bom Jesus da Pobreza

Não sei mais o que é pobreza, a não ser que a pobreza possa ser mais rica que a riqueza. Pois vi pelas Cidades Históricas tanto ouro nas igrejas e que feia elas são, pobres apesar de tão ricas. Quando entrei na Capela do Bom Jesus da Pobreza, em Tiradentes, vi ouro nenhum, mas vi riqueza. A via crucis pintada como fosse o artista uma criança. As paredes como se tivessem sido pintadas por uma menininha que inda se alfabetiza na escola.  E frente à capela, uma charrete rosa, como a esperar as mocinhas-crianças pra dar uma volta pela cidade. O bom Jesus mora numa casa de bonecas e se é onipresente, por que não? Talvez seja o lugar em que mais goste de morar, pois as meninas que cuidam do cristo-barbie são madres atenciosas que inda não estão fatigadas do ofício de ser mãe.

Antunes
1 de janeiro de 2011.

O colorido altar do Bom Jesus da Pobreza

Uma das mais bonitas via crucis que já vi

Às portas da capela

Informações sobre a capela

Diante da capela, a carruagem da Barbie

O Tiradentes de Tiradentes e a Tiradentes de Tiradentes

Se Joaquim José da Silva Xavier nasceu em Tiradentes, a recíproca é verdadeira, Tiradentes nasceu de Joaquim José da Silva Xavier. Antes a cidade ainda era parte de São João de Rei e, claro, não imaginava que se tornaria a recebedora de turistas que é.  Leva até hoje no seu ventre o filho que gerou e que a gerou. Está ali, no largo das Forras, o monumento ao mais famoso alferes da companhia dos dragões. E, atualmente, é que se tem resgatado a imagem mais antiga do seu José. Tiradentes, ainda no império, era o sujeito esquartejado que atacou a ordem. Depois, em plena República, tornou-se o mártir que precisávamos com cara de Jesus Cristo e corda no pescoço. Hoje, Tiradentes é sabe-se lá o que… pra uns o herói republicano, pra outros o alferes da inconfidência. Certo mesmo é que nos restou este Joaquim José da Silva Xavier de metal, arriscando alguma imponência sob as cagadas de passarinhos.

Antunes
Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 2010

Lustrando as botas do alferes


Nôla Farias filma o monumento ao Tiradentes em Tiradentes (MG)

De Paraty a Tiradentes, meu caminho pela História

Comecei a narrar esta viagem inda fora de Minas Gerais, em Paraty, no Rio de Janeiro. Passei por Ouro Preto, Mariana, Congonhas, São João Del Rei… E o mais parecido que vi, foi justamente a primeira e a última cidade deste caminhar histórico: Paraty e Tiradentes. São sobrados de cores diversas, chãos de pedras, igrejinhas perdidas no tempo… confundíveis entre si, embora inconfundíveis.

Antunes
Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 2010

Pracinha em Tiradentes

Ruas de Tiradentes lembram as de Paraty

Diante da Igreja de São João Evangelista

Cantinhos de Tiradentes

Nôla e eu com vista de Tiradentes, diante da Igreja Matriz

Diante da Cadeia Pública

Nôla, ao fundo, Igreja da Matriz de Santo Antônio

Além da Maria Fumaça: os ônibus de Tiradentes-São João Del Rei

Aos que não estão dispostos a enfrentar o tumulto da Maria Fumaça, resta o ônibus. É, leitor, exatamente isto que leste. A Maria Fumaça é mais tumultuada em Tiradentes que os ônibus. São quinhentos milhões de braços querendo fotografá-la, são duzentos e cinqüenta milhões de pessoas querendo entrar ao mesmo tempo. Brigas para encontrar lugar e para sentar, crianças falando pelos cotovelos e a lentidão dos trilhos. Já os ônibus vão vazios, são rápidos e, claro, não têm a menor graça, mas são a melhor opção quando se tem que voltar a São João Del Rei. Duas vezes de Maria Fumaça é exaustivo, o melhor é ir de Maria Fumaça e voltar nos ônibus da viação Presidente. Os horários são pouco divulgados por ambas as cidades, então, fica aqui, bem abaixo, um ato de solidariedade:

Horários dos ônibus de Tiradentes/São João Del Rei e São João Del Rei/Tiradentes

Antunes

Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 2011

A obsessão pelas despedidas

É porque temos a consciência da morte que todo segundo é uma despedida. Cada fragmento de vida não voltará mais, a não ser pela memória que o reconstrói. Somos corriqueiros a nos despedir dos segundos que passam e às vezes dobramos as despedidas, pois além do tempo, nos despedimos do lugar. Assim como a cada segundo uma despedida, a cada passo outra. E somos educados, desde pequenos, a dar tchau. E dar tchau é uma das primeiras ações que aprendemos e que se torna nosso vício infantil. Toda rodoviária tem o espírito do adeus, assim como todo aeroporto, toda estação de trem… Quando me despedi de São João Del Rei, dei o primeiro adeus diante dos trilhos da Maria Fumaça. Ela, Maria Fumaça, nos deixa ainda mais tristes às partidas, pois aparenta ser uma senhora muito experiente em lágrimas de distância e, por mais que partamos ali pra Tiradentes, vizinha, evocamos o tchau. Por onde passa o trem de ferro com seu cachimbo de carvão, as pessoas se inclinam ao adeus. Os vaqueiros se tornam sensíveis e param pra dar adeus à Maria Fumaça. Os meninos à beira do rio, despedem-se das brincadeiras, pra dar adeus à Maria Fumaça. As moças de saias rodadas, caminhantes alegres, fazem uma pausa em sua marcha pra dar adeus à Maria Fumaça. E dentro dela, ao lado dos corredores antigos e sobre seus bancos de mogno, vai um irresistível menino, tão jovem na vida, mas tão obcecado pelo adeus.

Antunes
Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 2010


Vídeo: chegada da Maria Fumaça em São João Del Rei


Vídeo: Vista da Maria Fumaça de São João Del Rei para Tiradentes

Ao lado da Maria Fumaça em São João Del Rei

A Maria Fumaça de São João Del Rei

Fila pra entrar na Maria Fumaça

Dentro da Maria Fumaça

Nô à janela da Maria Fumaça

O caminho da Maria Fumaça