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Presença do ontem

Fim de Ouro Preto, começo de Mariana. Fim de Mariana, começo de Ouro Preto. Ambas antigas capitais de Minas desbancadas por Belo Horizonte. Ligadas por um trem que acumula turistas armados de máquinas fotográficas para retratar nada: um mato do lado esquerdo, uma moita do lado direito, uma pseudocachoeira. O melhor da viagem de trem é o próprio trem e suas simpáticas estações sustentadas pela Vale. Os vagões andam a balançar feito um berço, mais vale dormir no ombro d’alguém que ir desperto a olhar o redor. O maior prazer de estar ali é saber-se não-ali em pouco tempo, é a chegada à outra cidade de mais igrejas, de mais barroco, de mais rococó, de mais passado e sem presente nenhum. Como pode haver presente nestas cidades que vivem um cotidiano de turistas e mais turistas que pedem para que o passado esteja vivo? Como pode haver presente em cidades que os relógios correm à velocidade de um trem turístico? Como pode haver hoje se todos os trilhos levam ao ontem?

Antunes
Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2010


Nôla Farias filma e narra a estação de trem em Ouro Preto

Estação do Trem que liga Ouro Preto a Mariana

Emanoelle diante do monumento ao frango ao molho pardo

Fila para entrar no trem de Ouro Preto a Mariana

Interior do trem de Ouro Preto a Mariana

O lavabo do trem de Ouro Preto a Mariana

"um mato do lado esquerdo"

"uma pseudocachoeira"

Chegada à Estação de Trem de Mariana

O trem-museu da Vale em Mariana

Rio do janeiro

A piada, aprendi no berço: inda pequeno meu pai dizia, se a fralda teimava em baixar da cintura: tá com o janeiro de fora, garoto. Na fase das interrogações lhe perguntei: janeiro?, explicou-me fácil: é o comecinho do anus!

Na estória que conto, o protagonista não tem nome. A bem da verdade, até tem, mas não lhe posso revelar pois, por ser amigo próximo, pediu-me que guardasse segredo. Imagine-o João, Pedro, Daniel, talvez, um nome russo: Gorbatchev. Lhe darei dois dados: antes tinha uma imensa barriga e não tem mais, antes tinha peitos enormes e os operou. Se acertas, ganhas um doce, mas não será isso que adoçará a narrativa.

A Central do Brasil às 18 parece ser o ponto de encontro de todos os trabalhadores do Rio de Janeiro. Ali, vão os das biroscas, das farmácias, dos escritórios, das ruas. Vai também o protagonista desta estória: um gordo desajeitado, ou, se o leitor é de eufemismos, um cheinho simpático. Vão todos juntos, ladeados, o protagonista e os coadjuvantes, parece que a disputar o mesmo último espaço no vagão do trem. A corrida até o vagão é desrespeitosa, cruel, inumana. Cada qual faz uso das armas que tem: as senhoras, das bolsas; as moças, das unhas; os cavalheiros, dos guarda-chuvas; os senhores, das bengalas. Ao protagonista, por conta de seu sobrepeso, sempre subestimado e humilhado, cabe suportar a união de bolsas, unhas, guarda-chuvas e bengalas, além de ter que ouvir todas as reclamações por ser o último dos últimos a entrar no vagão e por espremer ainda mais o que já está espremido.

Neste dia de longo azar – após o protagonista encontrar um lugar para seu braço direito sobre o ombro direito do velhinho, para sua perna direita entre as saias da senhora, para o braço esquerdo sobre a cabeça do anão, para a perna esquerda entre dois senhores de terno, seu corpo entre dezenas de corpos e sua cabeça com o nariz pra cima buscando ar – noticiou o maquinista da geringonça: esta composição não realizará serviços por problemas técnicos. Por favor, dirijam-se à composição na linha 8H.

Passo a este parágrafo, pois de desordem já basta o que aconteceu naquele momento do anúncio. Todos resolveram descer do trem quase ao mesmo tempo, porém os de trás antes dos da frente e o protagonista foi atropelado pela manada humana. Se pensas que todos resolveram usar os métodos recomendados para a transferência de composição, te digo que nunca deves ter ido à Central do Brasil. Os passageiros foram saltando de um trilho a outro, atirando-se na vala com cerca de metro e meio que os protegeria de possíveis atravessamentos. O gordinho, estarrecido, arregalou os olhos e ficou com aquelas dúvidas de um segundo que parecem levar eternidades: pulo ou não pulo? faço o caminho do povo ou o caminho correto? Nos segundos seguintes, atrás dos malandros que saltaram, foram os senhores, as senhoras, as crianças, até os mais idosos e deficientes. Pensou o gordinho: lá vou eu. Tomou distância, saltou na vala dos trilhos do trem, riu-se por ter se saído bem até ali. Porém, quando foi subir de volta para plataforma, encalhou. Ficou ali, de bunda pro ar e suas calças desceram, exibindo o comecinho do anus. Os outros passageiros e eu, que estávamos ali apenas para observar, rimos, rimos daquele janeiro.

Antunes,
Rio de Janeiro, 7 de abril de 2010

No vídeo acima, exemplo do que o nosso protagonista tentou fazer.

Piadinha Pebana-Canaense

Já falei, em algum lugar, que Parauapebas e Canaã dos Carajás têm mais maranhenses que Paraenses (não é uma hipérbole). Isso se deve à linha férrea que liga Parauapebas a São Luís. Brincam, ou talvez seja verdade, que quem quer fugir de São Luís por delito, foge para Parauapebas de trem. Numa aula, um aluno contou pro grupo uma piadinha regional com pitadinhas de preconceito. Transcrevo:

Estavam num avião o Mineiro, o Gaúcho, o Baiano, o Maranhense e o Paraense. No auge do vôo o piloto anuncia: “senhores passageiros, estamos com problemas sérios no avião, precisamos eliminar peso. Joguem pela janela o que possuírem de menos necessário”. O Mineiro pensou: “estou indo de volta pra minha casinha, o que mais tem lá é queijo, vou jogar esse monte de queijo que tá aqui comigo”. Após dizer isso, o Mineiro jogou os queijos pela janela. O Gaúcho, ouvindo o Mineiro pensou: “bá, posso jogar meu chimarrão, lá no Sul eu consigo outro com facilidade”. O Baiano seguindo o exemplo dos outros, resolveu jogar todos os seus aparatos pra oferenda, tamanha a facilidade que teria pra conseguir de novo quando de volta à Bahia. O Maranhense, cheio de camarões e Guaraná Jesus, pensou consigo: “isto eu consigo fácil no Maranhão, vou jogar tudo pela janela pra salvar nossas vidas”. Então, chegou a vez do Paraense que na mesma hora não teve dúvida: “vou jogar esse babaca desse maranhense que tá cheio dessa porcaria lá no Pará”.

Antunes
Rio de Janeiro, 4 de novembro de 2009